sexta-feira, agosto 03, 2012

Efeitos da privação do sono

Artigo adaptado da página do Facebook Meddy Bear

A privação ou falta de sono pode levar a várias consequências ao organismo, algumas mais sérias, outras resolvidas apenas por uma boa noite de sono. Mas a privação crônica, como pode ocorrer na apneia obstrutiva do sono (já discutida neste blog), pode levar a consequências mais graves e para a vida toda, como obesidade, diabetes, doenças do coração, dores pelo corpo e problemas endocrinológicos. 

O que quero dizer é que devemos evitar privação de sono crônica. E como?

1. Evitando consumo de álcool e outras drogas, que perturbam o ciclo sono-vigília;
2. Diminuindo ou parando de fumar, pois o fumo pode levar a insônia;
3. Praticando atividade física regular e mantendo uma dieta saudável;
4. Indo dormir cedo e indo acordar cedo (claro que um final de semana, ou um dia ou outro não vão fazer mal);
5. Evitando a obesidade, que pode levar a apneia do sono
6. Tratando as doenças que causam insônia, como hipotireoidismo, apneia do sono, problemas respiratórios, como asma, e outras;
7. Se acaso houver algum distúrbio psíquico, como ansiedade ou depressão, ou transtorno bipolar, que levam a insônia, procurar auxílio psiquiátrico apropriado para que estes problemas sejam resolvidos e a insônia aliviada;
8. Cuidando-se mais e indo ao médico regularmente (lembre-se que o médico é sempre uma visita importante para aquele que tem saúde, com o objetivo de mantê-la).

E lá vai uma figura que pode auxiliar você a entender as consequências da falta de sono, que também está em inglês (é, eu só pego coisa em inglês... mas serve também para forçar seu cérebro e mantê-lo em atividade :))):

https://fbcdn-sphotos-e-a.akamaihd.net/hphotos-ak-ash4/318856_252317788220836_190211853_n.jpg



Uma pequena imagem do cérebro

Uma pequena imagem do cérebro, demonstrando suas áreas em várias cores, e as funções que competem a cada área. Claro que não existe uma função para cada área, como pensavam os anatomistas e cientistas de 200 anos atrás, mas há uma especialização maior de cada área. A figura está em inglês, mas ainda pode ser entendida pelos menos versados na língua de Dickens.

https://fbcdn-sphotos-g-a.akamaihd.net/hphotos-ak-ash4/384598_10152001520430121_1171687489_n.jpg

quinta-feira, agosto 02, 2012

O sistema límbico

Você provavelmente já deve ter ouvido falar do sistema límbico. Muitas publicações leigas já mencionaram este conjunto de núcleos e vias cerebrais. Mas o que é o sistema límbico?

No cérebro, há uma via que compreende várias estruturas, localizadas em sua maior parte na porção mais profunda do cérebro, ao lado dos já descritos núcleos da base (há um tópico para cada núcleo neste blog). 

Esta via, chamada de sistema límbico, compreende:

1. O hipocampo (que tem este nome por sua forma ser semelhante a de um cavalo-marinho, ou hipocampo);
2. A amígdala cerebral (que nada tem a ver com as amígdalas faríngeas, cuja inflamação leva à amigdalite);
3. Os núcleos anteriores do tálamo (falaremos mais sobre o tálamo posteriormente);
4. O septo;
5. O fórnix; e
6. O córtex límbico, uma parte do córtex cerebral. 

Todas estas estruturas serão delineadas de forma superficial aqui, e mais profundamente em tópicos a parte.

Observe abaixo o sistema límbico:

http://www.infoescola.com/wp-content/uploads/2010/10/sistema-limbico.jpg
Observe outra imagem abaixo:

http://amulhereoperineo.files.wordpress.com/2012/01/sistema_limbico1.jpg
O sistema límbico tem como algumas responsabilidades as emoções, motivação, memória e olfato, sendo a via de entrada dos estímulos olfativos (cheiros e odores), o que pontua a relação entre certos odores e aromas e as emoções que sentimos, e que relembramos quando nos expomos àqueles odores que nos marcaram. Quem não lembra de um amor quando sente o perfume que o amado ou a amada costumava usar. Muitas vezes a sensação olfativa nos faz sentir as mesmas sensações passadas, como se elas estivessem ocorrendo agora. Um cheiro pode dar origem a uma taquicardia e sudorese, ou a um medo, anseio, ou a saudades e mesmo felicidade. 

Em sua mais famosa obra "Em Busca do Tempo Perdido", Marcel Proust (veja aqui) relaciona a sua infância ao odor das madeleines, bolinhos, embebidas em chá. 

Mas chega de poesia. Vamos à ciência. 

As estruturas do sistema límbico já foram relacionadas, e serão agora explicadas, uma a uma:

1. O hipocampo:

Esta estrutura é uma parte do lobo temporal, e fica localizada em sua profundidade. Observe abaixo:
http://morphonix.com/software/education/science/brain/game/specimens/images/hippocampus.gif
Observe agora o hipocampo cortado, e compare com a figura logo abaixo:

http://www.benbest.com/science/anatmind/FigVII22.gif
http://radiofreethinker.files.wordpress.com/2011/10/16-0-1.jpg
Nós médicos temos de ter muito senso de humor, e muita criatividade também, de vez em quando. Concordemos que associar esta estrutura cerebral a um cavalo-marinho, ou hipocampo, foi uma bela sacada artística, não é mesmo?

Bem, mas o hipocampo tem muito a ver com a memória, sendo esta a porta de entrada de muitas das memórias que acabam por se solidificar em nossa mente, ou seja, as memória de longo prazo. Fora isso, o hipocampo relaciona-se com emoções, tem um pé nos estímulos olfativos, e é justamente a região cerebral mais envolvida em crises epilépticas ditas parciais, sem perda da consciência. Muitas crises que se originam no hipocampo, mais especificamente em uma estrutura chama de uncus, começam com uma alucinação olfativa, ou seja, o paciente sente um odor desagradável, geralmente de borracha queimada, antes de ter a crise. Chamamos a estas crises de crises uncinadas.

2. A amígdala


Esta é outra amígdala, como já falado. Observe abaixo:

http://2.bp.blogspot.com/-5A4W1rVC_Mw/TVjOf3xMKJI/AAAAAAAAB5A/M-smM_zazsk/s1600/amygdala.jpg
Esta estrutura responsabiliza-se pela motivação, funções sociais e de acasalamento (no caso das pessoas, paixão e amor), e relaciona-se ao sentimento de medo e de recompensa, além do prazer e de outras emoções. Tem relação com o resto do sistema límbico, claro, e com o próprio córtex cerebral, especialmente o córtex límbico, sobre o qual logo falaremos, e o córtex frontal.

3. Os núcleos anteriores do tálamo


O tálamo é o que chamamos de relé, ou seja, todos os estímulos que vêm e que voltam para a periferia do corpo, ou que entram e saem do cérebro, passam por ele. O tálamo é uma estrutura de ligação, de manipulação dos estímulos. Observe abaixo:

https://encrypted-tbn0.google.com/images?q=tbn:ANd9GcQyb09argrh1mq-EbiPlBpJFDbduhN0SBMdETKkRfwlg2IQ5_8F
Observe mais abaixo que o tálamo é segregado em núcleos, cada núcleo podendo ser responsável por um ou mais estímulos. Aqui claro que há diferenciação de neurônios e de vias neuronais. Observe:

http://www.sistemanervoso.com/images/anatomia/cerb_01.jpg
Sim, é complicado mesmo. E ainda não entendemos muito desta pequena estrutura cerebral para saber tudo do que ela é capaz.

4. O septo e o fórnix


O fórnix é uma via de ligação entre o hipocampo e amígdalas com outras estruturas, como os núcleos septais e os corpos mamilares, ou seja, é um trato de conexão, e dos mais importantes.

Observe abaixo:

http://www.auladeanatomia.com/neurologia/fornix.jpg
E mais:

http://www.monografias.com/trabajos52/psicologia-salud/ps30.jpg
Já os núcleos septais são agrupamentos de neurônios que promovem conexões importantes. Localizados juntamente a uma parte do córtex olfatório, relacionam-se com os bulbos olfatórios, o hipocampo, a amígdala, uma outra estrutura da qual falaremos mais tarde chamada de hipotálamo, e que se relaciona, entre outras coisas, com a manutenção da temperatura e homeostase corporal, giro do cíngulo, sobre o qual falaremos mais logo, e o tálamo. Sua função aparenta ser o prazer e a sensação de recompensa, auxiliando na consolidação de memórias.

Observe abaixo:

https://encrypted-tbn1.google.com/images?q=tbn:ANd9GcTALxUCctlK3hy_8R0jOBoaywiNq5exG60Rl-O0TISBpRyebXUjcA
Os núcleos septais estão em amarelo na figura, e se relacionam espacialmente com as outras estruturas discutidas acima.

5. Os corpos mamilares


Estas pequenas estruturas da base do crânio têm este nome (também dado de forma muito criativa) por que se parecem com duas mamas. Observe abaixo, apontados com setas:

http://jswood.files.wordpress.com/2007/11/for-blog-10.jpg
E bota criatividade nisso. Observe abaixo suas relações principais:

http://iupucbio2.iupui.edu/anatomy/images/Chapt15/FG15_12b.jpg
Suas funções são de conexão com a amígdala e o hipocampo, e têm, entre outras funções, responsabilidade com a memória e as funções olfativas. Na síndrome de Wernicke-Korsakoff, descrita também neste blog, a degeneração dos corpos mamilares podem levar a alterações cognitivas (mentais) com problemas severos de memória (incapacidade de registrar e de relacionar novas memórias).

6. O córtex límbico


Várias são as partes do córtex relacionadas ao sistema límbico, perfazendo a conexão entre as estruturas do sistema e conectando o sistema límbico com o restante do cérebro e do córtex, permitindo a associação entre a memória, prazer, medo e recompensa com estímulos visuais, táteis, motores, sensitivos, e outros. Temos o giro parahipocampal, que parece desempenhar função na formação de memória espacial, ou seja, de localização no espaço, o giro do cíngulo, que também têm funções autonômicas, ou seja, regulação da frequência cardíaca, da pressão arterial, além de modulação das funções de atenção e memória, e o giro denteado, que parece contribuir para novas memórias.

Observe abaixo:

Os giros parahipocampal e o giro do cíngulo são demonstrados abaixo:

http://www.inec-usp.org/cursos/curso%20VII/fig_III.jpg
O giro denteado está abaixo:

http://www.sistemanervoso.com/neurofisiologia/14_images/14_clip_image022.jpg
Esta figura complexa acima demonstra o giro denteado com suas conexões dentro do sistema límbico. Não se assuste, e não tente estudar a figura se lhe parecer confusa. É somente para que você saiba o que é o giro denteado.

O sistema límbico portando influencia o sistema endócrino e as funções cardíacas, respiratórias e circulatórias do corpo, relaciona-se com o prazer através de conexões com o núcleo acumbens, centro responsável pelo prazer e que desempenha papel na excitação e na libido, podendo também ser relacionado ao abuso de drogas.

Observe o núcleo acumbens abaixo:

http://t2.gstatic.com/images?q=tbn:ANd9GcQ2FIKiFuKH8Z6WwZ0nSWVQqoHplns172Sja6nEaxD8fD_7SzFepRmqcGyW7A
O sistema límbico ainda conecta-se com o córtex pré-frontal (veja na figura acima), a parte mais anterior do cérebro, podendo esta via ser responsabilizada pelo prazer após resolução de problemas e quebra-cabeças, e por certas doenças mentais.


terça-feira, julho 10, 2012

Pequeno dicionário de termos médicos - Dor miofascial

A dor miofascial, diferente da dor muscular simples, é algo mais complexo, e que pode não refletir a verdadeira localização da dor. Ficou boiando? Vamos explicar mais:

A dor causada por uma lesão muscular por trauma físico ou simplesmente exercícios físicos mais intensos é bem localizada aos músculos dolorosos, dura poucos dias, e logo melhora com o tratamento direcionado para a lesão, ou seja, massagem, hidratação, compressas mornas ou frias, e analgésicos. 

Mas a dor miofascial é diferente, por que é crônica, persiste, e não localiza bem o ponto de dor. A dor miofascial geralmente decorre de uma contração muscular repetitiva, por movimentos ocupacionais (no trabalho) ou em atividades de lazer/hobbies, ou por estresse muscular (referência). A dor miofascial, se não tratada de forma correta, não somente persiste, mas piora com o passar do tempo. 

A base da dor miofascial são os chamados trigger points ou pontos-gatilho musculares, algo que não existe na dor muscular típica, comum. Um autor, chamado Simmons, em 1990 forneceu informações importantes a respeito da dor miofascial:

"A dor miofascial é um complexo de sintomas sensitivos (dor), motores (pode haver fraqueza subjetiva por dor do músculo acometido) e autonômicos (alterações intestinais, náuseas com a dor) causados pela presença de pontos-gatilho miofasciais" (Referência).

No mesmo trabalho, o mesmo autor fala que "os pontos-gatilho são pontos de alta sensibilidade e hiperirritabilidade muscular ou da sua cobertura fibrosa (fáscia), localizados em bandas e potos endurecidos e dolorosos dos músculos, que levam a uma resposta local de fibras musculares quando palpados, e que podem dar lugar a dor e sintomas sensitivos/autonômicos quando bem irritados, além de sintomas distantes do local de contração, os chamados alvos".

Você já passou a mão sobre um músculo que está doendo há muito tempo, geralmente no pescoço, mas podendo ocorrer em qualquer músculo, e sentiu umas bolinhas dolorosas no músculo que ora estavam lá, ora sumiam? Pois é, estes pontos são os pontos-gatilho musculares!

Observe abaixo um músculo cortado coberto por sua fáscia, uma banda fibrosa de tecido conjuntivo:

http://1.bp.blogspot.com/_wBitrLKxc-Q/SFaPgb67duI/AAAAAAAAAYo/q7ILUFmotB8/s400/fascia.jpg
A fáscia é a cobertura fibrosa do músculo, tanto por fora como por dentro. O músculo é formado por fibras e fibrilas musculares, que juntam para formar as grandes formações musculares. 

Observe mais abaixo:

http://blogdodalmo.files.wordpress.com/2011/05/musc_16.jpg
Esta figura acima, semelhante à anterior, mostra o tendão, formação fibrosa não muscular que o músculo usa para se fixar ao osso. 

Observe mais abaixo:

http://www.fisioterapiaesaude.com/wp-content/uploads/2010/06/fascia1.jpg
A fáscia é essa cobertura esbranquiçada sobre e entre os músculos. Observe uma figura de um músculo humano de verdade:

http://www.gla.ac.uk/ibls/US/fab/images/anatomy/thighfas.gif
Essa é a sua coxa, cortada de frente para trás. As malhas brancas entre os músculos (em um tom mais avermelhando) constituem as fáscias.

Bem, e os pontos-gatilho? Eles se espalham, de forma que um músculo com dor miofascial pode produzir dor à distância. Observe abaixo:

http://www.bonesdoctor.com/images/trigger_points5.jpg
A dor miofascial do músculo trapézio, localizada atrás de suas costas, se espalha por toda esta região que você vê acima. Mais:

http://www.triggerpointmgmt.com/points%20drawing.jpg

O músculo esternocleidomastoideo, este músculo com os pontos pretos sobre ele, e que você palpa na lateral de seu pescoço quando vita o pescoço para o outro lado, pode dar dor em todos estes pontos vermelhos na figura. E pode ser que aquela dor de cabeça que não o larga há semanas seja causada por dor miofascial de um músculo como este.

Mais? Lá vai:

http://www.myofascialtherapy.org/images/faqs-leg.gif
Que interessante! Dor miofascial de músculos das nádegas ou da perna podem irradiar para baixo, e simular, pasmem, dor causada por uma hérnia de disco!

http://www.blissclinic.fi/files/tp-pect-major.gif?1289890222=1
Uma dor no peito pode não ser coração, mas sim dor miofascial do músculo peitoral maior!

Ou seja, a dor miofascial simula qualquer tipo de dor, inclusive dor causada por problemas abdominais. Eu mesmo tive uma dor miofascial que parecia uma fratura de costela, nem podia tocar no local. Um bom exame clínico por um bom ortopedista, e os remédios certos resolveram o problema em dias sem necessidade de radiografia.

Mas não me entendam mal, e como eu já disse neste blog várias vezes, não use as informações dadas aqui para fazer diagnósticos. Pode ser que aquela dor que começou há alguns dias seja algo realmente urgente, grave. Logo, como saber se o que eu tenho é dor miofascial?

Simples, vá a um médico. As maiores armas no diagnóstico não são radiografia ou ressonâncias, mas o questionamento correto do paciente acerca dos sintomas e o uso das mãos para palpar os pontos de dor. Simples, não é?

quarta-feira, julho 04, 2012

O que falar ao médico para que ele diagnostique de forma correta sua dor de cabeça?

Neste blog, já discutimos em alguns tópicos (leia aquiaqui e aqui) sobre dicas rápidas e objetivas de como falar seus sintomas ao médico de forma que ele consiga fazer o seu diagnóstico.

É sempre bom lembrar que o paciente, no consultório, está sendo entrevistado, e o entrevistador, o médico, quer saber o máximo de quem se entrevista, o paciente. Sabendo o máximo, e juntando as peças deste quebra-cabeças chamado de história clínica, o médico consegue juntamente com o exame médico fazer o diagnóstico, e pedir os exames corretos para confirmá-lo. 

É claro que a responsabilidade não é somente do paciente, e saber tirar uma história bem feita de um paciente é uma arte que o médico aperfeiçoa com o tempo, ou um dom inato a outros médicos. 

E esta reportagem do site G1 de MS demonstra bem esta temática, como dizer os sintomas ao médico para que o mesmo consiga fazer o seu diagnóstico. E a reportagem, apesar de ser sobre dor de cabeça, pode se estender a todas as doenças, em qualquer área da medicina. Uma história bem feita e bem tirada de um paciente que sabe relatar seus sintomas é a melhor arma no diagnóstico de qualquer doença.  

Parabéns ao site G1 por mais este serviço de saúde pública.

domingo, julho 01, 2012

Por que sentimos algo gelado correr pela cabeça de vez em quando?

Você já deve ter se deparado com a seguinte situação:

Você sente uma dor de cabeça, pode ser a primeira vez ou a enésima vez, com ou sem estresse ou ansiedade, e durante ou ao final da dor, ou durante um pico de estresse, sente algo gelado escorrer pela cabeça, podendo ir até o pescoço. Passa a mão na cabeça, e não há nada lá, só cabelo!! O que pode ser isso?

O nosso cérebro adora pregar peças em nós, e esta pode ser mais uma delas. Muitas pessoas podem vir a sentir coisas estranhas, como dormências ou formigamentos, ou sensação de algo gelado ou quente em algum lugar do corpo, e um médico pode virar esta pessoa do avesso e não encontrar nada de anormal com seus órgãos. Muitas destas sensações são produzidas por estimulação anormal do cérebro, em situações as mais diversas. 

A estas sensações, além das clássicas (sensação de dormência ou como formigas nos picando, ou minúsculas agulhas sendo enfiadas em nossa pele, ou calor sem causa aparente), chamamos de parestesias. As parestesias podem ser sensações produzidas por nosso cérebro, podendo ocorrer em situações de estresse, medo ou ansiedade (quem já não sentiu, durante um situação extremamente estressante ou durante um ataque de ansiedade, formigamentos e sensações estranhas na cabeça, peito ou braços?) ou podem ser consequência de algo orgânico, alguma lesão no cérebro ou nos nervos que vão ou vêm da pele, como derrames, lesões pelo vírus do herpes (herpes zoster) ou lesões dos nervos causadas pelo diabetes. 

No entanto, nestes casos, as parestesias ocorrem em um lado do corpo, no caso dos derrames, sendo persistentes e vindo com fraqueza e/ou perda de sensibilidade do lado afetado; em uma segmento de um lado do corpo, geralmente uma faixa no peito ou na barriga, no herpes zoster, quase sempre vindo acompanhadas de lesões da pele, bolhas com base avermelhada (o famoso cobreiro); ou nos dois pés podendo subir para as pernas no caso do diabetes e outras causas de problemas nos nervos. E mais, há alterações no exame clínico do paciente (exame físico feito pelo médico em consultório) e nos exames complementares, como eletroneuromiografia ou tomografia de crânio.

O que pode estar acontecendo é que, durante uma crise de enxaqueca ou qualquer tipo de dor de cabeça, mesmo as mais leves, ou após uma batida na cabeça, ou durante ou após uma crise de estresse ou ansiedade, ocorre estimulação de várias estruturas cerebrais por várias substâncias liberadas de forma exaustiva dentro das terminações nervosas. Substâncias como a noradrenalina, a serotonina, e a histamina acabam populando as sinapses nestas situações. Estas substâncias acabam por desencadear sensações anormais em uma região da cabeça onde fica o gânglio trigeminal (o gânglio do nervo trigêmeo, que leva a sensibilidade à face e ao couro cabeludo). A estimulação deste nervo pode levar a dor, ou sensações anormais como formigamentos, calor ou frio local. 

Fora isso, alterações nos vasos da pele da parte de trás da cabeça, com os vasos dilatando e contraindo, podem levar a sensações anormais durante uma crise de enxaqueca ou uma crise de ansiedade. 

Além disso, o nervo trigêmeo comunica-se com os nervos que vão para o pescoço dentro do tronco cerebral (o que explica por que a enxaqueca pode causar dor na nuca), e esta comunicação acaba por desencadear também estimulação sensitiva da pele do pescoço, sentida como dormência, formigamento, ou frio local, mesmo sem nada frio por lá.

Observe abaixo:

http://4.bp.blogspot.com/_cXxLx3C7W7g/TUViAI3cOTI/AAAAAAAAAxc/tJAhOjvFfpQ/s1600/trigeminal_nerve.jpg
Esta figura demonstra o nervo trigêmeo saindo do tronco cerebral. No meio da figura, você vê uma estrutura amarelada em forma de bola, o gânglio trigeminal. O trigêmeo é o responsável pela inervação da face (leia mais aqui). 

Dentro do tronco cerebral, o nervo comunica-se com estruturas que vão inervar o pescoço, daí a relação íntima entre dor de cabeça e dor nucal. 

Fora isso, as mesmas situações que desencadeiam sintomas estranhos na cabeça podem causar sintomas estranhos em outros locais do corpo, por que o sistema nervoso é intricado e prolonga-se pelo corpo todo através dos nervos, mas também pela alteração dos vasos da pele, que podem dilatar ou contrair em resposta ao estresse, e por conta de várias substâncias liberadas na circulação, como os hormônios, os principais sendo o hormônio glicocorticoide e o ACTH, e que podem levar a sensações estranhas e desagradáveis pela sua ação sobre a pele, os nervos e os vasos da pele. 

O medo da maior parte dos pacientes é de estar tendo um derrame, ou pior, um aneurisma. Calma, essa não é a regra aqui. Na maior parte das vezes a sensação é benigna e logo passa.

Mas se você nunca sentiu isso, se esta sensação lhe parece estranha e nova, se a sensação vem acompanhada de fraqueza em alguma parte do corpo, perda de visão, alteração da fala ou do andar (marcha), se a sensação vem junto com a pior dor de cabeça de sua vida, vá imediatamente a um médico. 

sexta-feira, junho 29, 2012

Perguntas que os pacientes fazem - "Ando acordando à noite com dormência nas mãos. O que pode ser isso?"

Essa queixa lhe parece familiar? Se sim, leia até o final.

Alguns pacientes chegam ao consultório neurológico queixando-se de formigamento nas mãos durante a noite, sendo obrigados a balançar as mãos para que o mesmo suma. E isso muitas vezes incomoda tanto o paciente como seu cônjuge. Mas, o que é isso, e o que fazer se isso aparecer?

Primeiro, talvez a causa mais comum deste sintoma seja uma doença chamada de síndrome do túnel do carpo. Já discutida neste blog, a síndrome do túnel do carpo ocorre pela compressão e/ou inflamação do nervo mediano à altura do punho, em um canal chamado de túnel do carpo, ou túnel carpal. Observe abaixo:

http://www.clinicadamao.com/tuneld3.gif
Na figura acima, você observa o punho aberto, com o nervo mediano (a estrutura amarela no meio da figura). Este nervo pode sofrer compressão por tecidos inflamatórios que podem aparecer em decorrência de doenças como o hipotireoidismo ou outras doenças de glândulas (endocrinológicas), em pessoas que trabalham com as mãos (como datilógrafos, empregadas domésticas, escrivães e outros), ou em portadores de doenças dos nervos periféricos, como no caso do diabetes.

Mas a síndrome do túnel do carpo não é a única causa de dormência nas mãos.

Alguns pacientes podem ter a compressão do nervo mediano em localização mais alta, como na altura do cotovelo. Acontece que o nervo passa entre as duas partes de um músculo muito fácil de palpar em si próprio, o pronador redondo. Estenda seu braço com a palma da mão para cima, e fique com seus dedos em garra sobre a parte interna da união entre o braço e o antebraço. Agora, dobre seu cotovelo a 90 graus , com os dedos sobre o local, e vire a palma da mão para baixo. Você vai sentir um cordão grosso contraindo e relaxando. Este é o músculo pronador redondo. Pronação significa justamente virar uma extremidade para dentro, e supinação o oposto.

Observe abaixo:

http://upload.wikimedia.org/wikipedia/commons/8/87/Pronator-teres.png
Esse é o seu antebraço, visto de frente (com a palma da mão voltada para quem vê a figura), e sem a pele (claro!). O músculo em azul é o pronador redondo. E o nervo mediano passa dentro dele.

Observe mais abaixo:

http://upload.wikimedia.org/wikipedia/commons/8/87/Pronator-teres.png

Olha o mediano (novamente o fio amarelo na figura da direita) passando por dentro do músculo. Em pessoas muto musculosas, em certos problemas ortopédicos, em situações onde há compressão do nervo, ou em outras doenças, o nervo pode ser comprimido ao nível do músculo, e daí ocorrer a dormência na mão (nesse caso, diferente da síndrome do túnel do carpo que pode ser bilateral, os sintomas costumam ser de um lado só; mas isso não é regra absoluta).


E alguns pacientes podem ter problemas de coluna, com hérnias de disco e protrusões discais (quase ou futuras hérnias), além de desvios da coluna e outros problemas, que podem comprimir as raízes lá em cima, e causar confusão com túnel do carpo. Muitos destes pacientes podem ter dormência não só quando deitam, mas também ao fazer certos trabalhos com os braços, levantar os braços, etc...


A compressão das raízes que saem acima da quinta e da sexta vértebras cervicais (e temos 8 vértebras cervicais com 8 raízes cervicais numeradas de C1 a C8) podem levar a sintomas semelhantes aos do túnel do carpo,mas podemos aqui também ter fraqueza seletiva de músculos servidos por estas raízes e alterações de reflexos. 


http://upload.wikimedia.org/wikipedia/commons/8/87/Pronator-teres.png
Esta é sua coluna cervical (diga muito prazer, coluna cervical), com uma inflamação na altura da quinta raiz cervical e sintomas que correm até o polegar (território de inervação da quinta raiz, ou raiz de C5).

Outras doenças podem dar dormência nos braços de forma crônica, ou seja, ocorrendo há mais de 4 semanas, mas são mais raras.

As doenças que causam dormência aguda nos braços, ou seja, que se desenvolvem rapidamente em horas ou dias, ou começaram há menos de 4 semanas, são um caso a parte, e poderão ter um post a parte também.

Com relação ao diagnóstico de cada uma das doenças acima, somente seu médico saberá os testes necessários a serem realizados para confirmar (ou não) cada uma das doenças. Siga todas as orientações médicas de forma correta. E o tratamento é ditado pela doença, por cada caso, e pelo médico que acompanha o paciente.



quarta-feira, junho 20, 2012

Pequeno dicionário de termos médicos - Síndromes paraneoplásicas

Síndrome é todo conjunto de sinais e sintomas, e que podem ser causados por várias doenças. 

E o que é paraneoplásico? Este termo confuso mas não tanto vem do grego

De acordo com o The Free  Dictionary (link), a palavra vem do grego: para, próximo ou oposto a, neo de novo, ou seja, nova criação ou evolução, e plassein (plasia), moldar ou criar tecido. 

Resumindo, neoplasia é o nome que se dá aos tumores em geral, sejam eles benignos ou malignos. Neo significa novo e plasia, massa, ou seja, uma massa nova no corpo, crescendo. Quando a neoplasia é maligna, ou seja, apresenta crescimento desordenado, rápido e destrutivo, interferindo com as funções normais do órgão onde se encontra, ou mesmo do corpo inteiro, chamamos-na de câncer.

O termo para-, como falado acima, significa proximidade ou oposição a, ou seja algo próximo ou oposto ao tumor. Mas vamos explicar o que é isso na prática.

Imagine um órgão, por exemplo, um fígado, com um tumor maligno, um câncer. 

1. O câncer pode produzir dano a outros locais ou tecidos mesmo estando estes a distância. Como? Pode ser através de sua extensão para estes outros órgãos, como por exemplo, a extensão do tumor para as vias biliares, para a vesícula ou para o pâncreas. Daí, chamamos isso de invasão tumoral.

2. O tumor pode produzir metástases, ou seja, massas semelhantes a ele em locais distantes, que se propagam através das veias ou através do que chamamos de vias linfáticas, dutos separados dos vasos, mas que se comunicam com eles, e que carregam um líquido que banha as células chamado de linfa.

Observe abaixo:

http://www.afh.bio.br/imune/img/linfatico.gif
O sistema linfático, representado acima, é composto dos dutos, dos gânglios linfáticos (as ínguas que crescem em crianças ou adultos com infecções, sabem?), o timo e o baço. Sua função é drenagem da linfa e proteção imune, já que o líquido tem comunicação com órgãos, como o baço, o timo e os próprios gânglios linfáticos, que armazenam e amadurecem as células de defesa, os linfócitos T e B, e os anticorpos. A função destes órgãos, é logo, a filtragem da linfa e eliminação de corpos estranhos e germes (Fonte).

3. E o tumor pode causar danos a órgãos a distância, e mesmo ao corpo todo, levando a lesões em vários locais, inclusive o sistema nervoso central, sem nem mesmo tocar nele ou invadi-lo. E este meio de lesão é realizado através das síndromes paraneoplásicas.

As síndromes paraneoplásicas (SPN) são um conjunto de doenças que têm relação íntima com tumores, malignos ou mesmo benignos, mas produtores de substâncias que causam doenças sistêmicas ou neurológicas. Falamos no tópico anterior de doenças autoimunes. Falamos das reações cruzadas. Pois bem, aqui nas SPN, o que ocorre no caso das síndromes neurológicas é um ataque imunológico, por que alguns órgãos ou estruturas do sistema nervoso, ou algumas células, como do cerebelo ou dos nervos, possuem proteínas que se assemelham a proteínas do tumor. O sistema imunológico participa ativamente do ataque ao tumor, pois este cresce de forma demasiada e sem controle, podendo haver a produção de tecido anormal e não reconhecido pelo nosso sistema imunológico.

A presença de uma SPN indica que o sistema imunológico está ativo contra o tumor, mas nem sempre é uma presença benigna, pois por vezes a síndrome é grave, podendo causar mais incapacidade do que o tumor em si.

Os anticorpos produzidos nas SPN podem atacar uma proteína da superfície celular ou do núcleo. E há vários anticorpos, alguns específicos para cada doença, como o anti-Hu ou anti-ANNA1, que ocorre em formas de doença cerebelar paraneoplásica ou uma forma de inflamação do tecido cerebral chamada de encefalite límbica, o anti-Hi, o anti-Yo na degeneração cerebelar paraneoplásica, o anti-anfifisina, na síndrome do homem rígido (uma forma de contração muscular exagerada com dor e rigidez difusa, rara), e outros anticorpos.

Há também várias síndromes paraneoplásicas, algumas mais benignas, outras mais graves, e muitas, quando corretamente diagnosticadas, sugerem a presença de um tumor. Isso por que nem sempre o tumor é o que aparece primeiro. Apesar de muitos pacientes apresentarem as SPN já no contexto do tratamento de um tumor, muitas vezes a síndrome vem primeiro, mesmo anos antes do tumor (até 5 anos de acordo com a literatura especializada) e o tumor pode aparecer logo, quando pesquisado, ou pode-se pesquisar o paciente todo sem se achar nada, o tumor só aparecendo muito tempo após (como falado acima, geralmente no máximo 5 anos após o início da SPN).

Também, deve-se ter em mente, também, que há várias causas para uma determinada síndrome, e um câncer é somente uma de várias causas. Pesquisa-se avidamente pela presença de um tumor em um paciente que apresenta uma doença que sugere muito ser paraneoplásica, mas pode-se não achar nada, agora e nem nunca, e a causa ser outra completamente diferente, como uma doença autoimune qualquer ou uma doença infecciosa.

Quanto às síndromes, há doenças dos nervos (polineuropatias), atrofia cerebelar, encefalites, doenças semelhantes a derrames, doenças musculares causadas por anticorpos contra alguns tipos de cânceres, etc...

Há uma forma de SPN muito comum chamada de miastenia gravis, discutida com detalhes neste blog, causada pela produção de anticorpos no timo contra a junção entre o nervo e mo músculo (junção neuromuscular).

O diagnóstico é feito com exames direcionados para as prováveis causas. Primeiro, deve-se diagnosticar a síndrome, ou seja, qual síndrome neurológica é, o que pode fazer muita diferença na pesquisa da causa do problema, e isso se faz com o exame clínico e neurológico. No auxílio ao diagnóstico, tanto da síndrome como da causa, podem-se colher vários exames de sangue, tomografia e ressonância da cabeça ou coluna, pesquisa de anticorpos específicos (disponível somente em certos centros), eletroneuromiografia, eletroencefalografia.

No diagnóstico do tumor, devem-se realizar exames direcionados para a provável localização e tipo do tumor, desde radiografia de tórax e tomografias a ultrassonografias e exame de sangue.

Quanto ao tratamento, isso deve ser discutido com o seu médico.




terça-feira, junho 19, 2012

O que são doenças autoimunes e o que elas têm a ver com o sistema nervoso?

Doenças autoimunes são um conjunto de afecções que se caracterizam por uma resposta exacerbada, anormal do sistema imunológico em qualquer lugar do corpo. 

Basicamente, nosso corpo é mantido, entre outras cositas mais, por um sistema de células de defesa e ataque contra intrusos. E isso é muito interessante de saber. Você já ouviu falar de linfócitos? E de anticorpos? Pois bem, estas são apenas algumas das linhas de defesa que o corpo possui contra organismos e germes desconhecidos. 

Não vou falar muito disso por que não é bem minha praia, e seria bom um alergista ou reumatologista falar mais disso (reumatologista é o médico que cuida das doenças reumáticas, autoimunes). Mas é bom saber que as alergias, por exemplo, são exacerbações da resposta normal a certos intrusos. São, na verdade, um tipo de inflamação.

Uma pessoa que tem alergia a pelo de gato, por exemplo, apresenta uma resposta exacerbada, intensa, aumentada, quando entra em contato com pelo de gato, havendo recrutamento de células as mais variadas, anticorpos, imunoglobulinas (entre elas, a IgE - imunoglobulinas são proteínas de defesa - temos a IgA, a IgM, a IgG, a IgD e a IgE), imunocomplexos (complexos de ataque a invasores), entre outras coisas.

Isso tudo leva a uma reação chamada de reação alérgica, e se for intensa o suficiente pode levar inclusive à morte. Ora, o nosso próprio sistema de defesa pode nos matar. Isso ocorre por que os órgãos onde este sistema de defesa acaba agindo pode inchar, como a laringe, a via respiratória que dá na traqueia e nos pulmões, dando o famoso edema de glote, ou pode haver inflamação na pele, podendo haver inchaço, vermelhidão, e mesmo descamação da pele como nas queimaduras (um quadro grave chamado de síndrome de Stevens-Johnson).

Mas não se desespere, essas coisas são raras. 

E é sempre bom lembrar que nosso sistema imunológico tem memória, ou seja, há a produção de linfócitos e proteínas que reagem a determinados germes, a certas substâncias. E é essa memória que nos permite pegar catapora ou sarampo somente uma vez, por que nosso sistema imune reconhece e "prende e mata" os vírus da segunda vez, ou não pegar a mesma gripe duas vezes.

E quais os motivos pelos quais as doenças autoimunes se desenvolvem? Em geral, durante o ataque imunológico a alguma coisa, como uma bactéria, um vírus, ou algum organismo, pode ocorrer o que chamamos de reação cruzada, ou seja, algum órgão possui em suas células uma proteína que se parece com uma proteína na superfície da célula que está sendo atacada. Por exemplo, no caso de uma síndrome bem conhecida e já falada neste blog, a síndrome de Guillain-Barré, o ataque a uma bactéria chamada de Campylobacter jejuni, causadora de infecções do trato digestivo, pode fazer com que os nervos sejam atacados, isso por que em alguns casos, e dependendo também de variação genética, a bactéria pode ter em sua superfície uma proteína que se parece, ou que também existem na superfície dos nervos, e desencadear a reação cruzada. Mas este é somente um exemplo, e há vários outros. 

Agora, o que o sistema nervoso tem a ver com tudo isso?

Pois bem. Várias doenças autoimunes causam sintomas neurológicos. Observe bem, o sistema nervoso está distribuído pelo corpo todo. O cérebro está na cabeça, os olhos (pelo menos a retina e os nervos ópticos) fazem parte do sistema nervoso (você sabia disso?), a medula espinhal desce pela sua coluna. Já os nervos estão espalhados pelo corpo todo. Logo, o sistema nervoso é alvo fácil de várias doenças.

E mais, o sistema nervoso tem sua própria patrulha de defesa, a micróglia. E há também o que chamamos de barreira hematoencefálica ou BHE, um conjunto de pequenas defesas nos vasos cerebrais, como células  dos vasos bem compactadas umas nas outras, proteção de células da glia (astrócitos) e outros componentes que impedem que qualquer coisa entre no cérebro através do sangue. Mas os nervos não têm isso.

E ainda mais, quando há uma inflamação no cérebro, a BHE se rompe, e aí que as coisas complicam, pois células do sangue como linfócitos e neutrófilos, além de células limpadoras e que comem lixo, os macrófagos, acabam por entrar no cérebro ou na medula,s fora, é claro, os anticorpos. E é aí que começa tudo.

Tudo se baseia em inflamação, o conjunto de reações celulares e liberação de substâncias (reação humoral) que desencadeia uma série de respostas fisiológicas (normais), mas que levam a respostas patológicas (anormais), com inchaço (edema), lesão celular com morte celular (necrose), disfunção celular e sintomas os mais variados.

Isso ocorre no sistema nervoso em qualquer doença que cause lesão do tecido normal. Derrames levam a inflamações, esclerose múltipla leva a inflamações. E doenças autoimunes levam a inflamações também.

E quais as doenças autoimunes que podem atacar o sistema nervoso? Praticamente todas.

Lúpus eritematoso sistêmico é uma delas, e há vários sintomas neurológicos que podem ocorrer, como derrames, vasculites (inflamação dos vasos de uma determinada região do corpo com lesão celular e obstrução do vaso com isquemia ou lesão por falta de sangue, e neste caso, vasculite cerebral), inflamações dos nervos, e mesmo quadros psiquiátricos.

Idosos com idade maior que 60 anos, em geral, podem ter uma doença chamada de arterite temporal, uma forma de vasculite de artérias da cabeça que pode levar a dor de cabeça, dor para mastigar, dor à palpação ou mesmo toque da têmpora, e perda da visão. Idosos que nunca tiveram dor de cabeça devem ser pesquisados com exame de sangue à procura desta doença, por que ela é tratável, e o tratamento impede o paciente de ficar cego.

Outras doenças como a (lá vêm nomes doidos) poliarterite nodosa ou PAN leva a doença de pequenos vasos podendo dar o que chamamos de neuropatia, ou seja, doença dos nervos que vão para as pernas e pés, com dormência, formigamentos, dor, e mesmo perda de sensibilidade e força nos pés e mãos. É mais comum em pessoas idosas, e mais em homens. A granulomatose de Wegener, a púrpura de Henoch-Schölein, a doença de Churg-Strauss, são todas vasculites que podem acometer o sistema nervoso.

A síndrome de Sjögren é uma forma de vasculite que cursa com olhos e boca secos, podendo dar sintomas semelhantes a AVC (derrame) e problemas de nervos, além de doença a medula espinhal (mielite).

A esclerodermia pode levar a lesões vasculares cerebrais e doenças dos nervos.

E há doenças autoimunes que não são vasculites, como a própria esclerose múltipla, que é classificada nesta categoria também. A síndrome de Guillain-Barré e outras formas de doenças crônicas dos nervos também são autoimunes.

Ou seja, doenças autoimunes podem ser puramente neurológicas, como as descritas no parágrafo anterior, ou mais sistêmicas, mais generalizadas, como as descritas desde o começo deste artigo.

O diagnóstico é clínico, feito pelos sintomas e história do paciente, mas exames de sangue e exames de imagem como ressonância magnética e exame do líquido da espinha ajudam no diagnóstico.

Quanto ao tratamento, sua discussão é demorada e não cabe neste blog. Por serem várias doenças, e muitas terem um tratamento diferente, é melhor que o paciente e/ou familiares discutam com seus médicos a melhor forma de tratamento.





segunda-feira, junho 18, 2012

Pequeno dicionário de termos médicos - Cãibra do escrivão

Cãibra do escrivão é uma doença que acomete pessoas na idade adulta, em geral, e se manifesta como contrações musculares involuntárias, anormais, dos músculos do braço, ombro e pescoço durante a escrita. Suas características clínicas e de eletroneuromiografia a definem como uma distonia, ou seja, uma afecção onde há contração anormal de agonistas e antagonistas musculares, muitas vezes com espalhamento das contrações para músculos que normalmente não estariam envolvidos com a atividade realizada, e que melhora com o sono.

A cãibra do escrivão é uma distonia focal, ou seja, de um membro ou de um segmento do corpo, e é definida como distonia tarefa-específica, ou seja, ocorre somente ou quase sempre durante uma atividade específica, aqui a escrita. Mas há casos, chamados de distonia complexa, onde os movimentos acabam por ocorrer com outras atividades além da escrita.

Esta condição afeta mais comumente adultos de ambos os sexos, mas pode ocorrer em crianças, e nestes casos pode ser manifestação de uma doença mais abrangente, genética. Em adultos, na maior parte das vezes, não encontramos causa para a doença, e assim, ela é chamada de idiopática.

Os movimentos anormais variam de pessoa para pessoa, desde um aperto mais forte da caneta ou uma modificação da letra, por vezes tornando-a ilegível, a movimentos anormais do braço, ombro e pescoço, podendo haver dor, esta às vezes causando mais incapacidade que os movimentos anormais.

O diagnóstico é clínico, mas especialmente em pessoas jovens devem-se afastar doenças genéticas que possam causar os sintomas, principalmente a doença de Wilson (acúmulo de cobre, descrita em outro tópico deste blog), mas doenças metabólicas outras, e outras afecções mais radas devem ser pesquisadas, com exames de sangue e urina e ressonância magnética do crânio. Outros exames ficam a critério do neurologista que assiste o paciente. Uma eletroneuromiografia diagnostica as contrações e caracteriza os movimentos como distônicos.

O tratamento baseia-se no uso de toxina botulínica (Botox ou Dysport) nos músculos afetados. Outras medicações podem ser usadas, a critério do médico assistente. 


sexta-feira, junho 15, 2012

Botox e enxaqueca

Há uma matéria sobre toxina botulínica em enxaqueca neste blog (leia aqui). Mas nesta extensão deste tópico, quero falar da experiência minha e de alguns colegas com toxina botulínica (BxT) e enxaqueca severa.

Em geral, indica-se BxT para os casos de enxaqueca refratários, ou seja, não responsivos às medicações e tratamentos convencionais, ou que ocorre mais de 15 vezes por mês (enxaqueca crônica).

Antes visto por alguns colegas com desconfiança e desdém, o uso de BxT nestes casos mais graves de enxaqueca tem levado a boas surpresas. Pacientes antes com quadros graves e incapacitantes de dor de cabeça, com o uso de BxT tiveram diminuição significativa de suas dores, mesmo na primeira aplicação.

A aplicação deve ser feita a cada 3 meses, e doses em intervalos de tempo menores que 3 meses podem levar ao aparecimento de anticorpos contra a BxT e perda do seu efeito, por vezes definitivamente.

É claro que nem todos os pacientes vão responder à BxT, mas isso somente aplicações sucessivas podem dizer. 

O tratamento é caro, mas o plano de saúde pode cobrir, já que não é estético e nem experimental.

A toxina usada e autorizada pelos estudos é a tipo A de 100 e 200 unidades da Allergan (Botox):

https://encrypted-tbn2.google.com/images?q=tbn:ANd9GcSg4HruniVobjXHVsih9UdGrUbQPGfHZHc_kyFb7Vi8nwIwVseB
A aplicação é feita em 31 pontos de 5 unidades cada dispersos pelo couro cabeludo, com seringa e agulha, claro. 

http://www.kencomerdds.com/images/botox.jpg
Os pontos vão abaixo:

http://f.i.uol.com.br/folha/equilibrio/images/11165781.gif

Procure médicos treinados na aplicação de BxT para seu tratamento. O uso de Botox pode ser uma arma a mais no tratamento de sua dor de cabeça, a depender da indicação do seu médico. 

Cirurgia para distonia?

Talvez essa pergunta devesse virar uma afirmação - sim, distonia tem tratamento cirúrgico. Mas eu falei tratamento!

Distonia é uma síndrome de contrações musculares involuntárias com posturas anormais. Na verdade, várias doenças dão contrações musculares com posturas anormais, mas a distonia tem uma característica básica, a co-contração de agonistas e antagonistas. Quê???

Em resumo, agonistas são os músculos que realizam os movimentos. Assim o agonista da flexão do braço é o bíceps. E o agonista da extensão da coxa é o quadríceps. E os antagonistas são os músculos que vão contra aquele movimento. O antagonista da flexão do braço é o tríceps, e o da extensão da coxa são os ísquio-tibiais (os músculos da parte de trás da coxa). Nos movimentos normais, quando um agonista contrai, o antagonista tem de relaxar, e vice-versa, senão não rola!!

Mas na distonia o que ocorre é que os agonistas e antagonistas de um mesmo movimento contraem ao mesmo tempo!! Sim, e o membro não move como deve. Fora isso, as contrações são erradas, se espalham por músculos que não deveriam (quem tem cãibra do escrivão, uma forma de distonia do braço, por exemplo, sabe bem do que eu estou falando; quando o paciente tenta escrever, o braço mexe, o ombro mexe, ou mesmo o pescoço mexe só).

E há vários tipos de distonia. Falei que a distonia é uma síndrome, ou seja, há vários tipos e várias causas diferentes. Por isso é uma síndrome. 

O tratamento é variado, e deve sempre ser indicado pelo médico que assiste o paciente, pois somente ele conhece a gravidade da doença, os benefícios que cada tratamento pode levar, e os efeitos adversos que cada paciente poderia ter com cada tratamento ou procedimento. 

O tratamento baseia-se no uso de medicações como o diazepam, o baclofen, o biperideno, ou em uso de medicações por outras vias, como o baclofen por bomba de infusão no líquido da espinha (baclofen intratecal). A toxina botulínica (BxT) como o Botox e o Dysport são ótimos tratamentos para vários quadros de distonia, e em casos mais localizados, ditos focais, como a distonia cervical e a distonia dos olhos (blefaroespasmo) pode inclusive melhorar mais de 80% dos sintomas por até 3 meses. 

Mas alguns pacientes não toleram as medicações, não respondem de forma apropriada à BxT, têm ativação muscular de músculos tão profundos que não conseguimos abordá-los com agulha para a aplicação de BxT, ou têm distonia grave ou multifocal (vários locais do corpo) ou mesmo generalizada. Nestes pacientes, pode-se indicar a cirurgia.

Pode-se operar os nervos que inervam o músculo ativado, como na distonia cervical, onde pode-se fazer lesão seletiva (claro, não vai se fazer lesão de todos os nervos, mas de uma parte deles) de alguns nervos. Ou pode-se lesar uma parte dos músculos ativados, como no blefaroespasmo. Estes tratamentos duram pouco e podem falhar. ou não levar a melhora significativa, como qualquer tratamento. Não que não devam ser feitos. Se um cirurgião tem experiência em alguma técnica destas, e acha que um paciente X tem indicação de fazê-la, e indica a cirurgia, acho correto fazer.

Mas recentemente temos visto vários pacientes beneficiando-se de técnicas de cirurgia intracerebral. Estes procedimentos estão sendo feitos há muito tempo, estão sendo refinados, novas técnicas vão aparecendo, e  mais modernos aparelhos vão sendo construídos. A cirurgia intracerebral para distonia não é experimental, mas já bem difundida e praticada em vários centros do mundo e do Brasil.

Estes procedimentos não devem ser feitos em todos os pacientes com distonia, pois há alguns pacientes que se beneficiariam de tratamentos menos invasivos, como a BxT. Fora que estamos falando de cirurgias, com taxas de complicações e efeitos adversos. Fora ainda que a indicação de cada procedimento, como já falado antes, deve sempre ser do médico que assiste o paciente, e os parágrafos abaixo são somente explicativos, ilustrativos, não devendo nunca servir como indicação ou motivo para indicação de cirurgia. 

Há basicamente dois tipos de cirurgia, como já falados aqui

Há as técnicas ablativas e as de estimulação cerebral profunda. Diferente da doença de Parkinson, na distonia basicamente escolhe-se o globo pálido (leia aqui para saber o que é o globo pálido) como alvo dos procedimentos.

Na cirurgia ablativa, a palidotomia, faz-se uma pequena lesão em um dos globos pálidos (há um de cada lado), geralmente do lado contrário ao lado mais afetado (leia aqui para saber o porquê disso). 

Observe abaixo:

https://encrypted-tbn0.google.com/images?q=tbn:ANd9GcSRkvv93GU0IqF_NghJm2nvEN9mcz0g821pBE1HCiwCdJEBj7zfLw
http://www.parkinsonsdiseasesurgery.net/Common/Uploads/ContentTemplate/53_ParaS_Surgery_Pallidotomy1.jpg
A figura de cima mostra o anel de estereotaxia, o aparelho que é fixado ao crânio do paciente anestesiado para calcular as coordenadas dos núcleos nos planos X, Y e Z, e assim melhor localizar os núcleos-alvo no espaço. O paciente acaba fazendo tomografia, ou melhor ressonância magnética com este aparelho, para a melhor localização dos núcleos.

O plano tridimensional:

https://encrypted-tbn2.google.com/images?q=tbn:ANd9GcTuO-MtddPidLcsdXeXwF_3hp6P4jC0mxefVIxR5EPNhtC5NUquwg


Já a figura de baixomostra um eletrodo de termocoagulação (lesão feita com altas temperaturas) no globo pálido. A lesão deve ser feita no cérebro, com técnicas bem definidas, localizando-se o núcleo alvo em uma ressonância do cérebro do paciente através de cálculos matemáticos precisos em um plano tridimensional (Ufa!!). E geralmente a cirurgia deve ser feita por cirurgiões e equipes muito bem treinadas neste procedimento, com ótimas taxas de sucesso.

Já a estimulação cerebral profunda, ou o marcapasso cerebral, é a colocação de um eletrodo, geralmente bilateralmente, ligado a um marcapasso localizado no peito, que emitiria descargas elétricas com o intuito de modular as descargas dos núcleos envolvidos na distonia. E há vários relatos, registros e pacientes vistos pelo autor, com melhora após o procedimento. Mas não indicamos este tratamento para todos os pacientes, como já falado antes, e a indicação correta necessita passar pelas mãos de um neurologista especialista em desordens de movimento ou de um neurocirurgião especialista em cirurgia para desordens de movimento.

Observe abaixo:

https://encrypted-tbn2.google.com/images?q=tbn:ANd9GcTl30CBagL8gpbb3j1hpTsF_2i5E5QBfiIMHARqfIANQvSdDi8E
Este é um esquema do marcapasso com o eletrodo intracerebral.

Aqui vai outra imagem parecida:

https://encrypted-tbn1.google.com/images?q=tbn:ANd9GcTKSluRZnH_JE3sC1tpQZ0COVeCkds2LjhRkfwklBOltRz_m65q

Há vários tipos de marcapasso. Este aí embaixo é um deles.
https://encrypted-tbn1.google.com/images?q=tbn:ANd9GcQwOwthI6N_Tps9fgDCbIcvcwz1vop1FaTqVLMEU92IW-37Talk
O marcapasso deve ser controlado através de imã colocado sobre a pele limpa. Através deste imã, um aparelho mede os parâmetros elétricos, e o médico assim consegue ajustar o marcapasso às necessidades do paciente.

Um destes aparelhos é mostrado abaixo:

https://encrypted-tbn1.google.com/images?q=tbn:ANd9GcQq_Mo-iMbCL3I6Wt6pmFfjN-JWDvHCoJzZEi9lPQy253rMLs7O
Através dele, conseguimos ver a voltagem do marcapasso, a largura de banda elétrica e a frequência em Hertz (Hz) de estimulação.

O marcapasso deve ter sua bateria trocada a intervalos variados, geralmente a cada 3 a 5 anos, mas isso varia de marcapasso para marcapasso, de paciente para paciente, e de acordo com os parâmetros de estimulação. Seu médico saberá ver isso.

Bem, tentei dar um apanhado geral da cirurgia para distonia. Mais informações, procure um neurologista ou neurocirurgião, ou fale com seu médico. 

terça-feira, junho 12, 2012

AVC cardioembólico

Em primeiro lugar, temos de definir embolia. Embolia é quando um coágulo (tecnicamente chamado de trombo, e que quando se desloca pela árvore vascular, ou vasos, chama-se de êmbolo) sai de um vaso em um local (por exemplo, as veias da perna), e vai para outro próximo ou distante (por exemplo, o pulmão no tromboembolismo pulmonar). Há vários exemplos de embolia que poderia citar aqui, que podem ser tanto arteriais (que se movem pelas artérias, como as embolias de vasos carotídeos) como venosos (como o exemplo acima) mas teria de passar horas fazendo isso. E o exemplo citado acima é o mais emblemático.

Mas vamos falar aqui de um outro tipo de embolia. A que se origina do coração e que vai para os vasos da cabeça, fazendo o AVC cardioembólico, ou seja, que vem o coração.

Seria interessante antes de tudo que você lesse o assunto sobre fibrilação atrial primeiro, por que a maior parte dos AVC's cardioembólicos originam-se de corações com essa arritmia (leia aqui e aqui).

No caso de um AVC cardioembólico, o trombo ou coágulo forma-se dentro do coração, em geral dentro de um átrio esquerdo ou apêndice atrial doente. Observe abaixo:

https://encrypted-tbn2.google.com/images?q=tbn:ANd9GcQAzLA6KT1qw_rc5Njk1TVDA88NZzZZzKsdYZvXI59xTZ4mpcm6
Diga muito prazer à figura abaixo, ela é o seu coração. A parte mais à direita, no meio da figura, é o átrio esquerdo. Quando o átrio não bate da maneira devida, está fraco ou grande como na insuficiência cardíaca, coágulos podem se formar em sua parede e levar à embolia para os vasos que saem da aorta, a maior artéria do corpo, e entre estes vasos, estão as carótidas e as vertebrais, que vão para o cérebro.

Observe abaixo:

https://encrypted-tbn1.google.com/images?q=tbn:ANd9GcSGDbdgkxQJAWuMeT8oplhaVIKZ1LBKdxIXdsYFKdYFBvTs9msU
Esta é a aorta, a maior artéria do corpo. Os vasos que saem mais acima são as carótidas e as vertebrais.

Observe abaixo:

https://encrypted-tbn1.google.com/images?q=tbn:ANd9GcRQLDyzCixCvZoePDKUxOe6V3-PrZse7auyCa6mNYeWlCHHjuJDdw
Esta figura mostra um átrio em fibrilação com um coágulo (pontinho preto dentro do vaso vermelho) se deslocando para cima e causando um derrame.

Logo, um AVC (ou AVE) cardioembólico nada mais é do que um derrame causado por um coágulo que se desprende do coração. Mas os coágulos vêm somente do átrio? Não! Podem vir ainda do ventrículo, quando este está lesado após um infarto, e aquela parte do coração acaba por não bater direito, e cria um trombo. Pode ainda raramente vir do que chamamos de aneurisma de septo interatrial. Vamos falar com figuras:

Observe abaixo:
https://encrypted-tbn3.google.com/images?q=tbn:ANd9GcSVVpH7hOk13CbhdD5RJo7c2LKS2therdQNJK0hbOOKbx2wO3gn1w
Um coração que teve um infarto pode ficar com uma parte do ventrículo lesado, e que fica dissinérgico ou assinérgico, ou seja, bate de forma errada ou não bate, fica parado, e que pode ser visto pelo ecocardiograma. Essa lesão ventricular pode levar à formação de um coágulo que pode se desprender, formar um êmbolo e ir para o cérebro.

Agora, vamos falar rapidamente do septo interatrial e do forame oval patente, causa muito rara de AVC cardioembólico. Observe mais abaixo:

http://mykentuckyheart.com/images/pictures/atrialseptaldefect.jpg
Entre os átrios direito e esquerdo há uma separação, necessária para separar o sangue oxigenado do não oxigenado. Esta separação é o septo interatrial. Em algumas pessoas pode ocorrer que o septo não se forma direito, ocorrendo o forame oval patente (FOP). Veja acima à direita o FOP.

O aneurisma é quando ocorre uma saculação da parede do forame oval, ou seja, ela fica abaulada. Veja abaixo:

https://encrypted-tbn2.google.com/images?q=tbn:ANd9GcTrURJBtlg9AHfXEiIGVWLWn84434DdcrbkMgP0vpuI-iUi7am_KQ
Nesta figura há o forame oval patente, e o sangue pode ir da esquerda para a direita (o mais comum, já que a pressão à esquerda é maior que na direita), ou da direita para a esquerda (quando ocorre aumento da pressão pulmonar e o átrio direito fica mais tenso que o esquerdo, que é anormal). O aneurisma é quando a parede do forame fica abaulada, e se move de forma assincrônica com os movimentos do átrio.

É interessante saber que há uma associação (ainda não totalmente entendida) entre enxaqueca e o forame oval patente.

Não use estas informações para auto-medicação ou auto-diagnóstico. Sempre procure um médico.