domingo, maio 08, 2011

O cérebro pode inchar? Continuação

Esta pergunta equivale a perguntar quantas gotas de água tem o oceano? Ou seja, não é possível contar. Mas é possível saber quais são os vasos principais, aqueles que podemos ver em exames de imagem como tomografia e ressonância, e que são de maior importância nas doençs neurológicas.

O cérebro possui artérias e veias. As artérias são vasos que levam o sangue com oxigênio para os tecidos, vindo do coração. Já as veias levam o sangue pobre em oxigênio e cheio de produtos do metabolismo dos tecidos de volta ao coração para ser limpo e oxigenado pelos pulmões.

O sangue arterial geralmente é vermelho brilhante, e o venoso é um pouco mais escuro, arroxeado. E o cérebro possu os dois tipos de vasos.

Entre as artérias, temos dois conjuntos principais, as artérias chamadas da circulação anterior, e as da chamada circulação posterior. As artérias da circulação anterior são assim chamadas por que suprem a parte da frente do cérebro, os 2/3 anteriores dele. São as artérias carótidas internas, uma de cada lado, e elas saem de uma artéria maior, na verdade a maior do corpo, a artéria aorta. As da circulação posterior também o são assim chamadas por que suprem a parte de trás do cérebro, e são as artérias vertebrais, também uma de cada lado. Estas artérias, quando dentro do cérebro, unem-se para formar uma artéria só, chamada de artéria basilar.

Destas artérias, carótidas, vertebrais, e basilar, saem ramos como pequenos afluentes de um rio maior, e que vão para as diversas partes do cérebro.

As artérias carótidas saem da aorta e dividem-se em carótida interna, que vai para a cabeça, e externa, que vai para a face. A carótida interna é demonstrada na figura abaixo:



Essa figura veio daqui: http://www.santagenoveva.com.br/santagenoveva/dicas_avc.htm

A artéria carótida interna tem uma porção fora da cabeça (extracraniana) e uma dentro da cabeça (intracraniana). A porção intracraniana, continuação da extracraniana, é mostrada aqui:



Essa figura veio daqui: http://www.angiomax.com.br/tratamento.html


O cérebro pode inchar?

Hoje um amigo leigo veio falar comigo sobre uma colega que está com uma doença que incha o cérebro. Bem, mas cérebro pode inchar? Hummm...

Vamos aos fatos

O cérebro é um órgão complexo, composto de várias células (já discutidas em tópicos anteriores), prolongamentos destas células (axônios e dendritos), vasos (artérias, que saem do coração, e veias, que voltam para o coração), e um líquido que é produzido dentro do cérebro, e que banha o cérebro e a medula, chamado de líquido céfalo-raquidiano, ou simplesmente líquor. Por ser um órgão, ele também possui células de defesa, chamadas de micróglia. As céulas de defesa do resto do corpo, os leucócitos (linfócitos), não chegam com facilidade ao cérebro por conta de uma proteção chamada de barreira hemato-encefálica. Isso por que os vasos cerebrais, que são as ruas por onde as células andam pelo corpo todo, são bem fechados no cérebro por células chamadas de astrócitos (já discutidas antes) e por características dos vasos cerebrais. Isso é necessário para que vírus, bactérias, e drogas nocivas não cheguem ao cérebro.

Mas quando o cérebro sofre uma lesão, digamos, um derrame, ocorre isquemia cerebral (parada de circulação de sangue para uma dada região do cérebro), e isso leva a lesão dos vasos ao redor, o que faz com que aquela barreira hemato-encefálica se perca por enquanto. O tecido cerebral morto tem de ser retirado de lá de alguma maneira. Além disso, toda necrose (morte de tecido do corpo) é acompanhada por uma reação inflamatória (a base das doenças no corpo é a inflamação, ou seja, a dilatação dos vasos e a entrada de células de defesa para agilizar o processo de limpeza do local e a morte de qualquer agente nocivo, como bactérias ou vírus, por exemplo).

Nesta reação inflamatória, o que ocorre? Ora, imagine uma lesão no seu dedo. Ela fica vermelha em algumas horas, certo? Por que? Por que aumenta a circulação de sangue na região por conta de várias substâncias que são liberada no local (as citoquinas e outras), e além disso, é necessário que aumente a circulação para que as células de defesa cheguem no local. Vai saber o que uma lesão no dedo esconde, não é mesmo? Além disso, a lesão, e o dedo, ficam inchados, certo? Por que? Por que o aumento da circulação, e a dilatação dos vasos locais, aumenta a saída de líquido dos vasos para fora, para os tecidos do dedo. O local fica quente pelo mesmo motivo. E dói, por que as substâncias liberadas estimulam os terminais de dor.

Pois no cérebro é a mesma coisa. Quando ocorre uma lesão, ocorre aumento de circulação de sangue local, e ocorre o que? Ocorre inchaço cerebral, o famoso edema cerebral, de que já ouvimos falar tantas vezes. Agora, o inchaço é maior ou menor dependendo de várias coisas: Primeiro, do tamanho da lesão. Lesões pequenas geralmente levam a inchaços pequenos. O oposto também é verdade. Mas dependendo da lesão, mesmo lesões pequenas podem levar a grandes áreas de inchaço (edema). Segundo, do tipo de lesão. Lesões infecciosas, como abscessos (coleções de pus encapsuladas), levam a grandes inchaços, mesmo sendo o abscesso pequeno. E terceiro, da idade da lesão. Lesões mais antigas levam a menores inchaços, claro.

Então, o cérebro pode inchar? Sim, pode! Mas aí é que mora o perigo. Você sabe onde fica o cérebro?

Continua no post seguinte...

sexta-feira, maio 06, 2011

Medula espinhal

Você já deve ter se perguntado - coomo o cérebro faz para controlar tudo, o corpo todo, se ele está lá em cima, e por exemplo, o pé está lá embaixo? Pois bem, para isso ele conta com órgãos especializados em transmitir as informações dele e para ele. São a medula espinhal e os nervos periféricos.

A medula é uma estrutura alongada que sai imediatamente embaixo do tronco cerebral, a parte mais baixa do cérebro. Ela parece um grande cone, e vai do seu pescoço até o final de suas costas, protegida por um colete ósseo, a coluna vertebral ou espinha. Nela entram nervos que transmitem as informações vindas da periferia do corpo, pele, músculos, braços, pernas, tronco, para o cérebro, e dela saem nervos que vão dizer o que o cérebro quer que seja feito - mover um braço aqui, mover uma perna ali, abrir a boca, etc...

A medula é formada pelas seguintes partes:
1. Cervical - A mais alta, localizada no pescoço
2. Dorsal ou torácica - Localizada nas costas, é a mais longa
3. Lombar - Localizada lá embaixo dos rins
4. Sacro-coccígea - Parte pequena, seus segmentos formam uma parte mais avolumada da medula chamada de cone medular.

A medula não é tão grande quando a coluna vertebral, pois a coluna acaba por crescer mais que a medula, e isso é bom, por que dá a nós médicos um belo espaço lá embaixo, sem medula, para coletar líquido espinhal para exames.

Uma figura da medula:



Essa figura veio daqui: http://auladefisiologia.files.wordpress.com/2009/11/medula.gif?w=417&h=517

Observe nessa figura o tronco cerebral lá em cima seguido logo após pela medula. A medula como o cérebro é envolvido pelas meninges, a pia-máter, a aracnóide, e a dura-máter, de dentro para fora. A medula é envolta também, como pode-se ver na figura, por osso denso, as vértebras. E da medula saem e entram os nervos. Observe na figura menor à esquerda que a medula é menor que a coluna óssea, e há uma estrutura lá embaixo chamada de cauda equina, que é um conjunto de nervos que saem das porções mais baixas da medula para a porção baixa do abdome e para os membros inferiores, as pernas.

A medula é um órgão de extrema importância, mas não é somente mandada pelo cérebro, tendo ela vida própria quando separada do cérebro. Isso ocorre por exemplo nos casos de acidentes, fraturas por quedas, ou lesão por arma de fogo. Ocorre lesão medular, e a pessoa perde a força e a sensibilidade abaixo da lesão, além de ter alterações da bexiga e do reto.

A medula sem o cérebro faz isso, exerce suas ações independente da vontade, e suas ações são de enrijecer o corpo, tornar o corpo mais duro, mais tenso, e os reflexos acabam por ficar mais exaltados ao exame com o martelinho de reflexos. Além disso, como houve lesão da medula, a pessoa perde a capacidade de sentir o corpo abaixo da lesão por que a sensibilidade não chega mais ao cérebro.

sábado, abril 30, 2011

Há outras células no sistema nervoso além dos neurônios?

Se você é curioso, e gosta de pesquisar, talvez já tenha se feito essa pergunta antes. E se você nunca teve curiosidade de saber do que é feito o seu cérebro, bem, lá vai mais uma explicação.

O cérebro, como qualquer órgão do corpo, como já dito, é feito de células. Os neurônios são a menor parte desse material celular que chamamos de sistema nervoso. Isso por que a maior parte é dominada por células de suporte chamadas de células gliais, ou da glia. São várias células que dão sustentação ao neurônio, auxiliam-no na condução dos impulsos elétricos, mantém o cérebro a salvo de organismos e substâncias tóxicas através de algo chamado de barreira hemato-encefálica (barreira entre o sangue e o líquido da espinha e cabeça, ou seja, o líquor, que banha o cérebro e a medula), matam organismos invasores, fazem a defesa do cérebro, mantém a homeostase (o equilíbrio) do cérebro.

Há várias células gliais, sendo elas os astrócitos, os oligodendrócitos, e a micróglia.

Os astrócitos, chamados assim por terem a forma de estrelas (astros) são as células de sustentação e suporte neuronal propriamente ditas. Há várias formas e tipos deles. Aqui vai um astrócito:



Essa figura veio daqui: http://www.sobiologia.com.br/figuras/Histologia/sinapse3.gif

Observem que os astrócitos se ligam aos vasos e aos neurônios, Nos vasos, eles impedem que substâncias e organismos nocivos cheguem ao cérebro (barreira hemato-encefálica).

Os oligodendrócitos são células que principalmente produzem a bainha de gordura (mielina) que envolve os neurônios e ajuda na condução elétrica dos impulsos neuronais. Na figura acima, um oligodendrócito é demonstrado como uma pequena célula entre dois neurônios.

Já a micróglia é o sistema imunológico, de defesa propriamente dita, do sistema nervoso. São os vigias, os guardiões que iniciam um ataque caso haja uma invasão de organismos tipo vírus ou bactérias, e também retiram restos de células mortas. Um componente da micróglia, com as outras células:



Essa foto veio daqui: http://www.poderdasmaos.com/site/pub/bancoimg/bancodeimagens/Materia/coluna-11.jpg

terça-feira, abril 26, 2011

O neurônio

Se você é curioso, e gosta de pesquisar, talvez já tenha se feito essa pergunta antes. E se você nunca teve curiosidade de saber do que é feito o seu cérebro, bem, lá vai mais uma explicação.

O cérebro, como qualquer órgão do corpo, como já dito, é feito de células. Os neurônios são a menor parte desse material celular que chamamos de sistema nervoso. Isso por que a maior parte é dominada por células de suporte chamadas de células gliais, ou da glia. São várias células que dão sustentação ao neurônio, auxiliam-no na condução dos impulsos elétricos, mantém o cérebro a salvo de organismos e substâncias tóxicas através de algo chamado de barreira hemato-encefálica (barreira entre o sangue e o líquido da espinha e cabeça, ou seja, o líquor, que banha o cérebro e a medula), matam organismos invasores, fazem a defesa do cérebro, mantém a homeostase (o equilíbrio) do cérebro.

Há várias células gliais, sendo elas os astrócitos, os oligodendrócitos, e a micróglia.

Os astrócitos, chamados assim por terem a forma de estrelas (astros) são as células de sustentação e suporte neuronal propriamente ditas. Há várias formas e tipos deles. Aqui vai um astrócito:

http://www.sobiologia.com.br/figuras/Histologia/sinapse3.gif

https://encrypted-tbn0.google.com/images?q=tbn:ANd9GcR84a-HecWyvE1S0VeuK6ESfSVNznF7su5fjttXgsivINEsTkG0

Observem que os astrócitos se ligam aos vasos e aos neurônios, Nos vasos, eles impedem que substâncias e organismos nocivos cheguem ao cérebro (barreira hemato-encefálica).

Os oligodendrócitos são células que principalmente produzem a bainha de gordura (mielina) que envolve os neurônios e ajuda na condução elétrica dos impulsos neuronais. Na figura acima, um oligodendrócito é demonstrado como uma pequena célula entre dois neurônios.

Já a micróglia é o sistema imunológico, de defesa propriamente dita, do sistema nervoso. São os vigias, os guardiões que iniciam um ataque caso haja uma invasão de organismos tipo vírus ou bactérias, e também retiram restos de células mortas. Um componente da micróglia, marcado com o número 5, com as outras células:

https://encrypted-tbn0.google.com/images?q=tbn:ANd9GcRBsosQniHbnyxnHmn1Qsf1G2DDATb-fdkzx-yKp7v9WVRR6wuh3A


sábado, abril 23, 2011

Hipertensão arterial e neurologia - Relações perigosas

Hipertensão arterial é o aumento persistente da pressão arterial independente de exercícios ou repouso. A pressão normal deve ficar abaixo de 120 mmHg para a pressão sistólica (máxima) e 85 mmhg para a diastólica (mínima). Valores acima disso persistentemente são caracterizados como hipertensão arterial.

Esse problema leva a lesões persistentes nos vasos, que são os condutos por onde passa o sangue. Imagine um vaso flexível (um conduit, por exemplo), por onde passa água. Imagine agora que essa água vem com tudo por dentro do conduit, por anos e anos a fio. Um dia, esse conduit vai sofrer alguma lesão ou mesmo romper.

Pois é, mas nos vasos o negócio é diferente, por que um vaso sanguíneo tem várias camadas (3 na verdade), e a mais interna, chamada de endotélio é na verdade um órgão que produz substâncias importantes. O sangue vindo direto sobre esse vaso, anos e anos a fio, leva a alterações  no endotélio, e a mais importante é a deposição de colesterol e placas no endotélio, as famosas placas de gordura nos vasos (placas de ateroma).

Imagine as lesões vasculares em pacientes com pressão alta. Isso pode levar à formação de placas, e essas placas podem sair do local onde se formam e vão lá para cima no cérebro levando a derrames isquêmicos (os AVC's). Mais ainda, alguns vasos mais finos dentro do cérebro podem se romper por conta da pressão alta, levando a hemorragias cerebrais.

Uma figua de um vaso sanguíneo:



Agora um vaso com placa de colesterol:

Vaso sangüíneo com placas


Observe como a placa suja o vaso e diminui a luz (por onde o sangue circula). Pode ocorrer de essa placa se ferir, e obstruir o vaso, podendo levar também a derrames.

A circulação cerebral é composta de artérias e veias, como em qualquer órgão. As artérias são as carótidas e as vertebrais. Lá vai uma figura:



Observe que há uma carótida e uma vertebral de cada lado, e essas artérias são importante para p cérebro ficar vivo. Agora, veja uma carótida com placa causada por pressão alta e colesterol elevado:



Trate sua pressão alta. Você pode ter muitos mais anos de vida com isso.

Como funciona uma consulta médica? - Complemento.

Já falamos em post anterior o que ocorre, ou pode ocorrer, durante uma consulta neurológica. A neurologia é uma especialidade ampla, e muitas parte do corpo podem estar envolvidas em uma doença neurológica. Logo, chegar ao diagnóstico depende de sabermos procurar os sinais correspondentes aos sintomas dos pacientes.

Sintomas são as queixas, coisas que sentimos. Sinais são pistas visuais, táteis ou auditivas, ou seja, palpáveis, de uma doença, e que correspondem aos sintomas. Por exemplo, um paciente pode se queixar de dor de cabeça (um sintoma), e ao exame o médico observa inchaço dentro do olho (sinal) que corresponde à queixa do paciente.

Diz-se que a anamnese (a coleta da história clínica) é um método de pesquisa único, pois aqui o objeto de pesquisa (no caso, o paciente) fala! Ele pode dizer tudo o que sente, e um dos maiores médicos de todos os tempos, o canadense William Osler, dizia o seguinte: "Ouça o paciente com cuidado, ele está dizendo a você o seu diagnóstico".

Ouvir o paciente é questão de arte e paciência, mas também de tempo, algo precioso em consultas de SUS e planos de saúde, onde o médico é obrigado a atender 20, 30, 40 pacientes em um dia para ganhar o suficiente para se manter (é a realidade não só do Brasil, mas de outros países, como os Estados Unidos). Tempo é ouro no consultório, e deve ser usado com calma e sabedoria. Ouvir o paciente é ouro, e saber indagar o paciente, peruntar-lhe as questões certas, também o é.

Mas o paciente também é ativo nesta relação, não somente alguém que responde de forma passiva, mas alguém que fala, que indaga, que avalia o médico, e que reflete sobre o que é necessário falar ou não ao médico, para que este chegue ao diagnóstico de forma mais rápida e menos dolorosa possível, com o mínimo de exames.

Solicitar exames deve ser prática feita de forma judiciosa, criteriosa. Pedir exames vários para ver qual dá resultado positivo ou negativo é como caçar patos em uma clareira de olhos vendados. Você nunca vai saber se acertou um. Assim é a medicina sem a história clínica e sem o exame físico, mas infelizmente nos dias de hoje, com as consultas rápidas de 15 minutos ou menos, isso tem virado rotina.

Quanto mais o médico examina e indaga o paciente, e quanto mais o paciente ajuda o médico fornecendo respostas objetivas às perguntas, ou falando abertamente sobre sua doença quando solicitado pelo médico, menos exames serão pedidos, e mais rapidamente um diagnóstico será alcançado. Um médico não se mede pela capacidade e conhecimento dos exames que sabe pedir, mas pela capacidade de dar um diagnóstico com o mínimo de exames solicitados.

A medicina é uma arte. Dar um diagnóstico é uma arte linda, mas que exige conhecimento científico, psicologia, sabedoria e competência. Chegar a um diagnóstico é como chegar ao culpado de um crime, é uma investigação no melhor estilo Sherlock Holmes, é ser sábio, inteligente para fazer as perguntas certas e observar os detalhes, é observar o paciente desde a sala de espera até a saída do consultório, é colher todos os detalhes, pois todos são importantes. Muitas vezes uma afirmação que o paciente diz, ou uma pequena lembrança que lhe vem à mente, é suficiente para que o médico junte as peças e feche um quebra-cabeça.

O paciente, na sua interação com o médico, deve falar sobre sua doença, dizer o que sente, desde quando, a intensidade dos sintomas, onde estão os sintomas, e o que sente a mais além dos sintomas principais. As indagações do médico poderão levar ao diagnóstico, mas o médico pode ser levado a outras estradas, longe do diagnóstico correto, se não tiver perspicácia ou não souber indagar o paciente.

E se o médico parecer não fazer o que você pensou que ele faria, como por exemplo examinar seu olho quando o que você sente é dor de cabeça, ou ver suas mãos quando você se queixa de fraqueza nas pernas, pergunte a ele o porquê disso para que você possa ajudá-lo em outras ocasiões. Muitas vezes, como dissemos anteriormente, os sinais neurológicos que nos darão o diagnóstico estão em toda a parte do corpo do paciente, é só procurar.

sexta-feira, abril 22, 2011

Síndrome do túnel do carpo

Você já acordou à noite com dormência/formigamento ou fraqueza em uma ou ambas as mãos, com melhora após balançar as mãos algumas vezes? Se já, isso é bastante desagradável, não é mesmo? Pois bem, você pode estar com a síndrome do túnel do carpo (STC). Esta é uma mononeuropatia, ou seja, a lesão de um nervo único em algum lugar do corpo, nesse caso na mão ou no antebraço, o nervo mediano.

Lá vai uma figura do nervo mediano no punho:



Essa figura vem desse site aqui: http://estudiopilatesacquafit.blogspot.com/2011/01/sindrome-do-tunel-do-carpo-e-importante.html
Pois bem, observe que o nervo, esta estrutura amarela no punho, pode ser comprimida entre os dois ossos do antebraço, rádio e ulna, e os ossos da mão, e os tendões dos vários músculos que correm por ali. Mais uma figura:

Essa figura veio desse site:












 http://vinhetas.drauziovarella.com.br/entrevistas/carpo1.asp

Em algumas situações, como nas pessoas que digitam muito, que fazem trabalhso manuais, que escrevem muito, ou em pacientes com algumas doenças como diabetes ou hipotireoidismo (queda da função da tireóide), pode haver inflamação e inchaço (edema) do nervo e das estruturas ao redor, levando à compressão do nervo mediano e aos sintomas ditos acima que isso ocasiona.

Mais uma figura:


Síndrome do Túnel do Carpo Bilateral com Liberação Cirúrgica
Que veio desse site aqui: http://google.nucleusinc.com/generateexhibit.php?ID=27577&A=1090
O tratamento dessa doença, quando os sintomas são moderados a graves, é cirúrgico, aliás uma cirurgia benigna e rápida, pois assim impede-se a piora e mesmo a perda de função da mão. Muitas vezes os sintomas são leves, e basta uma tala fixa de punho para dormir para diminuir a compressão do nervo e alentecer a evolução da doença.

sindrome do tunel do carpo5

Essa figura da tala fixa de punho veio desse site: http://lucianefigueira.wordpress.com/2009/06/18/sindrome-do-tunel-do-carpo/sindrome-do-tunel-do-carpo5/


O uso de anti-inflamatórios pela boca ou locais por injeção também pode ser feito.

Uma coisa interessante: A STC pode ser o primeiro sintoma de diabetes ou de hipotireoidismo. Logo, se você estiver sentindo coisas parecidas com as descritas acima, procure um médico urgente.

Visão dupla (diplopia)

Diplopia ou visão dupla significa exatamente isso: Você acaba vendo duas coisas quando na verdade só há uma coisa ali. Não, você não está vendo coisas ou ficando lelé. Isso pode ser sinal de alguma doença neurológica.

O olho é uma estrutura complexa. É uma esfera presa à órbita por tecidos moles (gordura e vasos/nervos), pelo nervo óptico que sai do olho e vai direto ao cérebro, e que é o responsável por levar as informações do olho para o cérebro (ou seja, é por meio deste nervo que você enxerga) e pelos músculos extra-oculares, músculos que se parecem em estrutura com os outros músculos do corpo, e que movimentam o olho.

Lá vai uma figura do olho (gosto de mostrar figuras, pois acredito que torna o aprendizado mais fácil):

http://www.miracleintheeye.com/images_miracle_eye/eye_muscle_3.jpg

Note o olho na órbita (cavidade óssea abaixo da fronte), e estas estruturas marrom-avermelhadas saindo lá de trás à esquerda e se inserindo no olho são os músculos extra-oculares.

Há os seguintes pares de músculos (há um de cada lado). As funções de cada um serão citadas brevemente:
1. Reto superior - Eleva o olho
2. Reto inferior - Abaixa o olho
3. Reto medial - Leva o olho para perto do nariz
4. Reto lateral - Leva o olho para longe do nariz
5. Oblíquo superior - Abaixa o olho quando ele está próximo ao nariz
6. Oblíquor inferior - Eleva o olho quando ele está próximo ao nariz

Pois bem, lá vai outra imagem destes pequenos músculos:

http://catalog.nucleusinc.com/imagescooked/28509W.jpg

Essa figura é ainda melhor, por que mostra a função dos músculos.
E o que é diplopia? Diplopia é quando um destes músculos não está funcionando direito, ou está funcionando demais. Vamos explicar de outro jeito:

O olho é uma câmera, como uma máquina fotográfica, mas bem melhor que uma máquina. O olho consegue captar várias coisas, mas para que isso ocorra, os dois olhos têm que estar funcionando do mesmo jeito e na mesma direção. A imagem que entra nos olhos cai na retina para ser levada ao cérebro. Retina é a camada do olho que se comunica com o cérebro, e é composta de células nervosas (neurônios) e nervos. Esta é a retina:



Bem, observe que a retina é grande, se extende por grande distância dentro do olho. Então, para a imagem ficar bonita, nítida, ela tem que cair na mesma posição em cada retina, ou seja, o mesmo local da retina de cada lado tem de ver aquela imagem, senão o cérebro vai entender que são duas imagens diferentes, pois uma cai em um lado da retina, e a outra cai em outro lado. Entendeu? Se isso não ocorrer, ou seja, se os olhos ficarem desviados um do outro, ocorre a diplopia.

Muitas crianças nascem com estrabismo, ou seja, são vesgas. Então, por que elas não apresentam diplopia? Por que o cérebro delas aprendeu a ver daquele jeito, foi treinado daquele jeito, e vê o mundo daquele jeito. Mas se um estrabismo se desenvolve na vida adulta, aí é outra história. É como se algo que nunca foi mexido, e sempre foi daquele jeito, de repente sofre uma reviravolta. Claro que tudo será diferente dali em diante.

E quais são as causas de diplopia? São preocupantes?

Bem, podemos citar:
1. Uso de medicações - Remédios para dormir, para alergia, para crises convulsivas, quando usados pela primeira vez ou em doses altas podem causar visão dupla. Mas se você tiver esse sintoma, procure um médico antes de dizer que a culpa é a medicação!
2. Derrames - São a causa mais perigosa de diplopia, e devem ser procurados quando a visão dupla vem com mais alguma coisa, como alterações da fala, fraqueza ou perda de sensibilidade, ou mesmo quando só há a visão dupla mesmo e mais nada.
3. Intoxicações - Algumas substâncias podem causar visão dupla, como arsênico. Infecções como o botulismo podem causar visão dupla. Veneno de cobra coral e cascavel também.
4. Doenças musculares  - A miastenia gravis, da qual falaremos um pouco em tópicos à frente, pode causar visão dupla.
5. Doenças does nervos (neuropatias) - Também podem causar, como a polirradiculoneuropatia aguda (da qual já falamos) ou crônica.
6. Esclerose múltipla - Falaremos desta doença mais tarde também, mas é causa de visão dupla também.
7. Outras doenças mais raras.

Ou seja, teve visão dupla, vá imediatamente a um médico!

Paralisia facial

Quem já teve paralisia facial? É incômodo, não é mesmo? Mas na maior parte dos casos, é benigna.

Muito bem, nosso rosto é composto de várias estruturas, e uma delas é um nervo chamado de nervo facial. Nervos são estruturas que saem do sistema nervoso e como ligações elétricas mantém os músculos, a pele, a sensibilidade, as glândulas funcionando.

Vamos ver uma figura do nervo facial:

http://www.sistemanervoso.com/images/anatomia/ncm_39.jpg

E não se assustem com a figura. Bem, os fios amarelos andando pelo rosto são o nervo facial. São muitos, mas muitos músculos mesmo que este nervo inerva. E ele passa por dentro de um canal muito, mas muito estreito e todo feito de osso antes de desembocar no rosto logo abaixo de sua orelha.

Sabe-se que toda vez que uma estrutura, um órgão, etc..., no corpo é lesado ou traumatizado, ele inflama, e inflamação quer dizer inchaço. Sua pele incha e inflama quando você se fere ou quebra algum osso, não é mesmo? Pois é, o nervo facial, se lesado, também incha. E ele passa, como dissemos, por um canal estreito e duro, rígido. Pois bem, imagine o nervo aumentado por uma lesão ou uma inflamação. Ele não tem para onde correr, por que ele não pode sair do canal onde ele fica. Logo, uma inflamação no nervo facial acaba por lesar o nervo ainda mais.

Observe por onde o nervo facial passa. Ele passa junto com o tímpano no ouvido, lá dentro dele.

http://www.anatomyatlases.org/atlasofanatomy/plate30/images/30-4_static.jpg

Bem, figura complicada esta não, mas vamos explicá-la. Esse osso grosso, cheio de buracos no lado direito da figura é a mastoide, o osso logo atrás de sua orelha. Está sentindo uma protuberância atrás de sua orelha bem rígida? Pois é, é esse osso aí. Esse nervo (O frio grosso em amarelo logo à direita, o mais grosso de todos) é o nervo facial. E ele não está solto assim, só está assim para você ver. Na verdade, ele está todo encoberto por osso. Mas por que diabos eu estou falando tudo isso para você? Agora vamos entender tudo.

A paralisia facial é provavelmente causada por um vírus, talvez (e eu disse, talvez), o mesmo víris que dá aquelas lesões nos lábios, o herpes tipo 1. Quando o vírus acomete o nervo, ele o leva à inflamação. Inflamado, e preso no seu canal, o nervo para de funcionar direito, e ocorre o que você percebe no seu rosto. Paralisia de todo um lado do rosto, que pode ser maior em cima ou embaixo, dificuldade de fechar um dos olhos, de fazer careta com um dos lados do rosto, de assobiar, de assoprar, de mastigar, às vezes com comida ou saliva saindo do canto paralisado da boca. Entendeu o porquê de toda essa ladainha anatômica?

Bem, e se você tiver isso, o que você deve fazer? Em primeiro lugar, a paralisia facial (chamada de paralisia de Bell quando sem causa conhecida, como os casos supostamente causados por vírus) é comum, e pode ocorrer várias vezes em uma mesma pessoa, mudando de lado, mas geralmente ocorre uma só vez. Em segundo lugar, você pode sentir uma dor ou dormência atrás da orelha do mesmo lado afetado antes de perceber a paralisia. Em terceiro lugar, há outras doenças que podem se manifestar como paralisia facial, como derrames, especialmente se você obervar paralisia do lado contrário do corpo (o rosto todo paralisou à direita, a fala está empastada, e o lado esquerdo do corpo está fraco também).

A primeira coisa a fazer é manter a calma, e ir imediatamente a um médico. Não espere passar, pois isso pode atrasar o tratamento. Sabendo-se que o nervo facial está preso em um túnel estreito e rígido (olha a importância de saber anatomia de novo, aí) e que ele está inflamado, quanto mais rápido a inflamar acabar melhor, não é mesmo? Logo, atrasar a ida a um médico só piora a situação. Depois de o examinar, o médico vai tirar suas conclusões. Se for paralisia facial de Bell mesmo (ou seja, se não for alguma outra doença), o tratamento vai envolver anti-inflamatórios que só o médico vai saber prescrever (não adianta ir a farmácias e comprar um, você vai estar gastando dinheiro em vão) e proteção do olçho acometido.

Proteção do olho??? O que o olho tem a ver com isso? Ora, na paralisia facial, você não consegue fechar o olho direito, e ele fica exposto a agressores do ambiente, podendo levar a inflamações, infecções ou mesmo lesões mais sérias do olho. Logo, uma proteção ocular com colírios e proteção física com gaze e micropore/gaze toda vez que você se expuser a ventos, poeira ou ao dormir, tem de ser feita, e é muito, mas muito importante.

Algumas vezes, mesmo fazendo todo o tratamento correto, a paralisia não volta. São casos raros, mas podem ocorrer. O mais comum é a paralisia recuperar totalmente em dias a semanas. Um exame chamado de eletroneuromiografia pode ser feito para verificar o tamanho da lesão do nervo, na dependência do seu médico. Um exame de imagem nos casos em que a paralisia não voltar ou demorar para voltar, como uma ressonância magnética da cabeça, pode também ser feito, mas é seu médico quem vai decidir isso. E fisioterapia deve ser feito nos casos mais graves, que não obtiverem melhora, mas deve-se aguardar algumas semanas para iniciá-la. Tudo isso, o seu médico saberá lhe informar.

Mas doutor, eu observei que junto com a paralisia apareceram lesões como bolhas com crostas na minha orelha do mesmo lado da paralisia, e com dor. O que é isso? Opa, isso pode ser mais grave. Essas lesões podem ser manifestação de uma doença chama de Herpes Zoster (que os antigos chamavam de cobreiro), e que dá lesões em um só lado do corpo, geralmente no tronco ou na barriga, mas que pode ocorrer em um braço ou uma perna. Essa doença é uma reativação da catapora (é isso mesmo, quando você pega catapora, chamada de varicela tecnicamente, o vírus não morre totalmente nem vai embora, mas fica silencioso, dormindo nos seus nervos. Perda da imunidade, doenças crônicas, AIDS, envelhecimento, ou sem causa alguma, o vírus pode voltar como essas lesões que podem acometer a orelha, e neste caso, chamamos de Herpes Oticus), e seu tratamento difere um pouco pois, nestes casos, além de internação ser aconselhada, também deve ser feito o uso de medicações pela veia contra o vírus. Nestes casos, a ida ao médico é ainda mais urgente.

Não quero alarmar ninguém, mas quero fazer o paciente entender seu corpo e o que pode causar-lhe problemas, pois se o paciente souber ajudar o médico fornecendo-lhe as informações corretas e fazendo o tratamento indicado, mais cedo o paciente se recupera, e melhor ele vive.