quinta-feira, janeiro 16, 2014

Álcool e memória

Notícia tirada da revista Time de 15 de janeiro de 2014.

Homens de meia idade que bebem 2,5 doses de bebida alcóolica por dia podem acelerar a perda de memória em seis anos. Este achado foi feito em um estudo publicado ontem, dia 15 de janeiro, na conceituada revista Neurology, da Academia Americana de Neurologia (link).

O estudo, feito por pesquisadores da University College de Londres, e liderado por Séverine Sabia, avaliou os hábitos alcóolicos de 5054 homens e 2099 mulheres em três diferentes momentos durante um período de 10 anos. Quando os participantes fizeram 56 anos de idade, eles se submeteram ao primeiro de uma série de três testes de memória e funções executivas (leia mais sobre isso aqui) que seriam feitos durante os 10 anos do estudo.

Os homens, segundo os pesquisadores, que bebiam uma média de 2,5 doses por dia mostraram sinais de perda de memória mais cedo do que os homens que bebiam menos que isso, ou do que homens que não bebiam.

Mesmo após os pesquisadores terem eliminado os fatores que afetariam a memória, como dieta ou hábitos de exercício físico, manteve a relação de perda de memória com consumo de álcool. Entre as mulheres, também houve resultado parecido.

Os pesquisadores classificaram doses como de vinho, cerveja ou destilados, sendo que bebedores de destilados, como vodka, gim ou uísque, tiveram declínios mais acentuados de memória, não pareceu haver diferença entre os bebedores de vinho ou cerveja.

O estudo, embora não sendo 100% original, demonstra o quão pouco de álcool é necessário por dia para causar um grande impacto na vida do indivíduo. Os pesquisadores acreditam que o álcool, de alguma forma, interfere com o fluxo sanguíneo cerebral. Fora isso, já se sabe que álcool em excesso pode levar a danos e morte neuronal.

Por que o cérebro das meninas amadurece mais rápido do que o dos meninos?

Em uma pesquisa publicada em dezembro de 2013 na aclamada revista Cerebral Cortex (link) publicada por Sol Lim e colaboradores da Universidade de Newcastle, UK, descobriu-se que os cérebro de meninas reorganizam-se e amadurecem (evoluem e organizam suas conexões) mais cedo do que os cérebro de meninos da mesma faixa etária. 

No estudo, 121 pessoas entre 4 e 40 anos de idade foram escaneados com ressonâncias magnéticas usando-se uma sequência em que é possível visualizar as conexões e ligações entre os neurônios, chamada de DTI ou tractografia, documentando-se a ida e vinda das conexões (as conexões cerebrais são constantemente rearranjadas e podadas de forma a facilitar e organizar as relações entre os neurônios e aumentar a capacidade cerebral, além de fornecer base para a neuroplasticidade). 

Neste estudo, descobriu-se que algumas fibras que fazem a conexão entre áreas distantes do cérebro permanecem relativamente estáveis entre as idades e sexos, enquanto que conexões mais curtas, entre neurônios próximos, muitas sendo até mesmo redundantes (mais de uma para fazer a mesma função) foram modificadas. E esta reorganização, tão necessária para o amadurecimento cerebral, parecia ocorrer mais precocemente nos cérebro de pacientes do sexo feminino.

Mulheres também tendiam a ter mais conexões através dos dois hemisférios cerebrais (ligando as regiões simétricas de cada lado). Os cientistas acreditam que esta reorganização mais precoce torna o cérebro feminino mais eficiente em seu trabalho, e assim alcançando um estado mais maduro para processar, entender, o ambiente. 

Mas o que os cientistas não sabem é o que direciona esta diferença entre os sexos. 

Isso já era intuitivamente conhecido entre os cientistas, mas agora tornou-se cientificamente comprovado. 

Fonte - Revista Time 19/12/13

quarta-feira, janeiro 01, 2014

Toxina botulínica no tratamento da esclerose múltipla

A esclerose múltipla (EM) é uma doença já descrita há décadas, e cujo tratamento vem se aprimorando ao longo dos últimos anos. Inicialmente pensava-se ser a EM uma doença somente inflamatória, com destruição da bainha de mielina dos nervos do cérebro e da medula; no entanto, pesquisas mais recentes têm demonstrado ser a EM uma doença também degenerativa, com morte de neurônios. Isso levou a uma onda de pesquisas visando não somente impedir a destruição da bainha de mielina, mas evitar a morte neuronal que ocorre ao longo da doença. 

Um dos meios mais interessantes de alcançar estes objetivos é o diagnóstico e o tratamento precoces. O tratamento específico para a doença, incialmente feito com os interferons beta 1a e 1b (Avonex, Rebif e Betaferon), evoluiu para o uso do acetato de glatirâmer (Copaxone), e mais recentemente, o uso de outros imunomoduladores, como o fingolimod (Gylenia), e outras medicações ainda não disponíveis no Brasil, como a cladribina e o laquinimod. Fora estes tratamentos, o uso de imunossupressores, como a azatioprina e a ciclofosfamida, além da mitoxantrona, e mais recentemente o uso de anticorpos monoclonais, como o natalizumab e o rituximab para formas mais severas vem mudando a cara da história natural e da evolução da doença.

No entanto, muitos pacientes, mesmo com todas estas formas de tratamento, ainda apresentam surtos, e alguns surtos podem deixar sequelas. Como há a destruição de fibras de substância branca no cérebro e na medula espinhal, uma das sequelas é a espasticidade

Espasticidade é o aumento do tônus, ou seja, da resistência muscular ao movimento de um membro, muitas vezes levando o membro a assumir uma postura fixa, mantida, dolorosa e que pode levar a mais problemas, como encurtamento de tendões de músculos e lesões de articulações (as juntas). Observe exemplos de espasticidade abaixo:

http://www.physiofunction.co.uk/Uploads/Image/articles/Spasticityafterstroke.jpg
https://encrypted-tbn1.gstatic.com/images?q=tbn:ANd9GcTf5cGMzkZJ2Wv-1Pw5puax_9u3uOVPnaWKGd1ziucGNUUy2_ksmA
http://farm9.staticflickr.com/8322/7977095006_07296e9c52_z.jpg

Veja que a espasticidade pode afetar qualquer membro, e mesmo vários membros, como no caso de lesões da medula espinhal acima dos braços (acima da quinta vértebra cervical, ou C5).

A espasticidade responde a várias formas de tratamento, mas vai ficando mais problemática à medida que é deixada de lado e não é tratada de forma adequada o mais precocemente possível. Quanto mais cedo o início do tratamento de um quadro espástico, melhor, pois sequelas mais severas como encurtamento de tendões e lesões articulares desenvolvem-se ao longo do tempo, e caso já tenham ocorrido, o tratamento poderá ter que consistir de cirurgia. 

Um dos meios de tratamento da espasticidade consiste no relaxamento muscular, que permite o trabalho fisioterápico e outros meios de reabilitação. Imagine um membro completamente espástico, endurecido, difícil de mover, e um fisioterapeuta tentando mover este membro. Pense numa dificuldade!!!

Pois é! Com o uso da toxina botulínica, pode-se alcançar este relaxamento muscular. A toxina possui como função relaxar os músculos, impedindo a sua contração. O papel dela é justamente enfraquecer os músculos por 3 a 4 meses. Neste período, é possível iniciar um programa de fisioterapia, segui-lo e auxiliar o paciente a tentar readquirir funções com o membro incapacitado. Fora que o uso da toxina diminui as chances de sequelas ortopédicas mais graves, como encurtamento de tendões musculares e lesões articulares.

Interessante, não?

E como é usada a toxina? Há vários posts neste blog sobre a toxina botulínica e seu uso nas várias síndromes de espasticidade e outras doenças neurológicas. Leia sobre isso aquiaqui e aqui.


domingo, dezembro 01, 2013

Mecanismos de ação - Como age a aspirina na prevenção do derrame?

A aspirina, ou ácido acetilsalicílico, é uma medicação usada há mais de 100 anos (descoberta em 1829, quimicamente isolada em 1853 e comercialmente disponível a partir de 1899, alcançando popularidade durante a famosa epidemia de gripe espanhola após a Primeira Guerra Mundial - leia mais aqui). O seu uso na prevenção de derrames se iniciou entre as décadas de 60 e 80 do século passado. 

A aspirina além de um potente anti-inflamatório é, hoje, a droga mais comumente usada na prevenção de AVC's no mundo. Mas como a aspirina age? Antes de conhecermos o mecanismo de ação da aspirina, temos de entender como se forma uma placa de ateroma, que pode acabar produzindo o derrame. 

Abaixo, conheça uma célula de extrema importância e que mora no seu sangue, a plaqueta:

http://wehelpwhathurts.homestead.com/platelets.jpg
As plaquetas são as responsáveis por uma parte da cicatrização de feridas e da coagulação do sangue. Como você vê acima, as plaquetas são células especializadas que aderem, grudam-se, umas às outras formando redes nas regiões lesadas dos vasos sanguíneos, ativando-se e liberando substâncias que ativam mais plaquetas ao redor, chamando-as para fazer a primeira linha de reparação do vaso e hemostasia (hemostasia é a parada de um sangramento).

Fora isso, e com a ajuda de outras substâncias liberadas pelo próprio vaso danificado, há a formação de um coágulo, que é formado por uma proteína chamada fibrina (que é ativada, ou seja, posta para funcionar, através de uma via, da qual poderemos falar depois, a via de coagulação). A fibrina liga-se às plaquetas, reforçando o agregado plaquetário e prendendo este conjunto de plaquetas à parede do vaso, danificada. Com a cicatrização, há a remoção deste agregado de plaquetas e fibrina.

Observe abaixo o que disse em uma figura:

http://cnx.org/content/m44804/latest/Figure_40_02_04ab.jpg
Em (a), o megacariócito é a célula da qual derivam as plaquetas (platelets). Em (b), fibrin clot é o coágulo de fibrina, formando-se na parede do vaso rompida.

Muito bem, adiante.

As plaquetas são, logo, fundamentais para a reconstrução da parede danificada de um vaso, e logo, para evitar sangramentos. Por isso que quem toma aspirina ou outros antiagregantes plaquetários tem tanto sangramento da gengiva quando escova os dentes, ou pequenos sangramentos da pele (as equimoses) quando batem em algo, ou mesmo espontaneamente.

Outro protagonista importante na formação da placa de ateroma, a famosa placa de gordura que se forma na parede dos vasos, é o próprio revestimento dos vasos, o endotélio. Observe abaixo:

http://faculty.stcc.edu/AandP/AP/imagesAP2/bloodvessels/endothelia.jpg
Acima, há o endotélio do vaso, a parte mais interna do vaso e que fica em contato com o sangue. O endotélio é formado por várias células que funcionam como um órgão separado, produzindo várias substâncias, em especial o óxido nítrico, que mantém o diâmetro do vaso e permite a circulação do sangue. Um endotélio saudável significa um vaso saudável.

http://www.chelationhealthproducts.com/images/diagram-endothelium.jpg
À esquerda, vemos um vaso saudável como um endotélio saudável. À direita, um vaso danificado, com uma placa de ateroma, de colesterol, formando-se na superfície interna do vaso e estreitando a luz do vaso, impedindo a passagem de sangue.

http://upload.wikimedia.org/wikipedia/commons/thumb/4/48/Carotid_Plaque.jpg/230px-Carotid_Plaque.jpg
Esta é uma placa de colesterol de verdade retirada de uma carótida que estava entupida. Feia, não?

Pois bem, há outro ator nesta comédia de erros. É o excesso de colesterol, mais especificamente o LDL, a Lipoproteína de Baixa Densidade ou colesterol ruim, que em excesso danifica o endotélio e se acumula na parede do vaso, provocando inflamação. Sim, inflamação. Inflamação esta que evolui ao longo dos anos, e que pode piorar com alguns adjuvantes a mais, como deficiência de vitaminas, cigarro (fumo!), pressão alta e diabetes descontrolado.

E qual é a célula que, atraída por várias substâncias inflamatórias produzidas no endotélio lesado, aumenta a placa e promove mais inflamação? A plaqueta, que vimos acima.

As plaquetas não aparecem no começo da formação da placa, como sugere um artigo publicado na famosa revista Circulation Research de 2002 (link). E mais, elas auxiliam na produção de uma proteína importante, a beta-amilóide 42, envolvida na doença de Alzheimer.

Fora isso, a relação entre as plaquetas e outras células inflamatórias encontradas nas placas de colesterol, como os macrófagos, acabam também por produzir radicais livres, que lesam ainda mais os vasos.

Logo, a plaqueta possui papel importante na manutenção da placa de ateroma e nos eventos isquêmicos (ou seja, nos derrames e nos infartos do coração), de modo que a inibição da agregação das plaquetas através de substância que se liguem a seus receptores diminuiria a frequência de doenças causadas pelas placas de colesterol.

Claro que os antiagregantes plaquetários, como a aspirina, mas também o clopidogrel e o cilostazol, não impedem tudo, pois como vimos, a presença das plaquetas ocorre quando a placa já está formada. Há a necessidade de evitar a formação da placa de colesterol através de hábitos saudáveis de vida, diminuir a inflamação vascular através de exercícios físicos, evitar o colesterol elevado através de dieta saudpavel, ou diminuir os níveis de colesterol, ou através de dieta, ou através do uso de estatinas, medicações utilizadas para este fim e que devem ser prescritas por médicos.

Por fim, não use aspirina ou qualquer antiagregante plaquetário sem orientação médica. Como toda medicação, a aspirina pode levar a sérios efeitos colaterais e mesmo alergias, e somente o médico ciente do seu problema tem a capacidade de julgar a necessidade do uso da medicação.

sábado, novembro 30, 2013

Sorteio do livro Ausência

O sorteio do livro Ausência produziu a seguinte ganhadora:

Professora Cristiane Cassaniga.

Parabéns, Cristiane.

Mande seu endereço para o e-mail sekeff@hotmail.com.

Mandaremos o livro essa semana, e o frete é por nossa conta.

quarta-feira, novembro 13, 2013

Mais sobre a substância cinzenta cerebral

Além do que já foi discutido no post anterior sobre o córtex cerebral, há no cérebro ilhas de neurônios, cuja função é filtrar tudo o que entra de informação no cérebro (odores, gosto, tato, sons, visão) antes de encaminhar as informações ao córtex cerebral para análise mais aprofundada, e refinar os movimentos produzidos no córtex cerebral, de forma que consigamos realizar movimentos grosseiros e finos com total harmonia e delicadeza.

Estas ilhas de neurônios são os núcleos cerebrais e de tronco cerebral.

Há vários destes núcleos, de forma que a substância cinzenta cerebral não está somente cobrindo a substância branca, mas se encontra dentro dela também.

Os principais núcleos são:

Os núcleos da base - Putâmen, caudato, globo pálido, substância negra, núcleo subtalâmico (leia mais sobre eles aqui).

O tálamo (leia mais sobre ele aqui).

O hipotálamo (leia mais sobre ele aqui).

Os núcleos do tronco cerebral - Aqui há vários agrupamentos nucleares de neurônios dentro do tronco cerebral, cujas funções são as mais diversas, dentre movimentação dos olhos, controle da respiração, do ato de engolir, da movimentação da língua e da boca, da sensibilidade espacial (localizar-se no espaço com os olhos fechados), da sensibilidade da face, entre outras funções.

Veja abaixo:

http://bradyonthebrain.files.wordpress.com/2013/10/cranial-nerve-nuclei-in-brainstem-schema-2.jpg
Acima você vê os nervos cranianos motores (em vermelho) e sensitivos (em azul) com seus núcleos (as expansões dos nervos dentro do tronco cerebral).

http://bedahunmuh.files.wordpress.com/2010/05/cranial-nerve-nuclei-in-brainstem-schema-1.jpg
Acima, a mesma figura vista de lado.

Há vários outros núcleos no tronco cerebral, dos quais falaremos após. 

E há os núcleos do cerebelo, claro:

http://kin450-neurophysiology.wikispaces.com/file/view/19.1.jpg/140453055/411x326/19.1.jpg
Acima, uma visão do tronco cerebral e do cerebelo por trás. Os núcleos cerebelares estão à esquerda, em roxo (núcleo fastigial, emboliforme e globoso (juntos foram o núcleo interpósito) e o núcleo denteado).

O córtex cerebral

A porção mais externa do cérebro, e que o envolve como uma malha, chama-se de cóirtex cerebral. A palavra córtex vem do latim cortex, que quer dizer "casca ou carapaça" (leia aqui).

O córtex é também chamado de substância cinzenta, por conta da cor meio marrom-acinzentada que ele apresenta nas preparações cerebrais (veja abaixo).

http://upload.wikimedia.org/wikipedia/commons/0/0c/Human_brain_right_dissected_lateral_view_description.JPG
Observe que a substância branca (a parte interna do cérebro) é toda coberta por uma capa que é facilmente distinguível, a substância cinzenta ou córtex cerebral. Apesar de possuir milímetros de espessura, o córtex cerebral possui 6 camadas entremeadas de neurônios e de fibras (axônios e dendritos), que ora saem destes neurônios para outras áreas do córtex e estruturas mais profundas do cérebro, ora chegam de várias regiões cerebrais a estes neurônios.

Observe as duas figuras abaixo, que mostram o seu córtex cerebral visto ao microscópio. 


http://thebrain.mcgill.ca/flash/d/d_02/d_02_cl/d_02_cl_vis/d_02_cl_vis_3a.jpg
http://chronopause.com/i293.photobucket.com/albums/mm55/mikedarwin1967/Feline-62a.png

Observe a quantidade de células e de fibras que sobem, descem e correm paralelamente à superfície do cérebro. São bilhões de fibras e células neuronais, associadas a células gliais de suporte e manuntenção da eletricidade cerebral, que juntas realizam toda a transmissão cerebral elétrica.

O córtex cerebral é completo, desenvolvido, e permite a integração entre várias regiões cerebrais distintas e a integração entre o próprio córtex e os núcleos de substância cinzenta existentes na profundidade do cérebro, o cerebelo e a medula espinhal.

Sem esta malha altamente intricada de fibras e células, nunca conseguiríamos o avanço científico, tecnológico, de linguagem e social que possuímos hoje.

Estudos demonstram que os animais mais próximos de nós, como macacos e outros animais como cachorros, porcos e gatos, possuem também córtices (esse é o plural de córtex) com 6 camadas, semelhantes ao nosso. 

A diferença é que nosso cérebro é disposto em inúmeras colunas de células ao longo das camadas, em número muito maior que nos outros animais. Ou seja, células que pertencem a camadas diferentes conectam-se entre si verticalmentem, formando colunas que servem para ações específicas dentro de uma região cortical. Há colunas celulares que são ativadas pela visão de linhas e bordas, outras são ativadas pela cor, outras que são ativadas pela visão de movimento, e assim vai, ao longo do córtex cerebral, de tal forma que uma função é trabalhada em partes, ao longo de várias camadas celulares, em várias colunas, tornando a análise e percepção do estímulo mais completos e complexos. 

Observe abaixo:

http://www.fizyka.umk.pl/~duch/ref/00/00-how-brain/column.gif
A figura acima, que demonstra a conexão e a passagem de estímulo entre várias células, demonstra à esquerda três colunas de células corticais. As colunas possuem, cada uma, as 6 camadas corticais, mas separam-se através de minúsculos espaços. As colunas são interconectadas entre si, permitindo a células que respondem a um estímulo conectar-se com células nas proximidades ou à distância que respondem a outros estímulos, de modo a tornar a percepção de estímulos algo bastante completo.

Ou seja, seu cérebro é todo conectado, tanto de cima para baixo e de baixo para cima, como de frente para trás e entre os lados. 

segunda-feira, novembro 04, 2013

Por que ocorrem as crises epilépticas? - Uma visão direcionada ao leigo.

Vamos tenta tornar o complexo simples.

Nosso cérebro, como todo o nosso corpo, funciona através de correntes elétricas minúsculas (cujas voltagens são medidas não em Volts, mas em miliVolts, que são 1 Volt dividido por 1000) produzidas por trocas de íons, átomos eletrificados. Os dois íons (átomos eletricamente carregados) relacionados à produção de energia elétrica na célula são os sódio (Na) e o potássio (K), que são íons positivos (cátions), ou seja, que necessitam de um elétron para alcançar a neutralidade elétrica. Outros dois íons são importantes, o cálcio (Ca) e o cloro (Cl). O cálcio é um íon positivo que necessita de dois elétrons para sua neutralidade, e o cloro é um íon negativo, ou um ânion, que necessita doar um elétron para alcançar a neutralidade elétrica.

Nas células, o potássio existe em maior quantidade do que o sódio, que abunda nos espaços entre as células (extracelulares). Da mesma forma, o cálcio e o cloro são mais importantes fora do que dentro da célula. Nas células, ocorrem alterações de trocas entre o sódio e o potássio que não chegam a produzir uma corrente elétrica (o sódio entra e o potássio sai da célula, mantendo assim o potencial, a diferença de carga entre o dentro e o fora da célula, que é de - 70 mV, ou seja, a célula é negativa em relação ao meio onde ela está). No entanto, quando estas trocas de íons são grandes o suficiente, há a produção de um potencial de ação, que é justamente a maneira como as células em várias regiões do corpo se comunicam e trocam substâncias entre si (leia mais sobre o potencial de ação aqui).

Um neurônio é uma célula ultraespecializada em conduzir estímulos elétricos (potencial de ação) através de suas ramificações (dendritos e axônios - leia mais sobre isso aqui). E há vários tipos de neurônios, que produzem e transmitem várias tipos de substâncias que agem em vários locais diferentes.

Como já falado em post sobre as sinapses neste blog, os neurônios se comunicam através destas pela abertura/fechamento e estimulação de proteínas localizadas nas membranas celulares, os receptores. Vários receptores existem, e cada um deles sofre alteração por contato e ligação com substâncias chamadas de neurotransmissores.

Da mesma forma, há centenas de neurotransmissores diferentes, mas os mais importantes são:

1. Dopamina
2. Acetilcolina
3. Serotonina
4. Noradrenalina
5. Substância P
6. Encefalinas
7. Ácido gama-aminobutírico (GABA)
8. Glutamato
9. Glicina

Há vários outros neurotransmissores. Alguns destes inibem a ação dos neurônios onde agem (neurotransmissores inibitórios, como a glicina e o GABA) e outros estimulam os neurônios (os neurotransmissores excitatórios, sendo o mais comum o glutamato).

Os neurônios GABAérgicos (que contêm GABA) são assim didaticamente chamados de inibitórios, e os que contêm glutamato (glutamatérgicos) de excitatórios.

Muito bem, entendendo até aqui? Vamos continuar.

Como falei antes, os neurônios comunicam-se através de impulsos elétricos, cuja duração, tamanho, sequência de estímulos, e outros fatores, determinam o tipo de informação que está sendo carreada. Os neurônios formam malhas neuronais, agrupamentos de células unidas através de sinpases, e cada neurônio pode fazer centenas a milhares de sinapses com outros neurônios próximos. E cada neurônio comunica-se através de um tipo de neurotransmissor, o que indica que em uma malha, há neurônios inibitórios, excitatórios e neurônios que modulam as descargas de outros neurônios.

Os neurônios não se comunicam de forma aleatória. Na verdade, as malhas neuronais possuem um fim, ou seja, a estimulação, ou inibição, de uma via inicial leva a ativação, ou inibição, de neurônios em várias camadas, cuja função é estimular, ou inibir, uma via neuronal final levando a uma ação que pode ser motora (levar um copo à boca, por exemplo), sensitiva (sentir um odor de uma flor, por exemplo), visual (correlacionar imagens com conhecimentos prévios, como exemplo), comportamental (o ato de dormir, como um bom exemplo), cognitiva (pensar, memorizar, raciocinar, e outros atos cognitivos) e outras ações.

Abaixo, uma malha neuronal ligando várias áreas cerebrais em prol de uma ação específica:

http://www.neuroscience.cam.ac.uk/uploadedFiles/mg03_phpGBaO4B.JPG
Entendendo até agora? Podemos manter o barco navegando? Vamos lá.

Além dos neurônios, outras células podem agir no meio celular eletrificado do cérebro. Estas células são as células gliais, mais especificamente os astrócitos, células que possuem várias funções, como suporte nutricional e de defesa neuronal, controle de entrada de substância no cérebro através da barreira hematoencefálica, controle da carga elétrica neuronal, e outras várias funções essenciais, e sem as quais não haveria funcionamento cerebral adequado.

Os níveis de cálcio, potássio e sódio dentro e fora dos neurônios, e dentro e fora das células gliais, é mantido às custas de mecanismos incrivelmente arranjados de forma a propiciar um equilíbrio elétrico celular e uma homeostase (equilíbrio) perfeita. Estes íons (átomos eletricamente carregados) são trocados de forma a manter a atividade neuronal oscilando (sim, a atividade neuronal não é estática, mesmo no sono, mas oscila entre estados ativado, despolarizado, e inativado, repolarizado a hiperpolarizado; leia sobre o potencial de ação, e você entenderá o que estou falando). A função elétrica das células da glia é manter a funcionalidade dos neurônios, através da modulação de sua excitabilidade (deixar o neurônio mais ou menos excitável).

http://cnx.org/content/m47417/latest/Figure_33_02_13.jpg
Acima, um astrócito ligado a um neurônio.

http://esciencenews.com/files/images/201009203716190.jpg

Acima, a demonstração da atividade oscilatória cerebral.

Antes, até há alguns anos, pensava-se que as crises epilépticas eram causadas por um aumento das respostas excitatórias neuronais, e uma falta de neurônios inibitórios, uma visão bastante simplista da realidade.

Na realidade, o problema é bem diferente desta visão minimalista.

Pensemos o cérebro como um meio cheio de neurônios eletricamente carregados, trocando sódio, potássio, cálcio e cloro com o meio externo; células gliais, desesperadas tentanto diminuir as concentrações de cálcio e potássio do meio em que ficam os neurônios para evitar instabilidades elétricas; e os próprios íons, cálcio, potássio, sódio e cloro, sendo trocados de forma passiva e ativa.

Alterações nas concentrações de potássio, e possivelmente cálcio, dentro e fora da célula, desencadearia correntes de oscilações (que, em última análise, seriam as próprias crises) que se espalhariam pelo córtex de forma sincrônica, algo bastante comum em crises epilépticas, e este espraiamento ocorreria não através dos próprios neurônios, mas através das células de suporte, as células da glia, que tamponam, ou seja, acumulam em si os excessos de íons (especialmente o potássio) ao redor dos neurônios. Ou seja, a propagação de uma crise em um local (focal) para outro, e logo para todo o cérebro (generalização) não ocorreria, provavelmente, através de sinapses, mas através de junções elétricas entre as células da glia, as chamadas gap junctions, por onde o espraiamento elétrico é mais fácil e rápido.

http://www.biochemj.org/csb/007/Fig7_astrocyte_structurea.jpg
Nesta linda figura acima, vê-se dois astróscitos unidos pelas gap junctions, fazendo suporte a duas sinapses entre três neurônios, e mantendo o equilíbrio de potássio (K+) no meio extra celular e dentro dos vasos (blood vessels).

A atividade epiléptica é tóxica para os neurônios, e esta leva à liberação de neurotransmissores excitatórios, principalmente o glutamato, levando a maior concentração de cálcio e mais ativação neuronal, alimentando um círculo vicioso que deverá ser parado, em última análise, pela função das células da glia, que tentarão "limpar o ambiente".

Mas como as células gliais entram neste estado de função alterada, podendo auxiliar no desencadear de crises epilépticas?  A propagação e generalização das crises relacionapse com a desregulação do potássio extraneuronal. Já as crises em si podem ocorrer a partir da abertura da barreira hematoencefálica (a barreira formada pelos astrócitos, e que impediria a entrada de qualquer molécula ou substância no cérebro), o que levaria a uma cascata de eventos começando pela ativação dos astrócitos, alteração dos receptores de potássio nos astrócitos, dificultando as correntes de correção de potássio do meio extracelular, e prejuízo da contenção deste excesso de potássio, levando à formação de oscilações que se propagariam entre os neurônios e astrócitos ao redor, ou seja, a um foco epiléptico, que pode ou não se generalizar.

Este é o conhecimento atual simplificado, retirado do livro Oxford Textbook of Epilepsy and Epileptic Seizures, de Shorvon e colaboradores, publicado pela editora Oxford, em 2013.

http://img2.imagesbn.com/p/9780199659043_p0_v1_s260x420.JPG



terça-feira, outubro 29, 2013

Dia Mundial de Prevenção do AVC

Hoje, dia 29 de outubro, lembramos as inúmeras vítimas que sofrem anualmente com os derrames, os famosos AVC's, em todo o mundo. O sofrimento da perda de força de um lado do corpo, da sensação de dormência ou perda de sensibilidade, do desequilíbrio, das alterações de fala, ou mesmo da perda da linguagem. 

Sintomas que poderiam ser evitados em sua grande maioria se houvesse uma conscientização maior, se a população soubesse quais os meios de prevenção do AVC, e como reconhecer um AVC para um socorro imediato. 

O AVC, ou Acidente Vascular Cerebral, é uma lesão cerebral causada pela perda de sangue em uma região do cérebro pela obstrução de um vaso, ou o extravasamento de sangue para dentro do tecido cerebral pela ruptura de um vaso. A maior parte dos casos poderia ser facilmente prevenida, caso um programa de controle de fatores de risco e conscientização existisse e fosse seguido à risca.

Os fatores de risco que podem levar a um AVC são:

1. Pressão alta não controlada
2. Diabetes
3. Colesterol elevado
4. Tabagismo
5. Etilismo
6. Obesidade
7. Vida sedentária

Há outros fatores menos comuns, e mais difíceis de controlar, como idade, genética e presença de lesões cerebrais como malformações dos vasos da cabeça. Mas estes casos são mais raros.

A cada ano, as pessoas afetadas por um AVC o são em idade mais precoce, por conta dos vários fatores de risco já estarem presentes antes dos 40 anos. Antes considerado doença de pacientes mais idosos, os AVC's estão cada vez mais presentes em pacientes jovens, e suas sequelas, quando não a morte, podem ser notados com frequência nas ruas de nossas cidades e nos nossos hospitais. 

Cuide-se, faça um bem a si próprio e à sua saúde, ajude a prevenir o AVC. A conscientizaão começa pelo conhecimento. 

O conhecimento deve ser adquirido em consultas médicas, através de checkups periódicos, em sites de confiança (como da Academia Brasileira de Neurologia (link) e da Sociedade Brasileira de Doenças Cerebrovasculares (link)), e no blog Neuroinformação. 

No site da Rede Brasil AVC (link), você aprende mais sobre os sinais de alerta (como identificar) de um AVC, e lê mais coisas a respeito desta doença catastrófica, que causa sequelas por vezes graves, e que pode mesmo levar à morte. E que está ceifando vidas e a saúde de milhares de brasileiros por ano.

Abaixo, fotos do mutirão do AVC do qual participei, hoje, no metrô Sé, e gentilmente cedidas pela agência Burson-Marsteller Brasil, e autorizadas para publicação. 




segunda-feira, outubro 28, 2013

Sobre o cérebro e suas conexões



O cérebro humano alcançou um desenvolvimento ímpar na natureza. A capacidade única de decidir pela própria vida sem depender dos instintos e de pistas da natureza, além da linguagem verbal, são o que nos distingue dos outros animais. 

Paralelo a estas conquistas da evolução, possuímos uma malha neuronal intrincada e complexa, que une várias regiões cerebrais e é capaz de relacionar de forma elegante e duradoura sensações tão díspares como odores, toques, visões e sons. Os traços cerebrais gerados a partir destas sensações externas unem-se ao prazer, à alegria, ao medo, à dor, formando memórias que, mais do que servindo como uma forma de preservar nossa vida, como deveria ser no passado mais remoto, nos fornecem uma história, algo que entre os animais, pelo menos conscientemente, somente o ser humano possui. 

Os tipos de células que abundam no sistema nervoso é imenso, entre neurônios (cerca de 10 mil tipos entre neurônios sensitivos, motores e interneurônios, que realizam a conexão entre neurônios, modulando seus estímulos, segundo o site http://www.mind.ilstu.edu/curriculum/neurons_intro/neurons_intro.php) e células de suporte (os astrócitos), de mielinização neuronal (os oligodendrócitos no sistema nervoso central e as células de Schwann no sistema nervoso periférico) e de defesa (a micróglia). 

Maior ainda, e principalmente o motivo da grande diversidade de informações que pode ser trocada entre as várias regiões cerebrais, são as sinapses, as conexões entre neurônios, presentes em todos os organismos que possuem malhas neuronais. Sinapses são entidades biológicas complexas, variadas e incrivelmente organizadas. Um único neurônio pode fazer centenas a milhares de sinapses com vários outros neurônios ao seu redor. De acordo com um estudo publicado na revista Cerebral Cortex em 1999 (http://cercor.oxfordjournals.org/content/9/7/722.full.pdf+html), DeFelipe e colaboradores estimaram o número de sinapses como cerca de 1,508,000,000 a 1,626,000,000 (isso mesmo, chega à casa dos bilhões) em cada milímetro cúbico (mm³) de volume cerebral. Levando-se em conta que o cérebro humano adulto possui volume médio de 1400 ml, ou 1,400,000 mm³, podemos ter mais de 2 quatrilhões de sinapses (isso em um único cérebro) (http://faculty.washington.edu/chudler/facts.html). Lembre-se de que temos cerca de 300 bilhões de estrelas em nossa galáxia. Logo, somente em seu cérebro, há mais sinapses que estrelas no céu, e seu cérebro ainda ganha de disparada. E levando-se em conta que temos cerca de 100 bilhões de neurônios em um único cérebro, cada neurônios faria, em média, 2,300,000 sinapses. 

Além do cérebro, o sistema nervoso conta com estruturas de apoio, que comunicam a grande rede neuronal cerebral com o meio ambiente. Através de suas ramificações, o cérebro lê, com extraordinária exatidão, e interpreta os mais variados tipos de estímulos, e reage a eles e/ou lhes dá a carga emocional necessária. As estruturas que servem como a ligação do cérebro com o meio são a medula espinhal e os nervos, além dos órgãos dos sentidos. O modo de comunicação entre estas estruturas e o cérebro baseia-se na mesma forma de comunicação entre os inúmeros neurônios cerebrais, estímulos elétricos, modulados, intervalados, aumentados ou diminuídos, de forma a propagar a informação de forma fidedigna. 

Não é surpresa, pois, considerar o cérebro a última fronteira do conhecimento humano sobre si próprio. Não que saibamos tudo sobre o resto de nosso corpo, muito pelo contrário. Mas a imponência do cérebro associada à sua aparente intangibilidade nos remete aos segredos mais bem guardados, ao El Dorado tão almejado pelos conquistadores, ao oceano mais distante e mais belo.

E tudo isso, toda essa complexidade, toda essa rede extensa e maravilhosamente organizada de células que se intercomunicam de forma orquestrada, toda essa rede sináptica que soma números estratosféricos, existe aí dentro de sua cabeça.

sexta-feira, outubro 25, 2013

Bem vindo ao Blog Neuroinformação

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Este blog destina-se a disseminar o conhecimento neurológico de forma leiga, aberta e segura, com informações confiáveis escritas por profissionais médicos e não médicos conhecedores de suas área de atuação.

Estamos chegando a 1 milhão de visualizações no blog, o que nos deixa muito felizes e confiantes no sucesso do blog. 

Há mais por vir, e por isso mantenha-se ligado, pois o blog Neuroinformação continuará atualizado para oferecer a você a melhor informação em neurologia voltada ao público leigo. 

quarta-feira, outubro 16, 2013

Síndrome de Sturge-Weber

Esta, tal como a doença de von Recklinghausen (ou neurofibromatose tipo 1) é uma facomatose, ou seja, uma doença que combina sintomas e sinais da pele e do sistema nervoso. Conforma já falado em post sobre a síndrome de West, a pele e o sistema nervoso se desenvolvem do mesmo tecido embrionário. Logo, malformações de uma podem levar a alterações da outra.

A síndrome de Sturge-Weber (SSW) foi descrita em 1860 pela primeira vez por Schirmer, e posteriormente em 1879 por William Allen Sturge, médico e arquéologo inglês. Frederick Parkes Weber, dermatologista inglês deu sua contribuição ao entendimento desta doença em 1922.

A característica mais famosa da doença são as malformações de capilares (pequenos vasos) da face, geralmente em um lado só, mas que pode acometer os dois lados em menos de 1/3 dos pacientes, e que pode assumir as mais variadas formas e tamanhos, muitas vezes somente tingindo a face de roxo, mas em outras causando deformações faciais (veja abaixo).

http://www.cmaj.ca/content/170/11/1672/F2.large.jpg

http://kotiro.petermichaud.com/wp-content/uploads/2009/09/122sturge_weber.jpeg

http://www.childfoundation.com/kids/Mariceli%20Diaz%20Marrero/Mariceli-profile.jpg
Em termos cerebrais, há malformações que podem ser dos dois lados (bilaterais) em 25% dos pacientes com lesões dos dois lados da face. Uma complicação grave e que precisa ser diagnosticada precocemente nestes pacientes é o glaucoma, ou aumento da pressão dos olhos, e que pode ocorrer em quase metade dos pacientes.

O diagnóstico pode ser feito ao nascimento, pois as manchas ou lesões cutâneas já são visíveis nesta época. Mas para termos o diagnóstico de SSW, é necessário haver conjuntamente lesões cerebrais ou oculares (se somente a lesão cutânea se apresentar, sem outras anormalidades, podemos estar diante de um angioma, tumor vascular benigno, simples, sem complicações). 

Aliás, estas "manchas" da pele podem acometer também a região da boca, por dentro e por fora, além do pescoço, tronco, membros, língua, gengiva, laringe, faringe e nariz. A cor da lesão pode aparecer menos viva ao nascimento, mas pode ficar cada vez mais escura com o passar da idade da criança.

Em 60% dos pacientes, a face pode aumentar do lado da lesão, podendo haver alterações dos ossos da face em alguns pacientes. As lesões de pele podem faltar na SSW em menos de 1/5 dos pacientes, sendo que estes pacientes são diagnosticados por médicos experientes com o uso de exames de imagem (tomografia ou ressonância).

Os sintomas neurológicos mais comuns são as crises epilépticas, além de retardo variável de desenvolvimento mental em alguns pacientes, além de dores de cabeça. Três quartos das crises aparecem já no primeiro ano de vida (podem começar como síndrome de West, como já visto em post anterior). Alterações motoras de braços e pernas podem ocorrer em alguns pacientes, além de problemas visuais cerebrais.

A causa da doença é desconhecida, e não se conhece modos de herança genética.

As alterações cerebrais assumem a forma de malformações, defeitos do desenvolvimento cortical, além de deposições anormais de cálcio no cérebro (calcificações), e principalmente alterações dos vasos cerebrais com diminuição do calibre dos vasos e da vascularização de certas regiões, o que pode se responsabilizar por algumas crises epilépticas.

De todas as síndromes neurocutâneas (que afetam a pele e o sistema nervoso), a SSW é a quarta mais comum no mundo (as mais frequentes são a Neurofibromatose tipo 1, a esclerose tuberosa ou doença de Bourneville, e a hipomelanose de Ito). Ocorre em cerca de 1 pessoa para cada 22,000 nascidos.

O diagnóstico é  clínco, através das lesões de pele, e radiológico, com o diagnóstico das calcificações cerebrais, além de malformações cerebrais e alteraçõe vasculares cerebrais que podem ocorrer em alguns pacientes.

http://www.medlink.com/images/acsw5.jpg
Acima uma calcificação cerebral típica de SSW, vista em tomografia de crãnio (as calcificações são estas manchas esbranquiçadas brilhantes logo abaixo do osso).

O tratamento baseia-se no tratamento das crises epilépticas, controle de fatores de risco vasculares mesmo em crianças (algo que deve ser discutido com o neuropediatra ou neurologista que acompanha o paciente), evitar complicações clínicas, como anemia ou desidratação, manter uma vida saudável, com boa alimentação e sono normal. Outras formas de tratamento das lesões cerebrais devem ser discutidas com o médico que assiste a criança ou o paciente.

Avaliaçõe softalmológicas devem ser solicitadas, para afastar glaucoma. As lesões de pele podem ser tratadas, de acordo com a avaliação de dermatologista especialista.