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quinta-feira, outubro 23, 2014

Mais sobre autismo

Notícia tirada do site Medical News Today (link) e traduzida livremente para o blog Neuroinformação.

Qual poluído é o ar que respiramos aqui no Brasil? Aqui em São Paulo é bastante. 

Pois um novo estudo fornece mais evidências para a suposta ligação entre exposição a agressores do ambiente (como a poluição) e o risco de desenvolver autismo. 

Pesquisadores viram que crianças com autismo tinham mais chance de terem sido expostas a poluição do ar nos primeiros 2 anos de vida ou durante a gestação do que crianças sem autismo.A pesquisa foi realizada na Universidade de Pittsburgh, EUA. 

O interessante é que a prevalência de autismo e desordens do espectro autista está aumentando. Nos EUA, em 2000, havia 1 criança autista para cada 150 crianças, e hoje, 14 anos após, 1 criança autista para cada 68 crianças (ou 2,2 crianças autistas para cada 150 crianças, um aumento de mais de 100%). No entanto, as causas desse aumento ainda são discutíveis, e vários estudos têm sugerido que a exposição a poluidores ambientes, como pesticidas, pode ser uma causa.

Entre várias substâncias nocivas encontra no ar poluído de grandes cidades ou regiões industriais, temos o estireno (uma substância que, apesar de aparecer em baixas doses na natureza, é utilizada em borracha artificial, isolamentos, fibra de vidro, tubos, componentes para automóveis e embarcações, além de embalagens plásticas de comida, e pode ser formada da queima da gasolina)  e o cromo, elemento químico de número 24, que pode ser encontrado em indústrias de processamento de aço e usinas de produção de energia.

Os pesquisadores fizeram um estudo retrospectivo, ou seja, entrevistaram 217 famílias de crianças com autismo nascidas entre 2005 e 2009, e verificaram se havia ocorrido contato ou exposição a poluição ambiental. Os autores estimaram que cada família esteve exposta a cerca de 30 substâncias que, de acordo com dados da National Air Toxics Agency dos EUA, estão relacionadas a distúrbios de desenvolvimento neurológico e endocrinológico (hormonal). Os autores compararam os dados a famílias de crianças sem autismo das mesmas áreas visitadas, e que nasceram no mesmo período, aumentando, assim, a chance de que seus resultados fossem verdadeiros.

Assim, crianças expostas a estireno e cromo durante a gestação ou até os 2 primeiros anos de vida têm duas vezes mais chance de terem autismo que crianças não expostas.

Outros poluidores, como o cianeto, o cloreto de metila, o metanol e o arsênico, também estão ligados ao autismo.

Que esse estudo sirva de alerta para todas as famílias do Brasil e do mundo, especialmente aquelas que moram em áreas poluídas ou que entram em contato com substâncias nocivas.

Aliás, leia essa matéria da Unimed, e essa aqui, ambas em português.

terça-feira, setembro 30, 2014

Treinamento musical melhora as habilidades cognitivas e pode auxiliar crianças com TDAH


Notícia tirada do site MNT (leia aqui) e traduzida livremente para o blog Neuroinformação. 

Treinamento musical melhora as funções executivas

Inicialmente, o que são as funções executivas? São meios pelos quais o cérebro processa e retem informação, toma decisões, resolve problemas, regular o comportamento e planeja ações, além de mufar foco de atenção e manter atenção em algo de interesse. Ou seja, como fala um grande neuropsicológico russo, as funções executivas são o que nos fazem humanos.

Um estudo da Univesidade de Boston demonstra que as funções executivas são um forte preditor de desempenho acadêmico, mais ainda do que o malfadado QI. Além disso, esse estudo sugere que o treinamento musical pode auxiliar a desenvolver essas habilidades cognitivas.

Para isso, foram estudados em imagem de ressonância magnética funcional (fMRI), que analisa a função de áreas cerebrais durante diversas atividades, 15 crianças entre 9 e 12 anos de idade que tiveram treinamento musical, ou seja, aprenderam a tocar um instrumento por, pelo menos, 2 anos em aulas regulares; foram estudadas também 12 crianças de mesma idade que não tinham aprendizado musical. 

Fora isso, os pesquisadores compararam os exames de fMRI de 15 adultos que eram musicistas ativos com os exames de 15 outros adultos que não tocavam nenhum instrumento. 

Os participantes, para evitar qualquer erro de análise, eliminaram fatores sociais, como educação formal, status de emprego (dos pais das crianças ou dos adultos) e renda familiar, além do QI. 

 O estudo revelou que durante testes cognitivos (resolução de problemas), tanto as crianças treinadas em música como os musicistas adultos tiveram melhora em várias áreas das funções executivas em comparação com crianças que nunca tiveram treinamento musical e com os adultos não musicistas. A ativação de áreas relacionadas às funções executivas foi mais intensa nos participantes que tocavam instrumentos musicais. 

Ou seja, o treinamento musical, tão ignorado em escolas ao redor do mundo, pode auxiliar a preparar as crianças para um melhor futuro acadêmico e profissional. Inclusive, o treinamento musical pode auxiliar no tratamento de crianças com um conhecido transtorno das funções executivas, o TDAH, e mesmo, como já sabemos, no tratamento de idosos com demências, como a doença de Alzheimer. Mas estudos para determinar se a música pode ser usada como adjunto terapêutico ainda necessitam ser realizados. 

Mas há a contrapartida de que a música não seja o estímulo, mas sim que pessoas que tenham melhores funções  executivas acabem enveredando por um caminho musical. Mas esta hipótese também precisa ser testada. 

No entanto, todos sabemos como uma boa (eu disse boa!) música pode auxiliar transtornos mentais e neurológicos.

sexta-feira, setembro 19, 2014

A criatividade e sua relação com o Jazz

Artigo traduzido e adaptado do site KQED.

Ouvir as improvisações do jazz (meu pai que amava isso), como as cordas do piano brincam com os acordes do saxofone e as batidas das cordas do baixo, dá a impressão de que a criação da música aqui é simplesmente magia pura. Mas o estudo da atividade cerebral dos músicos de jazz enquanto estes improvisam está ajudando a dar alguma luz ao estudo da neurociência da criatividade.

Um teclado de plástico que permite ao músico produzir e ouvir a própria música enquanto seu cérebro é analisado em uma máquina de ressonância magnética foi utilizado nesta pesquisa. Os pesquisadores solicitavam que o músico ouvisse uma música, depois improvisasse com outros músico na sala de controle da ressonância. Imagens cerebrais eram capturadas enquanto a música era criada.

Nessa hora, a parte mais frontal do cérebro, o lobo pré-frontal lateral, que cuida muito de nossas funções executivas e da monitorização de nosso comportamento fica menos ativo. Ou seja, novas ideias podiam ser criadas sem restrição cerebral alguma (sim, como já visto em um post anterior neste blog, aparentemente áreas do cérebro são controladas por outras áreas, muitas vezes de forma ditatorial). Além disso, a improvisação ativou também as áreas da linguagem, ou seja, a música acaba por ter papel semelhante ao da linguagem na veiculação de ideias e sensações.

Ou seja, a improvisação depende do relaxamento das leis que governam a atividade cerebral, e exigir demais pode acabar por destruir a atividade criativa. Isso está em linha com outros estudos, também já discutidos neste blog, que sugerem que a criatividade, função presente em várias áreas cerebrais, pode ser influenciada pelo hemisfério dominante (na maior parte das pessoas, o esquerdo), e quando estamos divagando, "viajando", ou relaxando, é o momento em que a criatividade "corre solta".

Além disso, a criatividade pode ser desenvolvida. Crianças devem aprender o hábito de ser criativas, e quanto mais a criatividade é utilizada, mais ela é desenvolvida. Para isso, são necessários tempo e situações que a façam emergir. Exigir das crianças, na escola, perguntas com respostas fixas, engessadas, como respostas certas e erradas, impede que as crianças pensem, criem e desenvolvam ideias novas.

Muito do que aprendemos, nós fazemos com um propósito, o de fazer bem. Mas devemos cultivar o fazer algo com o objetivo não somente de fazê-lo bem, mas de criar coisas novas, o que muitas vezes não é bem visto por nossos pares. A improvisação faz parte do processo criativo, quando as leis e regras rígidas são temporariamente suspensas para que se possa pensar livremente, ou como se fala no inglês, "out of the box". E isso deve ser cultivado desde a infância. 

Assim, aulas de artes cênicas, pintura, canto, e mesmo aulas livres para a improvisação podem auxiliar a treinar o cérebro a ter o tipo de fluência criativa que queremos e necessitamos cada vez mais. 

Nem tudo o que sabemos nos foi ensinado, Muito foi aprendido através de processos criativos. Imagine uma criança de 2 anos de idade aprendendo sozinha a sair do cercadinho. Isso é criatividade. Ou uma criança aprendendo a resolver um brinquedo de montar de forma diferente do que é ensinado na caixa do brinquedo. Isso também é criatividade. E deve ser ensinado (há uma bela alegoria desse conceito no filme The Lego Movie).

Agora, imagine o que seria de nós, como seres em uma natureza hostil há milhares de anos, sem a criatividade. Sem ninguém para ensinar-lhes nada, os homens primitivos estariam à mercê de predadores caso não aprendessem, sozinhos, a fazer armas e a caçar. Isso também é criatividade.

E mais interessante, o cérebro em estado de criação, funcionalmente, assemelha-se muito ao cérebro em estado onírico (sonhando). O estado onírico é o mais criativo que existe no comportamento humano, pois aqui todas as barreiras são quebradas (vide o incrível filme A Origem), o cérebro deixa de lado a auto-monitorização normal, e o padrão de base da atividade cerebral assume o controle. 

Em resumo, façamos como os músicos de jazz, deixemos a criatividade fluir. 

O Poder do Sono

Artigo traduzido e adaptado de reportagem da revista Time Magazine, de 11 de setembro de 2014.

Quando deitamos, achamos que estamos desligando nossos cérebros, como desligamos nossos iPad's e computadores. Mas, ledo engano. É no momento que começa o sono, que o cérebro começa a trabalhar de um modo diferente de quando acordados. Ao invés da assincronia típica da vigília, os neurônios começam a trabalhar em sincronia, gerando pulsos elétricos que varrem todo o cérebro. Todas as informações armazenadas, aprendidas e recebidas durante o dia são analisadas nesse período, de um modo estonteante demais para entendermos. O cérebro ainda, durante o sono, checa o equilíbrio hormonal e de suas enzimas/proteínas, além de jogar fora todas as toxinas e detritos derivados do seu metabolismo diário.

O sono restaura a juventude cerebral. Se todos nós dormíssemos sete a oito horas todas as noites, teríamos melhorias importantes na nossa concentração, memória, na nossa capacidade de planejamento, além de que manteríamos nossos sistemas metabólicos aquecidos para queimar a gordura e regular o peso. Isso quer dizer que dormir bem evita perda de memória, ajuda a evitar o diabetes, a fadiga, a depressão, a ansiedade, e mesmo a doença de Alzheimer, a osteoporose e o câncer.

Mas conseguir essas horas de sono é que é dose. E as medicações que usamos para produzir sono não conseguem de modo algum duplicar os benefícios produzidos pelo sono normal. 

Cerca de 70 milhões de pessoas nos EUA somente não têm uma boa noite de sono regularmente (imaginem no mundo). E há uma tendência científica de considerar o sono uma prioridade na vida humana, bem diferente do que se acreditava antes. 

A falta de sono leva a sonolêncai durante o dia, o que pode parecer leve, se a sonolência for leve. Só que não!! Quase 40% dos adultos dos EUA cochilaram durante o dia em agosto, e 5% desdes o fizeram enquanto dirigiam automóveis. Insônia ou sono entrecortado aumenta as chances de doença em trabalhadores, e ainda piora a concentração (você, que é jovem, tem tido problema de memória ultimamente? Será que não é seu sono? Venho falando isso desde que o blog foi lançado, há 3 anos e meio).

E o pior, estes hábitos ruins de sono estão passando para as gerações posteriores. Nos EUA, 45% dos adolescentes não dormem as necessárias 9 horas por noite, e 1/4 destes chega a dormir em sala de aula pelo menos uma vez por semana. Daí, a Academia Americana de Pediatria sugerir começar as aulas dos ensinos secundário e colegial mais tarde, para permitir que os alunos durmam mais e melhor (imaginem isso aqui!).

O sono é o único momento em que o cérebro consegue "parar um pouco e pensar", por assim dizer. E se o sono não for adequado, o cérebro pode sucumbir em seus própriso produtos tóxicos, como radicais livres. Ou seja, dormir pouco leva você a viver pouco, ou viver com pouca saúde. Não adianta querer pular o sono para estudar, trabalhar ou baladar. Uma hora, o corpo e o cérebro vão cobrar isso de você.

E mais ainda, caso você ainda não esteja convencido. Sem o número necessários de horas de sono por noite, as células cerebrais acabam morrendo, vítimas de seus próprios produtos do metabolismo do dia-a-dia, entre eles os radicais livres, Ou seja, sem sono, você perde neurônios, para sempre!

Além do mais, sem sono, o cérebro não consegue trabalhar bem no dia seguinte, não consolida as memórias e não aprende direito. Consequência? Falta de memória, cansaço, fadiga e estresse. Um cérebro jovem sem sono pode, e eu disse pode, assemelhar-se ao de uma pessoa idosa. Que tal?

Outra coisa, a insônia nem sempre é consequência de estresses do dia-a-dia, mas pode ser causada por problemas pontuais da hora de dormir, como checar o celular, o smartphone, o Facebook, todas as horas, inclusive de noite. Encher nossos dias de atividades aumenta nosso estresse e diminui nossas horas de sono. E pior ainda, se enchermos nossas crianças de atividades sem tempo para dormir. Dormir com a TV no quarto é um ultraje, pois a TV vai funcionar como um atrativo, diminuindo o sono. A falta de sono aliada ao estresse aumenta a liberação de hormônios do estresse, como o cortisol. Além disso, as luzes artificiais que vêm das telas dos computadores e celulares atrapalha nosso relógio biológico. Ou seja, com tudo isso, acaba que nossos corpos não sabem mais, naturalmente, quando ir para a cama. 

Estudos recentes em modelos murinos (ratos) têm demonstrado que as células de suporte dos neurônios, as células gliais, viram uma bomba gigante quando o corpo dorme, diminuindo a atividade elétrica neuronal para 1/3 da frequência de pico. Isso faz com que os neurônios "diminuam de volume", fazendo com que o líquido que banha o cérebro, o líquor, banhe mais ainda o cérebro, levando lixo tóxico para fora do cérebro (o cérebro não contem vasos linfáticos, que são os "lixeiros" naturais do corpo; por isso, há a necessidade de outros meior para tirar esse lixo tóxico que é acumulado durante o dia). 

A falta de sono faz com que esse sistema seja menos eficiente, e com que mais lixo se acumule no cérebro. 

Estudos sugerem que, talvez, compensar as horas de sono perdidas com mais horas de sono em outros dias, como nos fins de semana, pode ajudar, mas não acaba com todos os danos qu a falta de sono acarreta. Mas essa prática ainda não pode ser recomendada, e portanto o Blog Neuroinformação não recomenda que isso seja feito. 

Se você depende de medicamentos para dormir, mesmo sabendo que o sono por eles produzido não é, nem de longe, igual ao sono natural, é melhor dormir do que não dormir. E portanto, caso haja necessidade médica do uso de tais medicações, elas devem ser tomadas conforme prescrição. 

Uma sugestão é expor-se o máximo possível à luz natural (luz do sol) durante o dia (o que, muitas vezes, é impossível pois vivemos em um mundo cheio de paredes e tetos), e diminuir ao máximo as luzes vindas de dentro de nossas casas, como das telas de computador e das TV's. E dormir sem nada, sem TV, iPad, iPod, iPhone, ou o que seja. 

Evitar cochilos durante o dia (se possível), e exercitar-se durante o dia para ficarmos cansados o suficiente durante a noite pode ser uma maneira de mantermos uma boa noite de sono. Criar um ritual de sono pode fazer com que sintamos necessidade dele, ao invés de considerá-lo uma obrigação, o que leva a estresse novamente. Um livro (um paciente meu conseguia dormir após ler algumas páginas da lista telefônica - não aconselho ninguém a fazer isso), um banho quente antes de deitar, ou outros modos de nos deixar sonolentos pode ajudar a conseguirmos uma boa noite de sono. Claro que em um ambiente calmo, escuro e sem preocupações. 

Evitar o sono é privar-nos a nós mesmos dos medicamentos endógenos mais importantes. 

Durma bem, portanto.

sexta-feira, agosto 29, 2014

A ameba devoradora de cérebros

Com um título assustador como esse aí acima, você pode querer passar para o post seguinte. Mas fique um pouco e leia mais.

Tem havido nos EUA surtos de uma ameba que "come cérebros". Uma ameba zumbi???

Não. Na verdade, não! Essa é uma forma de inflamação das meninges e do cérebro, uma meningoencefalite amebiana. 

Ameba não é aquele seu colega de faculdade, ou aquele seu amigo que de tão lerdo (ou tonto) ganhou o apelido de ameba. Nem é aquela massa de forma indescritível que você comprou, digo, o Papai Noel deu para o seu filho no Natal passado. A ameba é um protozoário. 

Protozoário?? Ai, ai,  mais um nome difícil. Mas sério, os protozoários são seres de uma célula só, unicelulares, mas cujas células são bastante desenvolvidas, de tal forma que hoje, são considerados as formas mais primitivas de animais (chupa, estafilococo!) (referência).

A ameba está representada abaixo:

http://www.grupoescolar.com/a/b/9FEB6.jpg     Aaaaaaaarrrrrrrrrgh
Essa aí em cima é uma ameba. Há várias espécies de amebas (assim como eu conheço vários amebas por aí). A que mais causa as famosas diarreias e amebíases da vida é a (prepare-se) Entamoeba histolytica (que está aí embaixo):

http://www.ufrgs.br/para-site/siteantigo/Imagensatlas/Protozoa/Imagens/histolytica.jpg         Mais bonitinha que a anterior
 Já faz tempo que se conhece a capacidade desses pequenos (e aparentemente inofensivos, sqn) animais em causar doenças. Os primeiros 45 casos de amebíase foram descritos em 1912. Mas somente em 1973 que as amebas que causam sintomas neurológicos (ou seja, as primas ricas) foram descobertas, a Naegleria flowleri e a Acanthamoeba, além da Balamuthia mandrillaris e a Sappinia diploidea, estas descritas em 2003 (Gente, que é isso??? Abriu-se o dicionário na seção de xingamentos??). A própria Entamoeba histolytica pode causar meningoencefalite.

 
https://www.msu.edu/~rmorning/images/parasites/Naegleria_fowleri_100X_03.jpg
Acima, a causadora dos casos mais frequentes de meningoencefalite amebiana, a Naegleria fowleri (seta). Ah, você está vendo essa celulazinha à esquerda e abaixo destas duas amebinhas. Isso, mais lá embaixo, há duas células, menores e com prolongamentos, com o centro escuro. Está vendo? Bem, estes são neurônios normais. 

Abaixo, a imagem de um cérebro contaminado com essa ameba (imagem forte, sugiro que pegue um saco de vômito... brincadeirinha):

http://www.cdc.gov/parasites/images/naegleria/02-3289-05.jpg
Observe acima os pontos vermelhos indicado inflamação e hemorragia, localizados mais na porção anterior do cérebro. A localização é anterior porque a via de entrada destas pequenas invasoras é o nariz (ou a boca), que fica logo abaixo da porção frontal, anterior, do cérebro. 

http://upload.wikimedia.org/wikipedia/commons/7/7e/Naegleria_fowleri_infection_gl.png
Acima, um panfleto demonstrando o ciclo de vida da ameba, e a sua entrada pelo nariz. 

A ameba não está de bobeira por aí, mas é contraída ao nos banharmos em locais onde ela habita. Apesar de haver ameba até na Conchicina, a Naegleria está mais presente na água parada, especialmente morna, e convive com os famosos coliformes fecais (ou seja, lagos ou lagoas onde há dejetos humanos ou animais, ou esgoto). Outras formas de ameba contaminam o solo, como a Acanthamoeba e a Sappinia

O quadro é dominado por um abscesso cerebral, ou seja, uma coleção dentro do cérebro contendo pus e inflamação. Há múltiplos abscessos, associados a inchaço cerebral (edema cerebral). Confusão mental, sonolência, coma, crises epilépticas, meningite, rigidez de nuca, dor de cabeça, desequilíbrio (quando a lesão é no cerebelo), febre, perda de apetite, emagrecimento, diarreia, fígado e baço grandes (hepatomegalia e esplenomegalia, respectivamente), dor abdominal e falta de ar podem ocorrer nos casos de amebíase grave com manifestações cerebrais.

Nos casos em que a Naegleria ou a acanthamoeba são os atores principais, pode haver doença unicamente do cérebro (meningoencefalite amebiana primária), afetando mais crianças e adultos nos meses mais quentes (quando esse pessoal gosta de cair na água parada para tomar banho e brincar de jogar água uns nos outros). Os sintomas aparecem cerca de 1 semana após o contágio. O início é súbito, com dor de cabeça, náuseas, vômitos, febre e rápida evolução para coma (lembrando meningite bacteriana grave). A doença é grave, e pode matar em 24 a 48 horas. 

Há formas de Acanthamoeba que causam uma meningoencefalite mais arrastada e crônica, que progride por semana a meses. A infecção pode ocorrer em pessoas saudáveis.

A amebíase é uma doença intestinal comum, e muito raramente evolui com sintomas neurológicos. Veja que somente casos específicos de amebas específicas podem evoluir com sintomas neurológicos. Em geral, pessoas que são acometidas por encefalite amebiana tiveram contato com água ou alimentos contaminados, ou banharam-se em locais de água parada infectada com o protozoário.

Há casos de pessoas que portam essas amebas (como a Naegleria) em seus corpos sem que essas lhe causem doença. Ou seja, a doença não ocorre em 100% das pessoas contaminadas, o que sugere que nosso sistema imunológico segure a ameba (mas em alguns casos, essa defesa acaba falhando).

 A prevenção dessa doença é a melhoria as condições sanitárias, como sistema de esgoto, tratamento do esgoto, água encanada,usar somente água filtrada para consumo. Além disso, medidas práticas como evitar colocar a mão suja na boca, o uso de cloro no tratamento das piscinas, evitar banhar-se em água supostamente ou sabidamente contaminada.

domingo, agosto 17, 2014

O cérebro e comportamentos perigosos

Artigo publicado no site Science Daily e traduzido livremente para o blog Neuroinformação

Estudos de imagem cerebral demonstram diferenças em adolescentes que gostam de correr riscos
De acordo com o Centro de Controle de Doenças dos EUA (CDC), lesões não intencionais (sem o desejo de que ocorram) são a causa maior de morte entre adolescentes americanos. Comparadas com as duas maiores causas de mortes para todas as pessoas nos EUA, infarto do miocárdio e câncer, entre os adolescentes há um evidente padrão de erro nas tomadas de decisão em situações de perigo. 
Nova pesquisa do Center for Brain Health, em Dallas, no Texas, EUA, investigando as diferenças cerebrais associadas com os adolescentes que gostam de correr riscos, descobriu conexões entre certas áreas cerebrais que são amplificadas neste grupo de adolescentes.
De acordo com os autores, há uma malha de regulação empocional que governa nossas emoções e influencia a nossa tomada de decisões. Comportamento antissocial ou de risco pode estar associado a um desequilíbrio nessa malha.
O estudo foi publicado esse ano, em 30 de junho na revista médica Psychiatry Research: Neuroimaging (original), e estudou 36 adolescentes entre 12 e 17 anos de idade; dezoito deles gostavam de correr riscos. Os participantes foram questionados sobre uso de drogas, abuso de álcool, promiscuidade sexual, e violência física. Todos foram submetidos a um exame de ressonância magnética funcional (fMRI) de crãnio para examinar a comunicação entre as regiões cerebrais associadas à malha de regulação emocional. O mais interessante é que o grupo de adolescentes com comportamentos de risco tinham uma renda bem menor que o grupo sem este comportamento. 
O estudo demonstrou que os adolescentes de risco exibiam hiperconectividade entre a amígdala (veja abaixo uma ilustração destas estruturas cerebrais), uma estrutura que está contida no sistema límbico e que controla, entre outras coisas, o prazer, o medo e a reatividade emocional, e áreas específicas do córtex pré-frontal, que se responsabiliza por nosso comportamentom, regulação emocional e pensamento crítico. Também havia aumento da conexão entre áreas deste córtex pré-frontal e o núcleo accubens, localizado na base do cérebro e sendo um centro de recompensa relacionado com vício a drogas e álcool.
Ou seja, uma área relacionada com o medo (pessoas que gostam de correr riscos, em geral, não têm medo das cosnequências), que se correlaciona intensamente com uma área responsável pelo controle das emoções e pelo pensamento crítico (essa relação existe, mas nestes adolescentes essa relação é mais intensa, e pode inferir controle da amígdala sobre o córtex pré-frontal, e não o contrário) e com uma área de recompensa (implicando prazer nas atividades de risco). 
Esse estudo pode ser útil no futuro, após mais pesquisas, para identificar adolescentes em riscos de comportamentos patológicos e perigosos, segundo os autores. No entanto, nenhum dos adolescentes do grupo de comportamento de risco tinha critérios para desordens comportamentais ou de abuso de substâncias.
Ou seja, mais um estudo que demonstra que nossas emoções e comportamentos são controlados por estruturas físicas cerebrais e substâncias. Mas mais que isso, é um estudo que abre uma porta para entender melhor estes adolescentes, estudá-los, e tentar, no futuro, conseguir um meio mais adequado de controlar e regular suas emoções e seus comportamentos, por vezes perigosos. 
http://www.infoescola.com/wp-content/uploads/2010/10/sistema-limbico.jpg


terça-feira, maio 06, 2014

O hipocampo e a atividade aeróbica

O hipocampo, biologicamente falando, é um cavalo-marinho ( que, apesar do nome, é um peixe). 

http://www.somso.de/img/zos2001.jpg
Bonito, não? Já peguei uns dois desses na mão quando fui a Fernando de Noronha, para desespero do guia (eles estão bem, apesar de mim). Mas continuemos.

No cérebro há também um hipocampo, mas esta é uma estrutura que fica no seu lobo temporal e a principal estrutura relacionada com o armazenamento das memórias. 

Hum? Um cavalo-marinho é o responsável pelas minhas memórias???? Não é bem assim! Observe um hipocampo cerebral.

http://idosos.com.br/wp-content/uploads/2012/05/hipocampo202.jpg
Eu sei o que você está pensando! O Dr Flávio tem uma imaginação porreta para dizer que isso aí parece com um hipocampo! Mas não fui eu quem disse isso, eu só propago o conhecimento. Imaginação teve quem achou, pela primeira vez, que isso tinha a forma de um hipocampo. Mas esta estrutura tinha de ter um nome, e ficou hipocampo (em inglês, hyppocampus).

Mas é aqui que as memórias são armazenadas quando chegam ao cérebro. No lobo temporal. E aqui chegamos ao nosso texto.

Notícia tirada do site Medscape News, e traduzida livremenre para o Blog Neuroinformação.

O treino aeróbico aumenta o volume do hipocampo em pacientes com declínio cognitivo leve. 


Nota do Tradutor: Antes de começar, só uma nota explicativa. O declínico cognitivo leve (em inglês, MCI para Mild Cognitive Impairment) é uma condição em que há alteração na memória, ou menos frequentemente em outras áreas da cognição, mas sem causar impacto sobre a vida do indivíduo, ou seja, sem ser demência. Em 5 anos, 50% dos pacientes com MCI evoluirão para demência, na sua maior parte tipo Alzheimer. Mas vamos ao texto.

Mulheres idosas com MCI que se submetem a um programa de atividade física aeróbica por 6 meses têm aumento no volume do hipocampo comparadas a mulheres que fazem somente exercícios de tonificação muscular. Mas este aumento, especialmente do hipocampo do lado esquerdo, conforme visto no estudo em questão não se associou com melhora da performance no testes de memória verbal.

Os achados deste estudo sugerem que a atrofia (diminuição de tamanho) do hipocampo, achado típico da doença de Alzheimer, isolada não explica tudo o que ocorre nessa doença. Também, pode haver um intervalo de tempo entre o aumento do volume do hipocampo e uma modificação na função cognitiva. Ou mesmo, as pessoas que obtiveram melhor aumento do hipocampo foram as que tinham a estrutura mais atrofiada no início do estudo, e com o tempo acabaram igualando-se com outras pessoas no teste de memória verbal, o que poderia explicar a falta de melhora evidente.

Além da atrofia do hipocampo, alterações da substância branca cerebral podem contribuir para a perda de memória e para defeitos de conexão entre o hipocampo e outras áreas do cérebro, e nesse caso, aumentando o volume hipocampal isoladamente não melhoraria a memória.

O artigo foi publicado no British Journal of Sports Medicine (link aqui).

O estudo avaliou 86 mulheres entre 70 e 80 anos de idade com algum problema de memória mas sem demência. Os treinos foram de 60 minutos de duração, duas vezes por semana. 

Foram feitas avaliações da memória com dois testes, um de memória verbal (lembrar o que foi falado ou ouvido antes) e um de memória imediata (lembrar palavras após lê-las 5 vezes e após um teste de distração). 

O hipocampo nos pacientes em exercício aeróbico aumentou 5.4% à esquerda e 2.5% à direita (total de 4%).

A atividade física aumenta os níveis de um fator de crescimento do sistema nervoso, o Brain-Derived Neurotrophic Factor (BDNF) ou Fator de Crescimento Derivado do Cérebro, com aumento da criação de novos neurônios (neurogênese) no hipocampo e aumento das sinapses, as ligações entre os neurônios.

O que os autores sugerem é que a atividade física, conforme estudos anteriores, pode auxiliar mais quem já possui algum tipo de déficit, comparado com o estudo atual.

Os autores dividiram os pacientes no final em grupos (Hipocampo grande, pobre memória; hipocampo grande, boa memória; hipocampo pequeno, boa memória; e hipocampo pequeno, pobre memória). Talvez o ideal seja verificar nestes pacientes outras variáveis, como qualidade de vida, risco de desenvolver demência no futuro e sobrevida após o estudo.

Mas como sempre, mais estudos são necessário.

Muito bem, o tradutor (eu) sugere que atividades físicas sejam sempre realizadas, mas sempre com apoio médico e do profissional de educação física/fisioterapia, e nunca sem uma avaliação médica prévia, especialmente em indivíduos idosos.

Atividade física e a doença de Alzheimer

Quando seu médico fala para você fazer atividades físicas, especialmente se você tem mais que 60 anos de idade, que cara você faz? Fica alegre e exultante? Faz cara de alegrinho, mas chora por dentro? Faz cara de bravo e sai do consultório batendo porta? Ou não volta mais ao médico?

Pois bem, este post lida justamente com isso, atividades físicas. E ratifica algo que sempre falo nos posts, nas minhas entrevistas na TV, jornais e rádio, e no Facebook.

Notícia tirada do site Medscape News, e traduzido livremente para o Blog Neuroinformação.

Exercícios aeróbicos preservam a congnição em idosos não demenciados


A atividade aeróbica contínua (andar, andar de bicicleta, correr, trotar) tem um efeito proteror sobre o estado cognitivo (mente) e sobre a velocidade psicomotora (pensar e fazer algo voluntariamente) de idosos sem demência. 

Os autores de um novo estudo publicado na 66º Congresso da Academia Americana de Neurologia, que terminou ontem, sugerem atividade de baixo impacto diária em pessoas idosas que sejam capazes de realizá-las (Nota do tradutor: Aqui, deixo claro que há a necessidade de uma avaliação clínica e cardiológica, e muitas vezes ortopédica, antes de realizar qualquer atividade física nesta idade pelos riscos de complicações que podem surgir).

Os autores estudaram 39 idosos, com idade média de 77.94 anos. Vinte e dois fizeram parte do grupo que praticou atividade física, e 17 fizeram parte do grupo controle. O exercício durou pelo menos 15 minutos (pouco tempo, certo?) na forma de bicicleta ergométrica diariamente por 15 meses, com uma média semanal de 134.21 minutos de exercício, ou 18 minutos por dia mais ou menos. Os idosos do grupo controle não realizaram atividades físicas, mas ficaram lendo ou jogando cartas.

Foram realizados três testes de funções mentais cognitivas. O estudo demonstrou que houve uma melhora do estado cognitivo geral dos pacientes que praticaram atividade física. Já o grupo controle piorou (poderia estabilizar o estado cognitivo, mas piorou, o quer dizer mau sinal). 

Já a avaliação picomotora também melhorou significativamente nos pacientes que fizeram atividades físicas. A única função em que não se observou melhora foi no teste de memória e aprendizado. 

Os autores sugerem que a prática de atividades físicas tem efeito neuroprotetor sobre a cognição e velocidade de pensamento em idosos não demenciados. 

Talvez os efeitos da atividade física sobre o cérebro sejam decorrência de seus efeitos benéficos sobre o coração, pelo aumento do fluxo de sangue e oxigênio para o cérebro. Claro que a associação com uma dieta balanceada, atividade mental e social contínua ajuda a melhorar mais ainda a cognição nestes pacientes. E o que importa é que a atividade seja regular, ou seja, diária. 

Mas, como sempre, mais estudos com mais pessoas são necessários. 


sexta-feira, maio 02, 2014

A relação inusitada entre Vitamina C e neurologia

Linus Paulling foi um químico americano, ganhador de 2 prêmios Nobel. Ele defendeu o uso da vitamina C como medida para prevenir e tratar doenças, e quase aos 70 anos, em 1970, publicou trabalho em importante revista internacional sobre os seus efeitos na saúde (leia aqui). No entanto, muitas de suas ideias não são levadas a sério até hoje. Bem, até hoje.

A vitamina C, ou ácido ascórbico, é um potente antioxidante, e pode ser utilizado no controle do estresse oxidativo, ou seja, produção de radicais livres e inflamação, que ocorre com muitas doenças crônicas, como a pressão alta. 

Artigo publicado no site da Medscape News e traduzido livremente para o blog Neuroinformação.

Baixas concentrações de Vitamina C ligadas a hemorragia cerebral

Um novo estudo descobriu uma associação entre baixas concentrações de Vitamina C e aumento do risco de derrame hemorrágico (AVC hemorrágico ou AVCH). 

Os pesquisadores descobriram que baixas doses de vitamina C eram mais comuns em pacientes portadores de AVCH do que em pessoas sem doenças (controles). Isso provavelmente deve-se ao fato de a vitamina C estar associada ao controle da pressão arterial e da síntese do colágeno (a proteína estrutural que compõe praticamente todos os tecidos de conexão no corpo, inclusive a parede dos vasos, e se este colágeno for fraco ou mal formado, pode levar a fraqueza da parede dos vasos e sangramentos). 

Ou seja, este estudo servirá como base para outros estudos que testarão a eficácia da  suplementação de vitamina C em prevenir AVCH e diminuir as complicações dos pacientes que apresentam esta condição.

Este estudo foi apresentado no 66º Congresso da Academia Americana de Neurologia, que está terminando este final de semana, na Filadélfia, EUA.

O estudo avaliou 135 participantes, sendo que 41% destes tinham dosagens normais no plasma de vitamina C, e 14% estavam deficientes em vitamina C. A concentração desta vitamina estava significativamente baixa nos 65 pacientes que haviam tido um AVCH espontâneo (ou seja, não causado por ruptura de aneurismas ou de malformações vasculares, e nem por sangramento de tumores cerebrais). 

Claro que os fatores de risco para o AVCH foram pressão alta, uso de álcool e obesidade, além de idade mais avançada no caso de hemorragia na parte mais externa do cérebro (lobar, nos lobos cerebrais). A falta de vitamina C, também, aumenta o risco de aterosclerose e doenças do coração, além de pressão alta.

O estudo sugere mesmo que as pessoas que tinham maiores concentrações de vitamina C ficaram menos tempo em UTI (metade do tempo em relação às pessoas que tinham concentrações baixas de vitamina C), o que pode estar relacionado a complicações por infecções nos pacientes, ou por lesões de pele, como úlceras de pressão e escaras (aquelas feridas que se formam nos pés, bacia e costas quando a pessoa fica muito tempo deitada em uma mesma posição), talvez por conta do déficit de colágeno. 

Claro que mais estudos são necessários para fechar essa conclusão da associação entre vitamina C e AVCH, mas parece que as deficiências de vitamina C devem ser tratadas como se tratam outras deficiência de vitaminas, através da suplementação indicada por médico e do aumento do consumo de vegetais e frutas ricas em vitamina C (leia aqui), o que por si só, em pessoas saudáveis, já é mais do que suficiente. 

quarta-feira, abril 30, 2014

Tratamento da sonolência na doença de Parkinson - novas modalidades de terapia

A doença de Parkinson não demonstra somente sintomas motores, como tremores, lentidão e rigidez. Há também sintomas não motores, e entre estes destacamos a sonolência. Pacientes portadores de doença de Parkinson podem apresentar sonolência excessiva durante o dia e insônia à noite. Várias são as modalidades de tratamento, mas recentemente pesquisadores sugeriram uma nova forma, não medicamentoda, de tratamento deste sintoma tão problemático.

Este assunto baseia-se em texto publicado na Medscape Neurology, e foi traduzido livremente para o blog Neuroinformação.

Fototerapia é eficaz para a sonolência diurna em doença de Parkinson

Terapia com luz (fototerapia) é segura e eficaz na melhroa da sonolência diurna em doença de Parkinson, de acordo com um novo estudo.

Os distúrbios do sono na doença de Parkinson estão entre os sintomas não motores mais incapacitantes e mais comuns na doença, afetando cerca de 90% dos pacientes. Os problemas do ciclo sono-vigília (acordar e dormir nas horas certas) têm um impactro significante tanto sobre os pacientes como sobre seus familiares e/ou cuidadores, contribuindo para piora da qualidade de vida, prejuízo do humor, piora da memória e aumento dos riscos de acidentes e mesmo óbitos.

De acordo com o novo estudo, a exposição à luz brilhante associou-se a melhora significativa na sonolência diurna excessiva, persistindo o efeito pelo tempo do estudo (2 semanas) e até 2 semanas após. Aparentemente, de acordo com outros estudos, o uso da luz brilhante associa-se a melhoras na depressão, bradicinesia, rigidez e discinesias causadas pela medicação. 

O tratamento consiste no uso de luz própria, com intensidade calculada e conhecida (5000 lux - lux é uma medida de intensidade de luz por metro quadrado de área). Outros pacientes receberam uma intensidade de luz menor (300 lux). As sessões duraram 1 hora, 2 vezes por dia por 2 semanas. Todos os pacientes estudados mantiveram suas medicações. 

Houve melhora de vários índices de sonolência e depressão no grupo que recebeu a intensidade maior de luz. Alguns pacientes reclarama de cefaleia (dor de cabeça) e coceira nos olhos, mas nada grave. 

Esse estudo é interessante pois demonstra que há outras formas de tratamento da sonolência na doença de Parkinson. Quem é portador da doença, sabe do que eu estou falando. 

Mas são necessários outros estudos para efetivamente utilizarmos a luz em intensidade conhecida como tratamento da sonolência diurna nos pacientes com a doença de Parkinson.

domingo, abril 20, 2014

Não fique apático

Notícia tirada do site USA Today (link) e traduzida livremente para o Blog Neuroinformação.

Apatia pode sinalizar diminuição da massa cerebral na velhice

Apatia não é a mesma coisa que depressão, apesar de seus sintomas serem parecidos. Enquanto depressão significa problemas de autoestima e tristeza/melancolia com significativos efeitos sobre as atividades de vida diária, a apatia subentende diminuição de esforço, iniciativa, falta de interesse em coisas que antes eram interessantes ao paciente, falta de preocupação com a própria saúde, desinteresse, perda da motivação sem evidência de depressão, prejuízo mental ou alteração da consciência. 

Sabe-se que a apatia acomete cerca de 50 a 90% dos pacientes com doença de Alzheimer e 30 a 50% dos pacientes com doença de Parkinson, podendo ser sinal precoce (anos antes do desenvolvimento da perda de memória da doença de Alzheimer ou dos sintomas motores da doença de Parkinson).

Pessoas que mostram evidência de apatia e diminuição de interesse e emoção à medida que envelhecem podem estar sinalizando diminuição do volume cerebral, ou seja, atrofia cerebral. O estudo, publicado na famosa revista Neurology, sugere que a apatia sem depressão pode ser um indicador de doença cerebral.

O estudo mediu duas partes do cérebro - a substância cinzenta associada com o aprendizado e armazenamento de memórias e a substância branca relacionada a estas funções, o local de comunicação entre as várias áreas cerebrais. Usando medidas de volume cerebral, os pesquisadores estudaram os cérebros de 4354 pessoas entre 70 e 80 anos de idades, e perguntaram a estes pacientes questões para medir o grau de apatia (falta de interesse, falta de emoção, retração social, falta de energia e preferência por ficar em casa).

No estudo, pessoas com dois ou mais sintomas de apatia tinham a substância cinzenta 1.4% menor em termos de volume, e a substância branca 1.6% menor em volume do que pessoas com menos de dois sintomas de apatia. Ou seja, elas estavam dois ou três anos mais velhas em termos cerebrais que pessoas da mesma faixa etária. 

A apatia é mais sutil e complexa que a depressão. Ninguém queixa-se de apatia ao médico. Pacientes apáticos podem não sentir motivação para procurar ajuda, de acordo com o pesquisador. Mas diagnosticar apatia pode ajudar a diagnosticar condições crônicas e degenerativas cerebrais mais precocemente. 

Apesar de não haver como combater o envelhecimento e a diminuição do volume cerebral com o passar da idade, talvez exercícios possam alentecer os efeitos da perda de volume cerebral, conforme outros estudos. Além disso, este estudo atual reforça a necessidade de conhecer e estaf ciente dos sintomas de apatia na terceira idade. 

Mas o estudo não determinou quem vem primeiro, se a apatia é um precursor de doença cerebral, ou se a doença cerebral leva a apatia. Assim, a presença de apatia pode sinalizar uma miríade de condições, inclusive a própria depressão sem doença degenerativa cerebral. Mas não devemos ignorar estes sintomas. 

Nota do tradutor: Este estudo demonstra algo que já sabíamos: que há sintomas que se desenvolvem de forma muito precoce em doenças degenerativas, muitas vezes anos antes que estas doenças apareçam definitavamente, e que o diagnóstico desses sintomas (como a apatia) pode auxiliar a diagnosticar doenças cerebrais precocemente e desenvolver meios de tentar alentecer a evolução, como o exercício mental e atividade física regular, fora hábitos de vida saudáveis.

O cérebro dos artistas

Notícia tirada do site da BBC News (link) e traduzida livremente para o Blog Neuroinformação

Artistas têm cérebros estruturalmente diferentes

Exames cerebrais demonstram que os artistas têm maior quantidade de substância cionzenta em áreas relacionadas a movimentos motores finos e imagem visual. A pesquisa publicada na revista Neuroimage (link original) sugere que o talento artístico pode se inato, ou seja, nascido com a pessoa.

Mas treinamento e crescer em um ambiente propício também desempenham papel crucial nesta habilidade. 

De acordo com os pesquisadores, pessoas que desenham bem realmente parecem ter estruturas mais desenvolvidas em regiões cerebrais que controlam a performance motora fina e a memória dita procedural (implícita, ou seja, a memória motora - como andar, andar de bicicleta, dirigir carro, etc.).

Os pesquisadores estudaram os cérebros de 21 artistas e de 23 não artistas utilizando uma técnica que permite a quantificação do volume de áreas cerebrais, a morfometria por voxel (VBM). Os exames demonstraram que os artistas têm mais substância cinzenta, ou seja, mais neurônios em uma área do cérebro chamada de pré-cúneus no lobo parietal (observe abaixo).

http://upload.wikimedia.org/wikipedia/commons/f/f7/Sobo_1909_624_-_Precuneus.png

Na figura acima, uma imagem do cérebro visto por dentro (o lobo frontal está à direita), observa-se o pré-cúneus como a área avemelhada. Esta área está envolvida em várias funções, especialmente em funções relacionadas à criatividade, como a imagem visual - a capacidade de manipular imagens visuais no cérebro (rodar, virar, desmontar uma objeto somente pensando nele), combinar estas imagens e decompô-las mentalmente. 

As pessoas que desenharam melhor tinham quantidade de substâncias branca e cinzenta aumentadas no cerebelo e também na área motora suplementar (observe abaixo), ambas envolvidas com o controle motor fino e performance em ações do dia-a-dia. 

http://thebrain.mcgill.ca/flash/i/i_06/i_06_cr/i_06_cr_mou/i_06_cr_mou_1a.jpg
Nesta figura acima, a área motora suplementar, em roxo, é uma parte do lobo frontal, cuja função enquadra-se nas funções executivas (leia mais sobre isso aqui).

Mas ainda não se sabe o que esse aumento de massa encefálica pode significar. Talvez isso leve a aumento do processamento cerebral nestas áreas. Sabe-se que o treino e a experiência em determinada atividade realmente muda o cérebro, que é extremamente flexível, plástico, em resposta ao treinamento. Além disso, há grandes diferentes entre pessoas que somente agora estão sendo desvendadas, de acordo com os autores. 

Diferente do que se pensava antes, o aumento da massa encefálica ocorreu em ambos os hemisférios, direito e esquerdo. 

Nota do autor: Ou seja, o cérebro, como já se sabe, não é estático, ele muda constantemente a depender do que lemos, fazemos ou vemos/ouvimos. E podemos aumentar uma área cerebral,m desenvolvê-la desde que realizemos as atividades certas, o treino apropriado, no tempo apropriado. 

A invenção da mielina

Notícia tirada do site Science 2.0 (link) e traduzida livremente para o Blog Neuroinformação

O achado sobre a mielina que vira a neurociência de ponta cabeça

A mielina, a substância isolante que há muito pensava-se ser essencial para a transmissão de impulsos ao longo dos axônios não é tão difusamente presente como se pensava, de acordo com um artigo que vira 160 anos de neurociência de cabeça para baixo.

A mielina (leia sobre ela aqui) é uma invenção relativamente recente durante a evolução. Pensa-se que a mielina permitiu ao cérebro comunicar-se realmente rápido com os extremos do corpo, e que isso permitiu ao cérero ter a capacidade de computar funções ainda mais elevadas.

De fato, a perda da mielina é a característica de várias doenças devastadoras, como a esclerose múltipla e a esquizofrenia (isso para mim também é novo). Mas a nova pesquisa mostra que apesar dos papéis essenciais da mielina no cérebro, alguns dos neurônios mais evoluídos e mais complexos do sistema nervoso possuem menos mielina do que os neurônios mais velhos. 

Ou seja, quanto mais chegamos na parte mais evoluída do cérebro, o córtex cerebral, menos mielina achamos. Além disso, os neurônios desta parte do cérebro demonstram uma nova maneira de posicionar a mielina ao longo de seus axônios (suas ramificações com outros neurônios) diferente do que se conhecia. Eles têm mielinas intermitentes com longos tratos de vias (axônios) sem mielina misturados com segmentos ricos em mielina. 

Diferente do que se pensava sobre os neurônios de que eles usam um perfil universal de distribuição de mielina nos seus axônios, o trabalho indica que neurônios diferentes escolhem mielinizar seus axônios de modo diferente. Ou seja, o que se conhecia antes de segmentos mielinizados separados por segmentos curtos, regulares, sem mielina não é sempre o caso. 

Ou seja, essa nova forma de dispor a mielina é o futuro dos neurônios e seus axônios, pois a diversidade neuronal fica mais complexa a cada passo da evolução, e os neurônios precisam mudar o modo como eles usam a mielina para conseguir mais. 

Essa nova disposição da mielina, de acordo com os autores do estudo, podem dar aos neurônios a oportunidade de ramificar-se cada vez mais e manter contato com neurônios vizinhos. A mielina impede as sinapses, os contatos entre neurônios, e consequentemente, grandes espaços sem mielina podem ser necessários para aumentar a comunicação entre os neurônios e sincronizar as respostas através de populações neuronais diferentes. Assim, faz-se uma regulação fina dos impulsos elétricos através dos axônios a fim de permitir a emergência de comportamentos neuronais altamente complexos. 

Nota minha: Esse estudo é realmente novo pois introduz um conceito de diferenciação da mielinização, algo que antes não era pensado. Realmente, espaços maiores sem mielina permitem a formação de sinapses, de comunicações mais intensas entre os neurônios e a troca mais intensa de informações e sincronização destas informações entre áreas cerebrais distintas, permitindo não só o aumento da velocidade do processamento da informação, mas a formação de bancos de memórias visuais, táteis, verbais, olfativas, e além disso, permitem a comunicação entre áreas cerebrais vizinhas mas de funções diferentes. Ou seja, tudo o que diferencia o cérebro humano dos cérebros de animais menos inteligentes. 

terça-feira, abril 08, 2014

Insônia e risco de derrame - mais evidências

Notícia tirada do site Medscape Neurology (link) e traduzida livremente para o Blog Neuroinformação. 

Insônia ligada a aumento do risco de AVC (derrame)


Mais evidências de que insônia aumenta o risco de AVC vêm de resultados de um grande estudo populacional publicado na importante revista Stroke, neste mês de abril (link).

Pesquisadores revisaram os registros médicso da população de Taiwan e compararam os índices de AVC durante 4 anos em 21438 pacientes com diagnóstico de insônia e 64314 pessoas sem insônia, sem diferenças entre sexo e idade entre os dois grupos.

Os resultados mostraram que no geral, pessoas insones tiveram 85% mais chance de ter um derrame. Esse risco diminuiu para 54% após o ajuste estatístico de alguns fatores. O efeito parecia maior em pessoas jovens, com pessoas insones entre 18 e 34 anosd e idade tendo um risco 8 vezes maior de um derrame que pessoas da mesma variação etária sem insônia. 

O autor do estudo afirma que a insônia não deve ser encarada como algo benigno, e sem maiores riscos à saúde. Pessoas, especialmente jovens, com insônia crônica devem procurar auxílio médico para checar seus riscos de AVC, e realizar tratamento quando apropriado. Também, o autor demonstra a importância de checar na história clínica dos pacientes que adentram os consultórios a história de insônia, especialmente em indivíduos mais jovens (geralmente considerados menos propensos à insônia). 

Este estudo segue a linha de vários outros estudos que demonstram a importância de hábitos saudáveis de sono. 

Durante o estudo de 4 anos, 583 participantes com insônia e 962 sem insônia foram admitidos com derrame em Taiwan. Insônia relacionou-se a qualquer tipo de derrame, isquêmico (falta de sangue em determinada área do cérebro) ou hemorrágico (extravasamento de sangue para dentro do cérebro). 

Mais, a associação entre insônia e AVC diminui com a idade, sendo mais frequente essa associação em pessoas mais jovens, geralmente com menos fatores de risco como pressão alta e diabetes. (N.T.:O que temos observado, no entanto, é um aumento da incidência de derrame em pessoas abaixo dos 40 anos de idade, especialmente por maus hábitos de vida, como fumo, uso em excesso de álcool, sedentarismo, má alimentação e obesidade).

Aqueles pacientes com insônia por mais de 6 meses tiveram os maiores riscos de derrame. Claro que outros fatores associaram-se ao aumento no risco de derrame, como idade avançada, diabetes, pressão alta, fibrilação atrial (leia sobre o que é fibrilação atrial aqui), e baixo nível sócio-econômico. 

O porquê da associação entre insônia e derrame não é completamente entendido, mas evidências demonstram que a insônia pode alterar a saúde cardiovascular através de inflamação dos vasos, prejuízo da tolerância à glicose (risco de diabetes), e aumento da pressão arterial. Falta de atividade física, uso de álcool, dieta desregrada, fumo, e estresse podem piorar esta relação. 

Ou seja, temos de diagnosticar e tratar a insônia, especialmente em indivíduos jovens. 

domingo, abril 06, 2014

Estresse vs Dor de Cabeça

Notícia tirada do site da NBCNews (link) e traduzida livremente para o Blog Neuroinformação

O estresse está ligado à frequência de dores de cabeça

Pesquisadores alemães confirmaram o que os sofredores de dores de cabeça há anos já suspeitavam: Quando mais estressado você fica, mais frequentes ficam suas dores de cabeça. 

Os mecanismos exato por trás das dores de cabeça (enxaqueca incluída) ainda são misteriosos, apesar de já termos várias pistas. Alguns autores podem somente sugerir uma associação com o estresse, mas os autores do novo estudo afirmam que o estresse desencadeia crises de dor de cabeça. 

O estudo usou dados de 5159 pacientes entre 21 e 71 anos de idade, que responderam questionários a cada 3 meses de 2010 a 2012 sobre tipo e frequência de dores de cabeça, e que usaram  uma escala de 100 pontos para afirmar quanto estresse eles haviam experimentado. 

Após os ajustes estatísticos necessários para idade, sexo, hábitos de uso de álcool, fumo e outras variáveis, os dados se mostraram mais claros. Para aqueles que afirmavam ter "cefaleia por tensão", cada 10 pontos de aumento na escala de estresse associava-se a um aumento de 6.3% no número de dias por mês de dor de cabeça (para quem não tem dor de cabeça, pode parecer pouco, mas para quem tem 15 dias por mês de dor, um aumento de 6.3% significa 22 horas a mais por mês de dor de cabeça, além dos 15 dias).

Enxaquecosos e pacientes portadores de uma mistura de cefaleia tensional + enxaqueca mostraram aumentos com o estresse de suas dores também, em média 4.3% e 4% respectivamente para cada 10 pontos na escala de estresse.

Este estudo concorda com outro estudo do ano passado que afirmou que, nos EUA, o número de internações hospitalares por dor de cabeça aumentou muito durante a recessãod e 2008 - 2009.

Aliviar o estresse pode ser importante para pessoas que experimentam dores de cabeça, porque o estresse pode criar um círculo vicioso, ou seja, ele desencadeia a dor, que aumenta o estresse, e assim vai. O que sugere que o tratamento da dor de cabeça não deve ser somente medicamentoso, mas incluir medidas psicológicas e de redução do estresse, como terapias comportamentais.