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quarta-feira, outubro 16, 2013

Síndrome de Sturge-Weber

Esta, tal como a doença de von Recklinghausen (ou neurofibromatose tipo 1) é uma facomatose, ou seja, uma doença que combina sintomas e sinais da pele e do sistema nervoso. Conforma já falado em post sobre a síndrome de West, a pele e o sistema nervoso se desenvolvem do mesmo tecido embrionário. Logo, malformações de uma podem levar a alterações da outra.

A síndrome de Sturge-Weber (SSW) foi descrita em 1860 pela primeira vez por Schirmer, e posteriormente em 1879 por William Allen Sturge, médico e arquéologo inglês. Frederick Parkes Weber, dermatologista inglês deu sua contribuição ao entendimento desta doença em 1922.

A característica mais famosa da doença são as malformações de capilares (pequenos vasos) da face, geralmente em um lado só, mas que pode acometer os dois lados em menos de 1/3 dos pacientes, e que pode assumir as mais variadas formas e tamanhos, muitas vezes somente tingindo a face de roxo, mas em outras causando deformações faciais (veja abaixo).

http://www.cmaj.ca/content/170/11/1672/F2.large.jpg

http://kotiro.petermichaud.com/wp-content/uploads/2009/09/122sturge_weber.jpeg

http://www.childfoundation.com/kids/Mariceli%20Diaz%20Marrero/Mariceli-profile.jpg
Em termos cerebrais, há malformações que podem ser dos dois lados (bilaterais) em 25% dos pacientes com lesões dos dois lados da face. Uma complicação grave e que precisa ser diagnosticada precocemente nestes pacientes é o glaucoma, ou aumento da pressão dos olhos, e que pode ocorrer em quase metade dos pacientes.

O diagnóstico pode ser feito ao nascimento, pois as manchas ou lesões cutâneas já são visíveis nesta época. Mas para termos o diagnóstico de SSW, é necessário haver conjuntamente lesões cerebrais ou oculares (se somente a lesão cutânea se apresentar, sem outras anormalidades, podemos estar diante de um angioma, tumor vascular benigno, simples, sem complicações). 

Aliás, estas "manchas" da pele podem acometer também a região da boca, por dentro e por fora, além do pescoço, tronco, membros, língua, gengiva, laringe, faringe e nariz. A cor da lesão pode aparecer menos viva ao nascimento, mas pode ficar cada vez mais escura com o passar da idade da criança.

Em 60% dos pacientes, a face pode aumentar do lado da lesão, podendo haver alterações dos ossos da face em alguns pacientes. As lesões de pele podem faltar na SSW em menos de 1/5 dos pacientes, sendo que estes pacientes são diagnosticados por médicos experientes com o uso de exames de imagem (tomografia ou ressonância).

Os sintomas neurológicos mais comuns são as crises epilépticas, além de retardo variável de desenvolvimento mental em alguns pacientes, além de dores de cabeça. Três quartos das crises aparecem já no primeiro ano de vida (podem começar como síndrome de West, como já visto em post anterior). Alterações motoras de braços e pernas podem ocorrer em alguns pacientes, além de problemas visuais cerebrais.

A causa da doença é desconhecida, e não se conhece modos de herança genética.

As alterações cerebrais assumem a forma de malformações, defeitos do desenvolvimento cortical, além de deposições anormais de cálcio no cérebro (calcificações), e principalmente alterações dos vasos cerebrais com diminuição do calibre dos vasos e da vascularização de certas regiões, o que pode se responsabilizar por algumas crises epilépticas.

De todas as síndromes neurocutâneas (que afetam a pele e o sistema nervoso), a SSW é a quarta mais comum no mundo (as mais frequentes são a Neurofibromatose tipo 1, a esclerose tuberosa ou doença de Bourneville, e a hipomelanose de Ito). Ocorre em cerca de 1 pessoa para cada 22,000 nascidos.

O diagnóstico é  clínco, através das lesões de pele, e radiológico, com o diagnóstico das calcificações cerebrais, além de malformações cerebrais e alteraçõe vasculares cerebrais que podem ocorrer em alguns pacientes.

http://www.medlink.com/images/acsw5.jpg
Acima uma calcificação cerebral típica de SSW, vista em tomografia de crãnio (as calcificações são estas manchas esbranquiçadas brilhantes logo abaixo do osso).

O tratamento baseia-se no tratamento das crises epilépticas, controle de fatores de risco vasculares mesmo em crianças (algo que deve ser discutido com o neuropediatra ou neurologista que acompanha o paciente), evitar complicações clínicas, como anemia ou desidratação, manter uma vida saudável, com boa alimentação e sono normal. Outras formas de tratamento das lesões cerebrais devem ser discutidas com o médico que assiste a criança ou o paciente.

Avaliaçõe softalmológicas devem ser solicitadas, para afastar glaucoma. As lesões de pele podem ser tratadas, de acordo com a avaliação de dermatologista especialista.

domingo, março 04, 2012

Pequeno dicionário de termos médicos - Hipotensão ortostática

Hipotensão é exatamente o contrário de hipertensão, ou seja, queda de pressão. Mas diferentemente de hipertensão, que pode ser definida nos termos atuais como uma pressão arterial acima de 12/8,5 (ou na linguagem técnica 120 mmHg por 85 mmHg), não há um limite para queda de pressão. 

Assim, vemos pessoas com pressão de 8/6 (ou 80 mmHg/60 mmHg) muito bem, sem sintomas, e pessoas com pressão de 10/6 passando mal na rua. Isso varia de pessoa para pessoa, e se a pessoa tem pressão baixa normalmente (como no caso de atletas) ou se a pessoa tem pressão alta diariamente (o que é perigoso) e de repente apresenta uma queda de pressão. Também, quedas progressivas dão menos sintomas do que quedas abruptas da pressão, como no caso da hipotensão ortostática.

O que define a queda de pressão é a presença de sintomas, como sudorese fria, palidez, mal estar, cansaço, tontura e dor de cabeça. Claro que há situações em que a pressão baixa é problemática, como em pacientes que apresentam um quadro grave chamado de choque, quando a pressão dentro dos vasos não é suficiente para manter os órgãos em funcionamento. Mas isso é outra história.

Mas afinal de contas, o que é hipotensão ortostática? Ortostatismo é o ato de ficar em pé! Difere da posição supina, que é a posição deitada de barriga para cima. Hipotensão ortostática, ou hipotensão postural, é a queda de pressão que ocorre quando uma pessoa passa da posição deitada (ou menos comumente sentada) para a posição de pé, rapidamente ou lentamente. 

E quais são as causas de hipotensão ortostática ou postural? Leia aqui para saber mais sobre isso. 

quarta-feira, dezembro 21, 2011

Pequeno dicionário de termos médicos - Síndrome piramidal

Iiih, outro termo esdrúxulo, você vai dizer. Mas este termo é bastante usado por neurologistas.

Síndrome piramidal refere-se à perda de força e outras alterações encontradas em pacientes com lesões cerebrais ou da medula que afetam o trato piramidal, ou cortocospinhal (Leia aqui). A síndrome não deve ser usada para referir-se a pacientes com doenças dos nervos, das raízes dos nervos ou dos músculos e da junção entre os músculos e os nervos (respectivamente, teríamos aqui as neuropatias, as polirradiculopatias, as miopatias e as doenças de junção neuromuscular). 

O trato chama-se piramidal por que o cruzamento de suas fibras, quando visto em um corte horizontal, parece uma pirâmide (90% das fibras que saem do cérebro em direção aos músculos cruzam-se na linha média de uma estrutura do tronco cerebral chamada de bulbo ou medula oblonga, loco acima da medula).

Observe abaixo:
http://4.bp.blogspot.com/_kaQ5P19FVgk/SkkaNUFr2OI/AAAAAAAADOo/rVJ18b8KHJg/s400/MedullaOblongata1.JPG

Este é o bulbo, visto pela frente. Onde está escrito Medulla Oblongata (o nome do bulbo em latim), é onde há a decussação (cruzamento) das pirâmides.

A síndrome piramidal pode ser de dois tipos: deficitária e de liberação, podendo as duas coexistir no mesmo paciente.

Síndrome piramidal deficitária refere-se simplesmente à fraqueza de um lado do corpo ou de uma parte do corpo (hemiparesia, como fraqueza de um lado, tetraparesia, como fraqueza dos 4 membros, ou paraparesia, como fraqueza das duas pernas, ou mais raramente dos dois braços), geralmente com diminuição do tônus muscular (hipotonia = moleza dos músculos). Neste caso, os reflexos elicitados pelo martelinho (reflexos tendinosos profundos) estão diminuídos ou ausentes.

Síndrome piramidal de liberação refere-se à mesma fraqueza, nas mesmas distribuições, mas com alguns sinais a mais. Aqui, os membros afetados não estão moles, mas ao invés, duros e tensos (espasticidade), os reflexos estão exaltados (aumentados, vivos, fáceis de serem obtidos com uma simples marteladinha, ou marteladas em locais que antes não produziam estes reflexos), os músculos estão facilmente excitáveis, e quando estimula-se a planta do pé na sua parte mais externa, o dedão (hálux) ao invés de se fletir (descer), vai para cima de forma gradual (sinal de Babinski).

A importância de saber isso é que na maioria das vezes, por conta da evolução da doença e da adaptação do sistema nervoso à lesão, a síndrome piramidal deficitária acaba evoluindo para liberação piramidal, o que pode ocorrer em dias a semanas ou mais. Isso é bem visualizado nas lesões medulares, onde inicialmente o paciente entra em choque medular, com perda do tônus muscular das pernas (e também dos braços a depender do nível da lesão, se acima ou abaixo do pescoço) e perda de reflexos, e dias após acaba evoluindo para aumento dos reflexos e contraturas dolorosas das pernas (espasticidade).

Eu já vi pacientes que sofreram derrames grandes, e permaneceram com fraqueza associada a perda do tônus muscular (hipotonia) e diminuição dos reflexos (hipo ou arreflexia), sem evolução para liberação piramidal. Estes pacientes que permanecem em síndrome deficitária podem ter mais dificuldade de obter melhora com reabilitação e fisioterapia do que um paciente com síndrome de liberação.

Por último, o uso da toxina botulínica está indicado para os casos de espasticidade (síndrome de liberação) e não para os casos de déficit puro sem liberação piramidal.

As causas de ambas as síndromes são as mesmas: Derrames, traumas cranianos ou medulares, tumores, esclerose múltipla, etc...

terça-feira, dezembro 20, 2011

Pequeno dicionário de termos médicos - Sialorreia

Sialorreia é mais um termo médico muito utilizado pelos neurologistas. Refere-se ao excesso de saliva produzido, ou melhor, pouco eliminado por alguns pacientes neurológicos, como sequelados de acidente vascular cerebral, portadores de doença de Alzheimer e doença de Parkinson, portadores de doença de Wilson e outras doenças neurodegenerativas. Essa saliva que não é clareada, seja pela dificuldade de deglutir, seja pela lentidão nos movimentos de deglutição, seja pela incapacidade por doenças mentais de deglutir, acaba por escorrer pela boca, criando empecilhos ao bom convívio social.

Os pacientes com AVC apresentam a sialorreia pela dificuldade de engolir, ou seja, pela disfagia. Os pacientes com doença de Wilson ou doença de Parkinson podem ter não só a disfagia, mas também a lentidão nos movimentos da laringe.

O tratamento desta condição baseia-se na monitorização constante do paciente, mas também em medicações, como a amitriptilina, o hidroxizine, e mais recentemente a toxina botulínica.

A toxina botulínica, quando apliocada por profissional médico capacitado e experiente, demonstra ótima resposta da sialorreia, com diminuição da produção de saliva por 3 a 6 meses, às vezes mais, com poucos (ou nenhum) efeitos colaterais.




quarta-feira, agosto 17, 2011

Pequeno dicionário de termos médicos - Ataxia

Ataxia vem do grego, e significa literalmente perda de ordem, de formação. Na prática neurológica, define-se ataxia como o conjunto de sinais e sintomas que levam o paciente a perder o equiíbrio e a coordenação motora.

O equilíbrio é uma das funções mais importantes desempenhadas pelo sistema nervoso, por que nos permite andar, ficar de pé e realizar nossas atividades, sem qualquer risco de queda. O equilíbrio é propiciado por três sistemas: 1. O labirinto ou sistema vestibular, localizado em cada ouvido; 2. O sistema proprioceptivo, ou seja, um conjunto de fibras que correm na parte de trás da medula vindo dos membros (braços e pernas), e que nos informa, entre outras coisas, a posição de cada parte do corpo no espaço. Assim, este sistema nos permite, com os olhos fechados, dizer se nosso braço está levantado ou não, se nosso pé direito está na frente ou atrás do esquerdo, se estamos em pé ou deitados, e assim vai; e 3. O sistema cerebelar, composto pelo cerebelo e suas fibras, além de outras estruturas como o tronco cerebral e o tálamo (pequena parte do cérebro localizada lá dentro dele, por onde passam todas as informações que entram e saem do cérebro), e que é responsável por você conseguir pegar em algo sem derrubar, ou acertar uma bola com um taco sem errar, ou ficar na ponta dos pés ou com um pé na frente do outro sem cair. O cerebelo nos permite andar na corda bamba (quer dizer, a algumas pessoas, as mais treinadas), manter o equilíbrio numa ladeira de subida ou descida, pegar um copo de plástico sem esmagar, acertar o nariz com o dedo, nem na pontinha, como o médico nos pede para fazer.

Vamos falar mais sobre estes sistemas mais para frente. O sistema vestibular, ou labirinto, já foi discutido em tópico anterior neste blog.

terça-feira, agosto 09, 2011

Pequeno dicionário de termos médicos - Hemiparesia

Hemiparesia é outra daquelas palavrinhas que vêm do grego (esse grego...), que quer dizer fraqueza (paresia) e hemi (metade, meio), e quer dizer fraqueza de metade do corpo. Não, não é a metade de cima ou a de baixo, mas a de um lado ou outro. Assim, falamos de hemiparesia direita ou esquerda. A hemiparesia pode afetar a face, quando então chama-se de hemiparesia completa. Se for do pescoço para baixo, chama-se de hemiparesia incompleta.

A paresia é uma fraqueza que não é total, ou seja, ainda há algum grau de força. À fraqueza total, chama-se de plegia (quando o paciente não consegue mover absolutamente nada daquele membro ou hemicorpo).

Qual a causa mais comum das hemiparesias/hemiplegias? Geralmente são os derrames, ou AVC's. Mas tumores e traumas cranianos ou de parto (quando o bebê sofre durante a saída pelo canal vaginal ou pela incisão da cesareana) pode causar isso também. 

Além da hemiparesia e da hemiplegia, há outros termos interessantes a serem destacados aqui:

1. Monoparesia/monoplegia - É a fraqueza (completa ou não) de um único membro (um braço ou uma perna)
2. Diparesia/diplegia - É a fraqueza dos dois lados do corpo, mas que ocorrem em momentos diferentes, como um derrame que afeta um lado, e logo após vem outro afetando o outro lado.
3. Paraparesia/paraplegia - É a fraqueza ou dos dois braços (mais raro, chamado de paraparesia braquial) ou das duas pernas (paraparesia crural). Este último é geralmente causado por lesões da medula espinhal.
4. Tetraparesia/tetraplegia - É a fraqueza dos quatro membros de uma só vez, como ocorre nas lesões medulares altas, como ao nível do pescoço (cervical)


quarta-feira, julho 27, 2011

Pequeno dicionário de termos médicos - Hemianopsia (Texto longo - tenha paciência)

Você já ouviu este termo antes? Hemianopsia é uma palavra bastante usada em neurologia, e indica uma alteração da visão. Mas antes de discutirmos isso, vamos rever anatomia e funcionamento (fisiologia) do sistema visual humano.

O olho é uma estrutura complexa, sendo um globo levemente alongado (uma elipse, por assim dizer), formado por duas partes, uma parte anterior (câmara anterior) e uma posterior (câmara posterior). O olho funciona como uma câmera fotográfica, recebendo a luz que vem refletida dos objetos que atravessa os meios transparentes do olho (córnea, cristalino ou lente, humor aquoso, pupila, humor vítreo) e chega à retina (aqui a imagem é representada de cabeça para baixo e bem menor do que realmente é - aqui cabem algumas leis físicas de óptica e lentes que poderão ser discutidas depois). Da retina, partem nervos que adentram o cérebro e vão até a parte mais posterior do mesmo, o córtex occipital ou calcarino, onde esta imagem será analisada e vista como deve ser.

http://www.nlm.nih.gov/medlineplus/ency/imagepages/1094.htm
Muito bem. Observe à esquerda da figura uma estrutura amarelada saindo do olho, onde em inglês se lê optic nerve - este é o nervo óptico, o segundo nervo craniano, mas que na verdade não é nervo, mas uma extensão do próprio cérebro. A retina se desenvolve do cérebro (que, aliás, durante a fase de desenvolvimento do embrião, desenvolve-se juntamente com a pele. Você sabia disso?), e o resto do olho se desenvolve de tecidos ditos mesenquimais, ou seja, tecidos que formam estruturas de suporte no corpo, como ossos, músculos e cartilagens.

Esse "nervo" segue por baixo do cérebro, e lá no meio dele, na frente de uma extensão do cérebro chamada de tronco cerebral, ele entra definitivamente no cérebro, indo para o pólo posterior do cérebro, os lobos occipitais. Observe uma representação disso abaixo:

 http://www.doutorcerebro.com.br/portal/index.php?option=com_content&view=article&id=24:neuriteoptica&catid=25:esclerose-multipla&Itemid=17

Essa figura mostra o nervo óptico na órbita, saindo do olho, e indo para o cérebro. O nervo é esta estrutura amarelada ( os nervos nas figuras são sempre desenhados em amarelo, apesar de que os nervos não são amarelos. É somente uma forma de ajudar a discernir entre o que e o que não é nervo).

Lá vai mais uma figura:

http://www.msstrength.com/wp-content/themes/zen/images/optic_nerve.jpg

Observe que o nervo entra no cérebro lá atrás. Pois é, o nervo vira o que chamamos de trato óptico, estas linhas negras sinuosas no cérebro, indo para o córtex occipital visual, o território em roxo no cérebro acima. O trato óptico não é assim, claro. Isso é só uma representação gráfica para ajudar você a entender o que ocorre aqui.

No córtex occipital, a imagem que foi vista na retina pequena e invertida é dissecada, analisada, e mostrada a você como você a vê. Logo, o que você vê é uma filtragem da imagem que entra no seu olho e que é feita inteiramente no cérebro. Perfeito, não?

Mas o que é hemianopsia???? E onde que tudo isso que eu li entra nessa história? Como disse antes, um pouco de anatomia ajuda você a entender o que ocorre no seu corpo.

Bem, suponhamos que você não entenda patavinas de óptica, mas se entender, estamos em casa. A sua retina pode ser dividida, como um círculo, em quatro partes, mas não iguais, por duas linhas, uma vertical e uma horizontal, passando justamente pelo local onde o nervo óptico se origina (chamado de disco óptico), os quadrantes. Observe abaixo:

http://www.coll.med.br/uploads/images/nervo_optico4.jpg

As duas bolas coloridas lá em cima são a representação gráfica da retina. Cada setor colorido é um quadrante, e eles não são iguais. Temos os setores temporais, os mais laterais, mais próximos da parte de fora do rosto, e os nasais, mais mediais, ou seja, mais próximos do nariz. Cada setor temporal e cada setor nasal é dividido em quadrantes superiores e inferiores. Daí temos, quadrante temporal superior, temporal inferior, nasal superior e nasal inferior de cada lado.

Muito bem, entendido até agora? Vamos adiante, que a caminhada é longa.

O nervo óptico leva as informações de cada quadrante para o cérebro, da seguinte maneira. Os nervos que vêm dos quadrantes temporais levam a informação para o cérebro do mesmo lado (quadrantes temporais direitos levam a informação para o córtex occipital direito, ou sejam, passam direto pelo quiasma óptico, o cruzamento de fibras coloridas que você vê logo acima na figura anterior). Já os nervos que trazem informações dos quadrantes nasais cruzam pelo quiasma para o lado contrário (isso mesmo, informações dos quadrantes nasais de um lado vão para o cérebro do outro lado).

Mais outra coisa, que você pode ver na figura acima. Você observa que a luz que vem de fora entra na retina de dentro? E o contrário, ou seja, a luz que vem de perto do nariz entra na retina de fora, também ocorre? Da mesma forma, a luz que vem de cima entra pela retina de baixo, e a luz que vem de baixo pela retina de cima! Sim, isso mesmo, ou seja, a informação visual que chega ao seu cérebro cruza duas vezes, duas vezes, antes dos olhos, virtualmente, quando ainda são só raios de luz, e dentro do cérebro, na junção entre as fibras, no quiasma óptico!

Certo, entendeu até agora? Se não entendeu, mande um comentário falando o que não entendeu, e eu refaço o texto para você entender.

Certíssimo. Então a hemianopsia não é um distúrbio visual, por que não afeta o olho, mas as vias neurais que saem do olho? É um distúrbio visual, mas considerado central, ou seja, afeta o cérebro e suas vias. Se afetasse o olho, seria chamado de periférico.

E o que é uma hemianopsia? Veja abaixo:

http://en.wikipedia.org/wiki/Homonymous_hemianopsia

Uma pessoa, vendo Paris de cima, se tivesse uma hemianopsia, veria a paisagem assim, como você vê nesta figura aí em cima. Uma parte da imagem é cortada. Neste caso, levando-se em conta que a torre Eiffel está no lado esquerdo da figura, o paciente teria uma hemianopsia homônima direita! Peguei pesado? Vamos explicar. Veja abaixo.

http://www.sistemanervoso.com/neurofisiologia/07_images/07_clip_image002_0000.jpg
Você está vendo um cérebro cortado de frente para trás, e de cima para baixo. Observe as radiações ópticas, estas linhas roxas e amarelas saindo dos olhos, e correndo pelo cérebro até a parte de trás dele, o lobo occipital. Estas radiações, como já comentado, estão dentro da massa cerebral, e não podem ser individualizadas sem técnica apropriada. Quando ocorre lesão cerebral em algum lugar das radiações ópticas, ou mesmo no quiasma óptico, ocorre alteração da transmissão da imagem da retina ao cérebro.

Na figura acima, as linhas horizontais exemplificam locais de lesão. E estas lesões podem ser por derrames, tumores, traumas, acidentes, etc... Os círculos com componentes escuros ao lado demonstram como um paciente com estas lesões veria o ambiente caso estivesse observando um fundo branco. A hemianopsia homônima é a alteração mais baixa, causada por lesões nas radiações ópticas. Observe que uma lesão do córtex occipital direito leva a uma hemianopsia homônima esquerda (o nome homônima é por que temos perda visual de campos complementares, ou seja, o temporal de um lado e o nasal do outro; lesões do quiasma  (que geralmente comprimem o quiasma de dentro para fora, comprimindo a parte de dentro das vias ópticas) levam a perda de campos temporais por lesão das vias nasais, e as hemianopsias aqui produzidas são chamadas de heterônimas).

Mas por que a lesão de um lado leva a perda visual do outro, se as vias temporais vão para o mesmo lado, e as nasais é que cruzam? Por que a luz se cruza antes de chegar ao olho. Isso mesmo! A luz cruza de um lado para outro, e de cima para baixo. Logo, se você perde a retina inferior, você tem perda visual superior daquele lado, e vice-versa. Da mesma forma, se você tem lesão de uma via (no córtex), com perda de via temporal de um lado e nasal do outro, o que ocorre é a perda de campos opostos, justamente por que a luz que vai para a retina temporal vem do campo nasal, e a que vai para a retina nasal vem do campo temporal. Complicado? Não!

Da mesma forma, temos as hemianopsias altitudinais, ou seja, perda de campo superior ou inferior, e as quadrantopsias, quando não é o hemicampo todo que é perdido, mas só a parte de cima ou a de baixo.

Bem, espero ter ajudado os interessados a resolverem esta questão. Qualquer dúvida, mande um e-mail para mim (sekeff@hotmail.com) ou faça seu comentário. Terei prazer em ajudar.

quinta-feira, junho 02, 2011

Síndrome das pernas inquietas - Nome estranho para uma condição comum

Muita gente, especialmente aqueles portadores de diabetes e doença de Parkinson, já deve ter sentido, ou sente, quando vai deitar um incômodo nas pernas, como algo subindo oud escendo, ou formigamento nas pernas, e que só melhora quando a pessoa mexe as pernas ou anda pela casa. Estes sintomas costumam ocorrer mais a noite, mas podem ocorrer em qualquer hora do dia no momento em que o paciente relaxa ou deita para repousar. Estes sintomas definem uma síndrome antiga, descrita há mais e 300 anos, e que somente há pouco tempo chamou a atenção dos médicos e dos leigos - a Síndrome das pernas inquietas (SPI) (Restless Leg Syndrome, em inglês).

Definida como um quadro caractertizado por sensações desconfortáveis nas pernas/pés, podendo também em casos mais graves acometer os membros superiores, que ocorrem ao repousar ou deitar, mais especialmente a noite, e que só melhoram (parcial ou totalmente) quando o apciente mexe as pernas ou anda, a SPI não possui causa definida, apesar de que várias possíveis causas já foram sugeridas. Entre elas, há causas genéticas, em que a doença aparece em pacientes jovens sem nenhuma doença antecedente, e há história familiar. A deficiência de ferro no cérebro é outra causa, mas não tem relação com anemia. A deficiência de dopamina em certas áreas cerebrais pode ter relação com o fato da SPI ocorrer também na doença de Parkinson. Gestação pode causar sintomas tenporários.

O diagnóstico é feito por médico especializado, já que é necessário conhecer a doença para diagnosticá-la. Não há exames que dêem o dioagnóstico, mas sugere-se que sejam pedidos exames de tireóide, ferro sérico e ferritina (que é a forma como o ferro é armazenado no corpo), vitamina B12 e ácido fólico (deficiencia de vitamina pode ocorrer junto), exame de função renal (uréia e creatinina, já que doençå renal pode ser causa do problema), exames de diabetes (uma das causas de SPI) e em alguns casos eletroneuromiografia (o famoso exame de choques e agulhas, para verificar se há doença dos nervos periféricos).

A doença é benigna, e de evolução lenta, mas o médico precisa verificar se o diagnóstico é esse mesmo, e a causa, pois as vezes a causa pode ser grave, como uma doença renal ou diabetes. O tratamento é feito com várias medicações, a critério do seu médico. Um dos critérios para se decidir a medicação a ser usada é a presença de dor juntamente com os sintomas, que não raro ocorre.

Agora que você já conhece que essa doença existe, caso você sinta sintomas parecidos com esses, vá a um médico, e melhora sua qualidade de vida.

segunda-feira, maio 23, 2011

Síncope ou desmaio

Síncope é um evento súbito, de rápida duração, e que se caracteriza por desmaio podendo haver antes palidez, batedeira (taquicardia) ou náuseas. O paciente geralmente está de pé, sentado ou está se levantando quando tem o evento. Há queda ao chão com palidez, náuseas, e duração curta, com retorno ao normal sem sequelas ou confusão mental após o evento. O paciente, se estiver com a bexiga cheia, pode urinar na roupa, e alguns pacientes podem ter abalos musculares por falta de oxigenação cerebral, o que simula uma crise convulsiva mas não o é. Se o paciente morder a língua, geralmente o fará na ponta da língua, enquanto que em uma crise convulsiva, quando há mordedura de língua, geralmente ocorre na lateral da língua.

A confusão mais comum é feita com as crises convulsivas, onde antes da crise pode haver mal-estar no estômago, sensações estranhas como se o local conhecido fosse estranho (jamais-vú) ou uma situação novas já tivesse ocorrido antes (deja-vú), sensação de estar flutuando e vendo a si mesmo, pode haver luzes ou formas na visão antes da crise (na síncope, o paciente pode ter borramento visual ou visão turva). Nas crises ainda podem ocorrer abalos musculares involuntários (sem o paciente querer) antes do desmaio. Pode haver ainda a sensação de odores estranhos (cheiro de borracha queimada) antes da crise. Nas crises convulsivas os abalos são intensos, a boca fica travada, o paciente pode babar, urinar ou defecar na roupa, e após a crise o paciente fica completamente sonolento, agitado e confuso por minutos a horas.

As causas de síncope podem ser várias, mas geralmente envolvem o sistema cardiovascular. Quedas de pressão em pessoas jovens (geralmente mulheres), ou pessoas que levam susto, tiram ou vêem sangue, em idosos ou adultos jovens quando estão de pé ou se levantam rapidamente, especialmente quando muito tempo em pé, quando sob sol forte, quando em fila ao ar livre sob sol, quando desidratados ou sem alimentação. Pessoas cardiopatas, com insuficiência cardíaca, arritmias cardíacas, que sofreram infarto do coração recentemente, ou que tomam alguns tipos de medicações podem ter síncope. Asmáticos, fumantes, portadores de bronquite crônica ou enfisema pulmonar, portadores de doença renal, de doença hepática, podem ter síncope também.

Quando você fica de pé, sua pressão cai levemente por um instante, mas estruturas no coração, nas carótidas, nos rins e em outros locais decetam estes fenômenos e liberam substâncias que fazem a pressão voltar ao normal.

Idosos saudáveis podem ter síncope por um motivo diferente: Na artéria carótida, artéria que leva sangue ao cérebro, há estruturas na sua parede que sentem a oxigenação e a pressão que sobe para o cérebro. São os quimiorreceptores e os barorreceptores, respectivamente. Em pacientes idosos, nos quais já pode existir placa de aterosclerose na parede dos vasos, inclusive nas carótidas, esta placa impede a "leitura" fiel da pressão que vem do coração para o cérebro, e por conseguinte, pode haver desregulação da pressão quando o paciente fica de pé ou se levanta. Ou seja, o receptor, que deveria ler queda de pressão por que o paciente ficou de pé, não o fez por que havia uma placa de gordura em cima dele, e a pressão pode permanecer baixa com o paciente em pé. Caso a presão não eleve, ou o paciente tenha se levantado de uma posição deitada muito rápido, ou esteja quente, ou o paciente não tenha se alimentado ou se hidratado o suficiente, ou esteja em uso de alguns tipos de medicações (que o seu médico pode identificar), pode haver o desmaio.

É muito comum nós, neurologistas, vermos queda de pressão nos consultórios e pronto-socorros, e nosso maior desafio é dizer se aquilo foi um desmaio ou uma crise epiléptica.

Quando ao diagnóstico, deve-se fazer um eletrocardiogram, uma radiografia de tórax, e exames de sangue, pelo menos, para flagrar doenças sérias e potencialmente fatais.

O tratamento depende da causa, e só o seu médico pode fazê-lo.

domingo, maio 08, 2011

O cérebro pode inchar? Continuação

Esta pergunta equivale a perguntar quantas gotas de água tem o oceano? Ou seja, não é possível contar. Mas é possível saber quais são os vasos principais, aqueles que podemos ver em exames de imagem como tomografia e ressonância, e que são de maior importância nas doençs neurológicas.

O cérebro possui artérias e veias. As artérias são vasos que levam o sangue com oxigênio para os tecidos, vindo do coração. Já as veias levam o sangue pobre em oxigênio e cheio de produtos do metabolismo dos tecidos de volta ao coração para ser limpo e oxigenado pelos pulmões.

O sangue arterial geralmente é vermelho brilhante, e o venoso é um pouco mais escuro, arroxeado. E o cérebro possu os dois tipos de vasos.

Entre as artérias, temos dois conjuntos principais, as artérias chamadas da circulação anterior, e as da chamada circulação posterior. As artérias da circulação anterior são assim chamadas por que suprem a parte da frente do cérebro, os 2/3 anteriores dele. São as artérias carótidas internas, uma de cada lado, e elas saem de uma artéria maior, na verdade a maior do corpo, a artéria aorta. As da circulação posterior também o são assim chamadas por que suprem a parte de trás do cérebro, e são as artérias vertebrais, também uma de cada lado. Estas artérias, quando dentro do cérebro, unem-se para formar uma artéria só, chamada de artéria basilar.

Destas artérias, carótidas, vertebrais, e basilar, saem ramos como pequenos afluentes de um rio maior, e que vão para as diversas partes do cérebro.

As artérias carótidas saem da aorta e dividem-se em carótida interna, que vai para a cabeça, e externa, que vai para a face. A carótida interna é demonstrada na figura abaixo:



Essa figura veio daqui: http://www.santagenoveva.com.br/santagenoveva/dicas_avc.htm

A artéria carótida interna tem uma porção fora da cabeça (extracraniana) e uma dentro da cabeça (intracraniana). A porção intracraniana, continuação da extracraniana, é mostrada aqui:



Essa figura veio daqui: http://www.angiomax.com.br/tratamento.html