terça-feira, abril 08, 2014

Insônia e risco de derrame - mais evidências

Notícia tirada do site Medscape Neurology (link) e traduzida livremente para o Blog Neuroinformação. 

Insônia ligada a aumento do risco de AVC (derrame)


Mais evidências de que insônia aumenta o risco de AVC vêm de resultados de um grande estudo populacional publicado na importante revista Stroke, neste mês de abril (link).

Pesquisadores revisaram os registros médicso da população de Taiwan e compararam os índices de AVC durante 4 anos em 21438 pacientes com diagnóstico de insônia e 64314 pessoas sem insônia, sem diferenças entre sexo e idade entre os dois grupos.

Os resultados mostraram que no geral, pessoas insones tiveram 85% mais chance de ter um derrame. Esse risco diminuiu para 54% após o ajuste estatístico de alguns fatores. O efeito parecia maior em pessoas jovens, com pessoas insones entre 18 e 34 anosd e idade tendo um risco 8 vezes maior de um derrame que pessoas da mesma variação etária sem insônia. 

O autor do estudo afirma que a insônia não deve ser encarada como algo benigno, e sem maiores riscos à saúde. Pessoas, especialmente jovens, com insônia crônica devem procurar auxílio médico para checar seus riscos de AVC, e realizar tratamento quando apropriado. Também, o autor demonstra a importância de checar na história clínica dos pacientes que adentram os consultórios a história de insônia, especialmente em indivíduos mais jovens (geralmente considerados menos propensos à insônia). 

Este estudo segue a linha de vários outros estudos que demonstram a importância de hábitos saudáveis de sono. 

Durante o estudo de 4 anos, 583 participantes com insônia e 962 sem insônia foram admitidos com derrame em Taiwan. Insônia relacionou-se a qualquer tipo de derrame, isquêmico (falta de sangue em determinada área do cérebro) ou hemorrágico (extravasamento de sangue para dentro do cérebro). 

Mais, a associação entre insônia e AVC diminui com a idade, sendo mais frequente essa associação em pessoas mais jovens, geralmente com menos fatores de risco como pressão alta e diabetes. (N.T.:O que temos observado, no entanto, é um aumento da incidência de derrame em pessoas abaixo dos 40 anos de idade, especialmente por maus hábitos de vida, como fumo, uso em excesso de álcool, sedentarismo, má alimentação e obesidade).

Aqueles pacientes com insônia por mais de 6 meses tiveram os maiores riscos de derrame. Claro que outros fatores associaram-se ao aumento no risco de derrame, como idade avançada, diabetes, pressão alta, fibrilação atrial (leia sobre o que é fibrilação atrial aqui), e baixo nível sócio-econômico. 

O porquê da associação entre insônia e derrame não é completamente entendido, mas evidências demonstram que a insônia pode alterar a saúde cardiovascular através de inflamação dos vasos, prejuízo da tolerância à glicose (risco de diabetes), e aumento da pressão arterial. Falta de atividade física, uso de álcool, dieta desregrada, fumo, e estresse podem piorar esta relação. 

Ou seja, temos de diagnosticar e tratar a insônia, especialmente em indivíduos jovens. 

segunda-feira, abril 07, 2014

Os cuidados com o portador de doença de Parkinson - Fase "leve" da doença

Inicialmente, quero lembrar que a DP, apesar de progressiva e sem cura, possui tratamento e é perfeitamente compatível com uma vida produtiva e saudável. Caso você tenha a doença ou tenha sido diagnosticado recentemente com ela, não se envergonhe ou esmoreça. Pense que agora você tem mais um obstáculo a superar, e precisamos de obstáculos todos os dias, ou nossa vida fica vazia. Tenho vários pacientes com a doença, a maior parte muito bem e produzindo, cuidando de casa, dos filhos, do cônjuge, dando aulas, passeando, viajando, trabalhando, divertindo-se e sendo feliz.

Há neste blog vários posts sobre doença de Parkinson que podem ser lidos antes ou conjuntamente com este (12345678910). Neste post vamos discutir um pouco os cuidados com os pacientes portadores desta doença neurodegenerativa tão comum.

A doença de Parkinson (DP) é didaticamente dividida em fases para melhor estudo e compreensão, apesar de que clinicamente estas fases na verdade não existem, e a doença evolui continuamente. 

A DP caracteriza-se por tremor de repouso (mas muitos pacientes podem não ter tremor), rigidez (endurecimento das articulações) e bradicinesia (lentidão). Há à medida que a doença avança instabilidade postural, ou seja, risco de queda quando o paciente fica em pé, anda ou vira. 

No início da doença, em geral não há muita limitação e incapacidade, e esta "fase" pode durar vários anos, dependendo das características individuais de cada doente e do tratamento utilizado. Os pacientes apresentam tremor de repouso que pode atrapalhar (ou somente incomodar) as atividades diárias e o trabalho, além de alguma lentidão e rigidez. A marcha ainda é normal, e quedas são raras no início. Caso haja quedas frequentes nessa fase, diagnósticos outros além de DP devem ser pesquisados. 

É nessa fase que devemos iniciar, tão logo quando possível, o tratamento não medicamentoso, com fonoaudiologia, fisioterapia com treino de marcha e equilíbrio e terapia ocupacional, pois há registros variados na literatura do benefício destes tratamentos na evolução da doença (link). O tratamento fisioterápico e a terapia ocupacional visam criar vias funcionais dentro do cérebro, fortalecer os músculos abdominais e lombares, fortalecer as pernas e permitir uma melhor adequação do paciente às limitações variadas que irão ocorrer com o passar dos anos. 

A fonoaudiologia permite melhorar a fala na DP, que apresenta-se mais baixa e muitas vezes entrecortada, e auxiliar no exercício de deglutição para evitar engasgos, que podem ocorrer com a evolução da doença. 

O sono na DP pode apresentar-se perturbado desde o início do quadro, e insônia, sono agitado, sono entrecortado e sonhos com movimentos em excesso durante o sono (distúrbio do comportamento do sono REM) podem ocorrer, e devem ser discutidos com o médico que assiste o paciente para um tratamento adequado. 

A doença na fase leve manifesta-se, portanto, pelo início dos sintomas de tremor e/ou rigidez com lentidão. 

Para estes sintomas, há tratamento com medicações cuja indicação depende da idade, grau de incapacidade, sintoma predominante, doenças que o paciente apresenta, efeitos colaterais pregressos e preferência do médico e/ou do paciente. 

A doença pode ser apresentar em várias idades, podendo haver pacientes iniciando a doença acima dos 30 anos de idade (sim, a DP não é "doença de velho" como muitos ainda pensam). Há fatores genéticos envolvidos, e há pacientes, felizmente raramente, começando a doença com menos de 30 anos de idade. 

Entre as medicações usadas para tratar os pacientes nesta fase, e dependendo dos fatores demonstrados acima, há o biperideno, a selegilina, o entacapone, o pramipexol, a rasagilina, a levodopa, e a amantadina. Destas medicações, a mais potente é a levodopa (falaremos dela em posts futuros).

Estas medicações podem e devem ser usadas nas outras "fases" da doença a depender da evolução do quadro e da experiência do médico que assiste o paciente. Lembre-se que estas medicações somente podem ser usadas com prescrição e indicação médicas. 

O tratamento da DP começa aqui, no diagnóstico. É aqui que os cuidados devem iniciar, e não serem deixados para quando a doença estiver mais grave. Quanto mais cedo você começar a se cuidar, emagrecer, alimentar-se direito, fazer atividades físicas e iniciar o tratamento não só medicamentoso, mas também fisioterápico, fonoaudiológico e com terapia ocupacional, mais chance você tem de uma doença menos agressiva e uma evolução melhor, apesar de haver variações individuais de pacientes para paciente. 

Falaremos sobre a "fase moderada" em outro post. Até lá. 

domingo, abril 06, 2014

Estresse vs Dor de Cabeça

Notícia tirada do site da NBCNews (link) e traduzida livremente para o Blog Neuroinformação

O estresse está ligado à frequência de dores de cabeça

Pesquisadores alemães confirmaram o que os sofredores de dores de cabeça há anos já suspeitavam: Quando mais estressado você fica, mais frequentes ficam suas dores de cabeça. 

Os mecanismos exato por trás das dores de cabeça (enxaqueca incluída) ainda são misteriosos, apesar de já termos várias pistas. Alguns autores podem somente sugerir uma associação com o estresse, mas os autores do novo estudo afirmam que o estresse desencadeia crises de dor de cabeça. 

O estudo usou dados de 5159 pacientes entre 21 e 71 anos de idade, que responderam questionários a cada 3 meses de 2010 a 2012 sobre tipo e frequência de dores de cabeça, e que usaram  uma escala de 100 pontos para afirmar quanto estresse eles haviam experimentado. 

Após os ajustes estatísticos necessários para idade, sexo, hábitos de uso de álcool, fumo e outras variáveis, os dados se mostraram mais claros. Para aqueles que afirmavam ter "cefaleia por tensão", cada 10 pontos de aumento na escala de estresse associava-se a um aumento de 6.3% no número de dias por mês de dor de cabeça (para quem não tem dor de cabeça, pode parecer pouco, mas para quem tem 15 dias por mês de dor, um aumento de 6.3% significa 22 horas a mais por mês de dor de cabeça, além dos 15 dias).

Enxaquecosos e pacientes portadores de uma mistura de cefaleia tensional + enxaqueca mostraram aumentos com o estresse de suas dores também, em média 4.3% e 4% respectivamente para cada 10 pontos na escala de estresse.

Este estudo concorda com outro estudo do ano passado que afirmou que, nos EUA, o número de internações hospitalares por dor de cabeça aumentou muito durante a recessãod e 2008 - 2009.

Aliviar o estresse pode ser importante para pessoas que experimentam dores de cabeça, porque o estresse pode criar um círculo vicioso, ou seja, ele desencadeia a dor, que aumenta o estresse, e assim vai. O que sugere que o tratamento da dor de cabeça não deve ser somente medicamentoso, mas incluir medidas psicológicas e de redução do estresse, como terapias comportamentais.

terça-feira, março 18, 2014

De onde vem a imaginação?

Notícia tirada do site Huffington Post no FlipBoard, e traduzida livremente para o Blog Neuroinformação.

Pesquisa revela como e onde a imaginação ocorre no cérebro

Nosso entendimento sobre a imaginação, embora a tenhamos diariamente e apesar e seu papel essencial nas grandes descobertas, sobre de onde ela provem e como ela se parece no cérebro é incrivelmente limitado. Mas isso está começando a mudar, pois um novo estudo da Universidade de Dartmouth está fornecerndo algumas respostas. E este estudo será publicado na famosa revista Proceedings of the National Academy os Sciences (link).

Os pesquisadores descobriram que o que chamamos de imaginação, nada mais é do que o produto de uma malha ampla de neurônios (várias, centenas, milhares de conexões neuronais) que consciente altera e manipula imagens, símbolos e ideias, e nos dá foco mental intenso necessário para chegarmos a novas ideias e soluções para problemas complexos.

Os pesquisadores utilizam as técnicas de Albert Einstein, famoso físico, que utilizava sua imaginação como queria, montando, desmontando, girando e observando coisas em sua cabeça através do próprio pensamento. Ou seja, ele possuía a habilidade de representar na sua mente suas ideias, símbolos e imagens e conseguia "brincar" com eles. 

Para testemunhar o modus operandi de nossa imaginação, os autores colocaram 15 pessoas em uma máquina de ressonância magnética funcional (que consegue "ver" as áreas cerebrais relacionadas a uma determinada função ou sensação em funcionamento), e solicitaram-nos que visualizassem formas abstratas específicas; depois, solicitaram-lhes que imaginassem a combinação destas formas em figuras complexas. O que ele descobriram é que uma grande área do córtex cerebral e da região abaixo desse córtex, uma malha subcortical, chamada de posto de trabalho mental (mental workspace) localizada através do cérebro produzia a manipulaçãodas imagens.

Esta malha variava de regiões que se responsabilizam pelo processamento visual a áreas relacionadas com a atenção e as funções de abstração, atenção e raciocínio (funções executivas). E estas áreas trabalham juntas para que as manipulações ocorram.

Estes achados podem nos ajudar a entender melhor como a organização do cérebro cria um ambiente que nos permite pensar de forma aberta e criativa. 

Ainda, o artigo é a antítese de vários outros estudos sobre a imaginação que olhavam partes diferentes do cérebro de forma isolada, à procura do local onde se assentava a criatividade. Ou seja, não há isolamento de áreas cerebrais quando o assunto é imaginação, e olhar para o cérebro como sendo constituído de duas partes, sendo o hemisfério direito envolvido com a atividade criativa é errado, pois as pesquisas sugerem que o cérebro humano é muito mais vasto e interconectado do que as simples explicações anteriores poderiam prever.

Mas a pergunta que ainda não tem resposta é, o que torna uma pessoa mais criativa que outra? Apesar de debates incessantes a esse respeito, a chance de as pessoas mais criativas fazerem uso desta malha neuronal de forma mais eficiente que outras pessoas, ou mesmo conexões mais intensas e fortes entre estes neurônios, ou uma mistura de explicações, seja a razão disso.

Mais, este estudo é um bom ponto de partida para mais pesquisas que possam nos ajudar a desenhar novas formas de aprendizado, e mesmo avançar potencialmente o campo da inteligência artificial. 

Ou seja, mais novidades virão por aí. Sejamos criativos. 

terça-feira, março 11, 2014

Aparelho para a prevenção de enxaqueca

Post retirado do site do Medscape (leia aqui o original) e traduzido livremente para o blog Neuroinformação

FDA aprova o primeiro aparelho para prevenir enxaqueca

O FDA (Food and Drug Administration), orgão regulador de medicações e alimentos dos EUA aprovou a comercialização do primeiro dispositivo para tratamento da enxaqueca (Cefaly, STX-Med) (veja abaixo)

http://bipolarnews.org/wp-content/uploads/2013/09/inventor-cefaly.jpg
Site do produto - aqui

Este é também o primeiro aparelho de estimulação elétrica transcutânea especificamente autorizado para uso antes da instalação da dor (claro, os outros aparelhos são usados para o tratamento da dor, e este para sua prevenção). 

O aparelho fornece uma alternativa ao uso de medicações, e pode auxiliar pessoas que não toleram as medicações atuais para prevenir ou tratar as crises de enxaqueca.

O aparelho é usado como uma banda plástica ao redor da cabeça, ao nível da testa e sobre as orelhas, estimulando o nervo trigêmeo usando eletrodos adesivos no centro da cabeça. O usuário pode sentir uma leve sensação de picada ou massagem onde o eletrodo é aplicado, segundo nota do FDA. O aparelho deve ser usado somente por pacientes acima de 18 anos de idade e somente uma vez por dia por 20 minutos, segundo a mesma nota. 

A aprovação deu-se com base em um estudo clínico publicado na revista Neurology, com 67 pessoas que tinham mais de 2 ataques de enxaqueca por mês e que não haviam tomado nenhuma medicação nos últimos 3 meses antes do uso do aparelho, e em um estudo de satisfação de 2313 usuários do aparelho na França e na Bélgica. 

O estudo clínico demonstrou que as pessoas que usavam o aparelho tiveram menos dias de enxaqueca por mês, e tomaram menos medicações para ataques agudos de enxaqueca do que os que usaram um aparelho falso (placebo). O aparelho, no entanto, não preveniu completamente as crises, e não reduziu a intensidade das crises que apareceram. 

O estudo de pesquisa de satisfação demonstrou que pouco mais de 53% dos pacientes estavam satisfeitos com o tratamento. Apesar de não ter havido nenhum efeito colateral sério, as queixas mais comuns foram dificuldade de suportar a sensação produzida pelo aparelho, sonolência e cefaleia ao final da sessão de tratamento. 

Bem, não sei quando estará disponível no Brasil, mas talvez valha a tentativa, pelo menos para os pacientes mais resistentes e com dores mais intensas. 

segunda-feira, março 10, 2014

Novidades na doença de Alzheimer

Notícia tirada do site da Nature (leia o original aqui) e traduzido de forma livre para o blog Neuroinformação.

Biomarcadores pode prever a doença de Alzheimer antes de seu início

Um simples exame de sangue pode ter o potencial de prever se uma pessoa irá desenvolver sintomas da doença de Alzheimer em 2 a 3 anos. Se esse achado se confirmar, este exame pode preencher uma lacuna enorme nas estratégias utilizadas para combater a degeneração cerebral típica da doença de Alzheimer, se sabe-se demonstrar seus sintomas somente quando já é tarde demais para um tratamento curativo ou regenerativo.

O exame foi identificado em um estudo preliminar envolvendo 525 pessoas com idades acima de 70 anos. Os autores identificaram dez tipos de gorduras do sangue (lipídeos) que distiguiram com acurácia de 90% que permaneceria normal cognitivamente e quem demonstraria os sinais da doença de Alzheimer. 

No entanto, somente 28 participantes apresentaram sintomas semelhantes aos da doença de Alzheimer, o que sugere que estes resultados devem ser replicados em estudos maiores para serem válidos. 

A doença de Alzheimer afeta 35 milhões de pessoas no mundo todo, e um meio de diagnóstico precoce antes de sua instalação ou antes de os sintomas começarem é uma arma poderosa para o desenvolvimento de meios de prevenção, cura e regeneração cerebral.

Os autores (cujo estudo original pode ser lido aqui) testaram as habilidades cognitivas e de memória dos participantes e pegaram amostras de sangue de todos eles, uma vez por ano por 5 anos. O plasma do sangue de 53 participantes com declínio cognitivo leve (uma forma de pré-doença de Alzheimer), incluindo 18 participantes que desenvolveram os sintomas durante o estudo, e 53 pessoas que permaneceram cognitivamente saudáveis. Eles descobriram 10 fosfolipídeos que estavam presentes em níveis consistentemente baixos no sangue da maior parte das pessoas que tinha, ou que viriam a desenvolver, a doença. 

Os autores desconhecem a fonte destas moléculas, mas sabe-se que elas estão presentes geralmente na membrana das células, sugerindo que a baixa concentração destes fosfolípides podem refletir a quebra das membranas neuronais. 

Apesar de ainda precisar ser validado em mais estudos, este teste é de fácil utilização, inclusive para avaliar grandes populações. 

Ou seja, um grande avanço no diagnóstico da doença de Alzheimer, mas que precisa ser avaliado melhor para ser usado como teste independente de diagnóstico precoce da doença. A cada passo, estamos cada vez mais próximos da cura desta doença que ceifa a vida e a mente de milhões de pessoas no mundo todo. 

sábado, março 08, 2014

Lesão axonal difusa ou LAD

Este post inspira-se no artigo publicado em março de 2014 por Sharp e colaboradores na revista Nature Neurology Reviews (leia original aqui). 

Nomes complexos são minha especialidade. E este é mais um deles. Lesão axonal difusa (LAD). Você sabe o que é isso, como se desenvolve, quando aparece, como se manifesta e por quê ocorre?

A LAD é produto de um traumatismo cranioencefálico (TCE), quando ocorre um choque, aberto (quando há abertura do crânio) ou fechado (quando não há abertura do crânio), do crânio contra alguma superfície, produzindo lesão cerebral. Exemplos de TCE são quedas com trauma da cabeça, traumatismos cranianos em acidentes de automóveis, o que ocorreu com o piloto Michael Schümacher, ou quando uma bala atravessa o crânio, entre várias outras situações.

O TCE pode produzir lesão cerebral local (como uma contusão, quando há trauma do córtex cerebral com  ou sem sangramento, ou a formação de hematomas) ou a LAD. 

O cérebro é formado por fibras e neurônios, As fibras são basicamente os axônios, as grandes terminações dos neurônios que trafegam de cima para baixo, de baixo para cima, e de um lado para o outro e de frente para trás, e de trás para frente. O cérebro, e em especial a substância branca, é cheio destas fibras, que o preenchem e formam seus tratos de fibras. Observe abaixo:

http://sciencedefined.files.wordpress.com/2012/01/brain-dti.jpg
O que você vê acima é uma imagem em tractografia, ou DTI, de um cérebro, mostrando todos os tratos de fibras que correm o cérebro em todas as direções. São estes tratos que sofrem lesão na LAD.

Um axônios, só para lembrar:

http://lh4.ggpht.com/--wzlwic8WeE/UmpPle74K5I/AAAAAAAAAQ4/ap7MFx15t-g/axon%252520and%252520densrites%25255B11%25255D.jpg?imgmax=800
Um axônio pode ser muito grande, e ter vários centrímetros de comprimento, Fora isso, um trato é formado por centenas, por vezes milhares de axônios. 

No trauma craniano, são estas grandes terminações, os axônios, que em um mecanismo de aceleração-desaceleração (falaremos mais disso abaixo), sofrem lesão, ou perda da camada de mielina, ou lesão de suas estruturas internas, além de lesão de vasos que passam por ali e suprem os nervos. A força mecânica que impacta sobre estas estruturas causa rotação do eixo dos axônios, o que leva à destruição dos filamentos, o pequeno esqueleto de proteínas, que forma a estrutura interna dos axônios, podendo haver lesão axonal, morte neuronal, inflamação, degeneração local e à distância, e isquemia, perda de suprimento de sangue, por lesão dos vasos sanguíneos. Ou seja, é muita coisa. 

http://weillcornellbrainandspine.org/sites/default/files/concussion-lg.jpg
Uma bela imagem do mecanismo da LAD é vista acima. Na transição entre a substância branca e a cinzenta (o local mais comum de ocorrência da LAD), o evento de uma desaceleração brusca acaba por levar a rotação das fibras axonais que trafegam pelo cérebro, levando a eventual lesão axonal e hemorragia local por rompimento de estruturas vaculares, vasos. 

O que produz a LAD?

A LAD é produzida, geralmente, por um mecanismo de aceleração-desaceleração. E o que é isso?? 

Vamos falar de duas condições onde a LAD pode ocorrer. 

A primeira é quando ocorre um trauma craniano fechado contra alguma superfície, como um choque de umma estrutura contra a cabeça, intenso o suficiente para produzir uma lesão desse porte (quedas com batida da cabeça contra alguma superfície ou contra o chão, traumas com objetos contra a cabeça, e outras situações). Abaixo, um caso de trauma craniano contra uma superfície com o golpe (trauma em direção ao movimento) e contragolpe (a resposta do cérebro, banhado em líquido, à desaceleração brusca). 

http://static.bandbacktogether.com/media/images/2011/12/Coup-or-Contrecoup.jpg

Já a condição mais comum, e que permitirá entender a primeira, são os traumatismos por acidentes automobilísticos. Falaremos disso agora.

Imagine uma bola de acrílico ou plástico duro, transparente, com água dentro, e dentro da água um material qualquer, denso, e que preencha mais de 3/4 do interior da bola. Consideraremos este um modelo de nossas próprias cabeças, sendo o material o próprio cérebro. Imagine que este material está preso à parte de dentro da bola. Agora, imagine esta bola presa a uma haste de metal, firme, de modo que ela não pule, caia ou saia de sua posição. Coloque esta haste sobre uma superfície com rodas, e faça esta superfície andar por sobre o chão. Acelere o mais que puder, e espere o conjunto bater contra alguma parede. Observe a reação do material dentro da bola, ou seja, o cérebro. Com a aceleração, de acordo com as leis da física clássica (sim, o blog também é física), todo o conjunto estará rodando à mesma velocidade, superfície com rodas (que seria um carro), haste (que seria nosso corpo) e bola com água e o material denso dentro (que seria nossa cabeça com o líquor e o cérebro). Imagine agora uma parada súbita, brusca, uma desaceleração de todo o sistema. Como se comportaria nosso cérebro nessa situação?

Vamos agora imaginar uma situação real, uma pessoa dentro de um carro, acelerando. Imagine que este carro, agora em uma estrada a 100 km/h, sofre uma colisão com outro carro. Ou seja, uma parada súbita, brusca. O pescoço da pessoa não é rígido, mas flexível, e de acordo com a lei da inércia, ele se moverá de acordo com a intensidade da batida. Alerto a todos para que não façam isso em casa!!

Para entender melhor, imagine-se em um carro. O que ocorre quando você acelera o carro? Seu corpo vai para trás, pois este tende a manter o seu estado de repouso, ou seja, sua inércia. E quando ele para, o que ocorre com seu corpo? Ele vai para a frente, pois ele tende a manter, agora, o seu estado de movimento, ou seja a sua inércia.

Obseve abaixo:

http://www.animations.physics.unsw.edu.au/jw/images/gravity_files/bus1.gif


Acima, uma pessoa dentro de um ônibus. À esquerda, quando o ônibus acelera, a pessoa tende a se deslocar para trás. Quando o ônibus para, à direita, a pessoa tende a se deslocar para a frente. No dia-a-dia de nosso metrôs, ônibus e carros, a intensidade de deslocamento do corpo é pequena por que a aceleração e desaceleração dos veículos, ou seja, a variação da velocidade em relação ao tempo, também é pequena. É muita física para seu gosto? Tenho certeza que, além de entender mais sobre seu cérebro, você também vai entender por que você é jogado para o lado quando o metrô para bruscamente. 

Muito bem. Voltemos ao carro. A variação de velocidade em relação ao tempo em uma batida de carro é enorme, ou seja, a desaceleração (pois o carro para) é grande, e portanto, a intensidade do deslocamento do corpo também será proporcionalmente intensa. Em uma situação extrema, um carro a 100 km/h se chocando de frente com outro carro, dessa vez a 120 km/h na direção contrária, bate a uma velocidade de (100 + 120) km/h, ou seja, 220 km/h, e para quase que instantaneamente, produzindo uma variação de 220 km/h a quase 0 km/h em questão de menos de 2 segundos. Ou seja, uma variação estrondosa. E a cabeça, e consequentemente o cérebro, seguem essa variação de velocidade. 

Com esta desaceleração, o corpo vai para a frente, porque ele tem de manter sua condição prévia de aceleração, ou seja, sua inércia (desculpe se soo repetitivo, mas isso é necessário). E o pescoço também vai para a frente, com muita intensidade, o que pode produzir, inclusive, várias lesões do pescoço e da coluna, e da medula, cervical, sobre o que poderemos falar após. A cabeça acaba se deslocando com velocidade intensa, e o cérebro, preso ao crânio, também se desloca, mas em uma velocidade relativamente menor por conta da presença do líquor, do líquido que o banha, e que serve, entre outras funções, como suporte e proteção. Mas o cérebro segue o caminho contrário ao da cabeça, justamente por conta da presença desta líquido. A LAD acaba ocorrendo ou por conta dessa desaceleração, ou mais comumente quando a cabeça, em movimento intenso, choca-se contra a lateral ou a frente do carro, ou contra outra superfície como o chão em caso de aremessamento do corpo para fora do carro, levando a mais um trauma por desaceleração brusca. 

Como se manifesta a LAD?

Uma boa parte dos pacientes acaba por entrar em coma após o trauma, em parte pela destruição de várias fibras axonais que comunicam as várias áreas cerebrais. Mas também a inflamação que se segue à lesão dos axônios e ao sangue, inchaço cerebral e pressão alta na cabeça (hipertensão intracraniana) pelo trauma, eventual crise epiléptica pós-trauma, presença de outras formas de lesão e problemas clínicos como infecções, distúrbios de sódio ou cálcio, podem contribuir para o coma e sua manutenção. 

Uma tomografia de crânio pode ser normal, ou pode mostrar vários focos de microhemorragias espalhados pelo cérebro. 

http://www.learningradiology.com/caseofweek/caseoftheweekpix2008-2/cow315-1lg.jpg
Os pontos esbranquiçados dentro do material acinzentado (que é o próprio cérebro) deste paciente com LAD são hemorragias pequenas. 

https://encrypted-tbn1.gstatic.com/images?q=tbn:ANd9GcTwGgV3azB3g2fFcajkPRgCbSkJxp9RWFQyYucr-fweEsg6HbK6
Já este paciente não teve tanta sorte, e a quantidade e tamanho dos focos de sangramento foram grandes. Todas estas "bolas" esbranquiçadas, com um halo negro de inchaço, edema, ao redor são focos de sangramento.

Os pacientes que saem do coma costumam ter sequelas cognitivas que podem variar de intensidade a depender de muitos fatores, como intensidade do trauma, presença de outras lesões cerebrais, tamanho da lesão axonal e outros. Sequelas ocorrem mesmo nos casos mais "benignos", como alterações de memória, de raciocínio, de velocidade de processamento de informação, abstração, a problemas psíquicos, como transtornos de estresse pós-traumático, transtornos de ansiedade e depressão. 

A ressonância mostra melhor as lesões, especialmente uma sequência chamada de Gradiente Echo (GRE ou T2*), onde o cérebro aparece acinzentado, e focos de sangramento aparecem bem negros (o problema dessa sequência é que ela nãoo distingue tão bem sangue de depósitos de cálcio, as calcificações, e muitas vezes, na dúvida, uma tomografia deve ser usada pois faz bem essa diferenciação).

Observe abaixo:

http://api.ning.com/files/py5E2iOfdI9DJl*GBYp-eojiwrquqxbq0QldyYy8oR3EqECpnARohNiqCUF9QSkaOg3Gcx-Yvdu*ynmItk0XTDMhK1Ua06IS/RadswikiDiffuseaxonalinjuryGRE002.jpg?width=512&height=512

Com base no que eu falei acima, onde estão os focos de sangramento nesta ressonância em GRE?

Bem, é isso. Espero que tenha entedido.

Até o próximo post. 

segunda-feira, março 03, 2014

O cigarro em adolescentes - Novas evidências

Artigo retirado da revista Discover Magazine (leia aqui a íntegra em inglês), publicado em 3 de março de 2014, e traduzido livremente para o blog Neuroinformação.

O fumo pode alterar a esgrutura cerebal dos jovens


É sabido que fumar cigarros é ruim para sua saúde, mas jovens ainda estão escolhendo fumar mais do que qualquer outro grupo social nos EUA (e pelas minhas observações, no Brasil também). Os pesquisadores, agora, têm evidência que uma parte específica do cérebro varia entre fumantes e não fumantes, alteração esta que ocorre mesmo em jovens que estão fumando há pouco tempo.

Pesquisas prévias demonstraram modificações cerebrais entre fumantes e não fumantes adultos, mas poucos focaram no grupo mais jovem de fumantes, cujos cérebro ainda estão se desenvolvendo. O novo estudo indica que uma pequena parte de uma região cerebral chamada de ínsula (veja abaixo) é mais fina em jovens que fumam. 

http://upload.wikimedia.org/wikipedia/commons/1/12/Brain_lobes_-_insular_lobe.png
Acima, você vê o lobo da ínsula em vermelho, localizado por dentro do lobo temporal que foi removido. 

A ínsula é uma parte do córtex cerebral e está envolvido em moldar nossa consciência e emoções. A ínsula também abriga uma alta concentração de receptores nicotínicos (sim, há receptores cerebrais que se ligam a substâncias que se assemelham à nicotina, encontrada no cigarro), e que desempenham um papel crítico em gerar a necessidade do fumo. O estudo, publicado na revista Neuropsychopharmacology (leia o abstract em inglês técnico aqui) essa semana, focou nesta parte em particular do cérebro porque estudos prévios em adultos em ratos demonstraram que o volume e o tamanho da ínsula eram afetados pelo fumo.

Foi usada uma técnica investigativa de ressonância magnética funcional para comparar os cérebros de 18 fumantes e 24 não fumantes de 16 a 21 anos de idade, que haviam começado a fumar, em média, aos 15 anos de idade, e que em média fumavam 6 a 7 cigarros por dia (não muito, concordam?).

Os exames demonstraram que a espessura da ínsula direita estava mais diminuída nos fumantes. Quem havia fumando por mais tempo ou tinham uma necessidade maior do fumo, tinham a ínsula mais fina. 

Ou seja, o fumo tem relação com alteração da estrutura cerebral muito mais do que se pensa, e em uma idade ainda mais precoce caso o fumo seja iniciado precocemente, e isso tem relação ao vício em fumo. 

Mas o estudo não demonstrou se o fumo causou as variações. Pode ser que pessoas com ínsulas menores, já antes de fumar, têm maior probabilidade de iniciar o fumo por alguma razão ainda desconhecida. Mais estudos, com pessoas ainda mais jovens que nunca fumaram, diz a autora, devem ser realizados. Estes indivíduos seriam seguidos, observados, após eles terem começado a fumar, e poderia ser visto se, de fato, uma ínsula menor é um preditor de uma predisposição para iniciar o fumo.

Por outro lado, se provar-se que o fumo realmente diminui a espessura da ínsula, isso forneceria mais evidência dos malefícios do hábito de fumar, especialmente daquele iniciado em uma idade mais precoce. 

quarta-feira, fevereiro 19, 2014

Doença de Alzheimer e sua relação com pesticidas

Notícia tirada do site da Forbes (leia aqui) e traduzida de forma livre para o blog


Possível ligação entre exposição ao pesticida DDT e doença de Alzheimer


Um novo estudo publicado na revista JAMA Neurology (leia aqui o estudo na íntegra, em inglês técnico) sugere que altos níveis de DDT, pesticida usado no combate ao mosquito transmissor da malária, pode estar ligado ao desenvolvimento da doença de Alzheimer. No entanto, o estudo foi pequeno, avaliou pacientes retrospectivamente (ou seja, que já tinham a doença de Alzheimer) e teve conclusões pouco dúbias. 

Mas, como já atestado em vários outros artigos, há certamente uma possibilidade de que este pesticida contribua para a doença de Alzheimer em pacientes geneticamente predispostos (é bom lembrar que pesticidas, como o paraquat, podem contribuir para o surgimento a doença de Parkinson, outra doença neurodegenerativa).  O DDT foi banido dos EUA em 1972, mas ainda é usado em outros países (no Brasil, ele foi proibido em 2009 (ANVISA). 

O estudo contou com 86 pacientes portadores de doença de Alzheimer e 79 pacientes sem a doença (controles), e foram medidos os níveis de uma substância que é produzida a partir da metabolização do DDT no corpo, o DDE (diclorodifenildicloroetileno) (link). Pessoas que possuíam níveis de DDE no sangue altos tinham 4 vezes mais chance de ter doença de Alzheimer. Mas como costumamos ver em estudos clínicos, nem tudo são flores. Havia pessoas com doença de Alzheimer e baixos níveis de DDE, e pessoas com altos níveis de DDE e sem doença de Alzheimer. Ou seja, há mais do que toxinas aqui. E como sabemos, genética é uma destas coisas. 

Pessoas com predisposição genética a desenvolver a doença de Alzheimer têm mais chance de ter a doença se expostos ao pesticida. De fato, pessoas com níveis altos de DDE e que possuíam a alteração genética mais comum que predispõe à doença de Alzheimer, a variante do gene da APOE ε4 (Apolipoproteína E epsilon 4), tiveram performance menor em testes cognitivos que pessoas sem a mutação genética. Ou seja, interação entre o ambiente e fatores genéticos. Bingo!

Mas ainda assim, a conexão entre a doença de Alzheimer e fatores genéticos é alarmante. O estudo aponta para mecanismos possíveis por trás desta ligação. Tanto DDT como DDE aumentam os níveis da proteína precursora do amilóide nos neurônios, que acaba por se desenvolver em beta-amilóide (a marca registrada da doença de Alzheimer). 

Mas mais estudos são necessários para fechar esta conexão tão importante. Sabermos se houve exposição pregressa a agrotóxicos juntamente com o conhecimento de predisposição genética pode determinar, no futuro, quem está em risco de ter a doença. 

domingo, janeiro 26, 2014

Dicas de consulta para os pacientes 4

Vamos abordar algumas dicas que poderão tornar a consulta com o especialista, entre eles o neurologista, mais eficiente e mais dinâmica. 

Em termos de dormência, aquela sensação de que há algo por sobre o membro, ou o membro está pesado sem fraqueza, ou há sensações de algo "pinicar", o que o paciente precisa observar em si próprio para falar ao médico:

1. Onde se localiza a dormência?

Estes sintomas, em geral, ocorrem mais nas pernas, mas há sintomas de dormência na cabeça, rosto, boca, lábios, membros superiores e mesmo tronco. Muitas vezes, como em um derrame, um paciente pode sentir dormência em todo um lado do corpo, da cabeça aos pés. Lesões dos nervos que saem da coluna (os nervos periféricos) podem dar dormência em locais específicos que correspondem ao território da pele que aquele nervo inerva. Observe abaixo os territórios dos principais nervos dos braços e pernas:

http://www.pitt.edu/~regional/Axillary%20Block/AxillaryPicture10.jpg
http://upload.wikimedia.org/wikipedia/commons/b/bf/Gray826and831.PNG
O que você observa acima (não precisam decorar as figuras, ok?) é que há vários nervos indo para os braços e pernas, e quando a dormência, ou uma perda de sensibilidade, ocorre em uam região específica de um braçou ou de uma perna, pode estar acontecendo uma doença de um nervo específico. É muito importante saber disso, pois as causas e os tratamentos mudam dependendo do local dos sintomas. 

Já dormências de ambas as pernas, ou de ambos os braços, podem ser mais graves a depender de quando começaram e de sintomas que possam estar presentes em conjunto. Abordaremos isso logo. 

2. Há quanto tempo o sintoma existe?

Essa pergunta, juntamente com a pergunta anterior e a próxima, pode ajudar a determinar um diagnóstico da localização do problema, e talvez de sua causa, na maioria dos casos. Uma dormência que começou há 5 minutos, ou há menos de 1 hora pode significar uma lesão mais séria, como um derrame, especialmente se a dormência for de um lado do corpo. Estes casos devem ser avaliados com urgência, em especial em serviços de emergência ou pronto-socorros, pois podem ter tratamento se diagnosticadas imediatamente. Já uma dormência que começou há vários meses ou anos, talvez seja mais benigna, e pode ser avaliada de forma mais tranquila. Uma dormência em ambas as pernas que começou há algumas horas pode ser uma doença da medula, especialmente se vier com fraqueza de ambas as pernas e alteração da bexiga ou do reto (incontinência ou retenção de urina ou fezes). Ou pode ser uma doença das raízes dos nervos, a famosa síndrome de Guillain-Barré. Estes casos também devem ser avaliados de forma urgente. 

Algo também bastante pertinente. Evite sempre falar que o sintoma começou há algum tempo, ou há muito tempo, ou que "sempre tive esse sintoma". Isso não informa nada ao médico. Você deve ser preciso na resposta: O sintoma começou há 2 horas, há 1 semana, há 2 meses, há 4 anos. Mesmo que seja uma aproximação. 

Também é interessante saber se a dormência é contínua ou vai e volta. Se ela vai e volta, o que causa a dormência? E o que melhora? Posições específicas dos braços, pernas, situações como estresse, ansiedade, causam a dormência? Ou não há nada a ver? Há hora para a dormência vir? È mais comum em que horário do dia? O que você está fazendo quando a dormência aparece? Há relação com algo que come, ou algum medicamento que toma?

3. Há sintomas associados?

A dormência vem sozinha? O que mais veio ou vem com ela? Fraqueza existe? Se sim, onde e há quanto tempo? Quem começou primeiro, a dormência ou a fraqueza? Da mesma forma que a fraqueza, observe outros sintomas como desequilíbrio, perda de sensibilidade, incoordenação de braços ou pernas, perda de visão, dor de cabeça, dor em algum lugar do corpo, dificuldade de urinar ou urina saindo na roupa. 

4. Doenças existentes em si mesmo e nos seus familiares, e medicamentos que usa.

Essas informações são de suma importância, pois podem ajudar a determinar a causa da dormência. Uma pessoa que começou uma dormência de um lado do corpo há 1 hora, e que tem pressão alta e diabetes não controlados, provavelmente está tendo um derrame. Da mesma forma, há medicações que podem causar dormência. Todos os remédios que você usa devem ser conhecidos pelo médico, com dosagem e horário de uso, e há quanto tempo você usa cada um. Além disso, o médico deve saber de todas as doenças que você tem, se as trata e como, e das doenças mais comuns na sua família. Muitas doenças familiares indicam um componente genético, e você pode ter herdado este componente genético. Logo, é importante saber as doenças mais comuns em sua família. 

Por enquanto é só. Voltaremos com mais dicas para uma boa consulta médica. 

quinta-feira, janeiro 16, 2014

Álcool e memória

Notícia tirada da revista Time de 15 de janeiro de 2014.

Homens de meia idade que bebem 2,5 doses de bebida alcóolica por dia podem acelerar a perda de memória em seis anos. Este achado foi feito em um estudo publicado ontem, dia 15 de janeiro, na conceituada revista Neurology, da Academia Americana de Neurologia (link).

O estudo, feito por pesquisadores da University College de Londres, e liderado por Séverine Sabia, avaliou os hábitos alcóolicos de 5054 homens e 2099 mulheres em três diferentes momentos durante um período de 10 anos. Quando os participantes fizeram 56 anos de idade, eles se submeteram ao primeiro de uma série de três testes de memória e funções executivas (leia mais sobre isso aqui) que seriam feitos durante os 10 anos do estudo.

Os homens, segundo os pesquisadores, que bebiam uma média de 2,5 doses por dia mostraram sinais de perda de memória mais cedo do que os homens que bebiam menos que isso, ou do que homens que não bebiam.

Mesmo após os pesquisadores terem eliminado os fatores que afetariam a memória, como dieta ou hábitos de exercício físico, manteve a relação de perda de memória com consumo de álcool. Entre as mulheres, também houve resultado parecido.

Os pesquisadores classificaram doses como de vinho, cerveja ou destilados, sendo que bebedores de destilados, como vodka, gim ou uísque, tiveram declínios mais acentuados de memória, não pareceu haver diferença entre os bebedores de vinho ou cerveja.

O estudo, embora não sendo 100% original, demonstra o quão pouco de álcool é necessário por dia para causar um grande impacto na vida do indivíduo. Os pesquisadores acreditam que o álcool, de alguma forma, interfere com o fluxo sanguíneo cerebral. Fora isso, já se sabe que álcool em excesso pode levar a danos e morte neuronal.

Por que o cérebro das meninas amadurece mais rápido do que o dos meninos?

Em uma pesquisa publicada em dezembro de 2013 na aclamada revista Cerebral Cortex (link) publicada por Sol Lim e colaboradores da Universidade de Newcastle, UK, descobriu-se que os cérebro de meninas reorganizam-se e amadurecem (evoluem e organizam suas conexões) mais cedo do que os cérebro de meninos da mesma faixa etária. 

No estudo, 121 pessoas entre 4 e 40 anos de idade foram escaneados com ressonâncias magnéticas usando-se uma sequência em que é possível visualizar as conexões e ligações entre os neurônios, chamada de DTI ou tractografia, documentando-se a ida e vinda das conexões (as conexões cerebrais são constantemente rearranjadas e podadas de forma a facilitar e organizar as relações entre os neurônios e aumentar a capacidade cerebral, além de fornecer base para a neuroplasticidade). 

Neste estudo, descobriu-se que algumas fibras que fazem a conexão entre áreas distantes do cérebro permanecem relativamente estáveis entre as idades e sexos, enquanto que conexões mais curtas, entre neurônios próximos, muitas sendo até mesmo redundantes (mais de uma para fazer a mesma função) foram modificadas. E esta reorganização, tão necessária para o amadurecimento cerebral, parecia ocorrer mais precocemente nos cérebro de pacientes do sexo feminino.

Mulheres também tendiam a ter mais conexões através dos dois hemisférios cerebrais (ligando as regiões simétricas de cada lado). Os cientistas acreditam que esta reorganização mais precoce torna o cérebro feminino mais eficiente em seu trabalho, e assim alcançando um estado mais maduro para processar, entender, o ambiente. 

Mas o que os cientistas não sabem é o que direciona esta diferença entre os sexos. 

Isso já era intuitivamente conhecido entre os cientistas, mas agora tornou-se cientificamente comprovado. 

Fonte - Revista Time 19/12/13

quarta-feira, janeiro 01, 2014

Toxina botulínica no tratamento da esclerose múltipla

A esclerose múltipla (EM) é uma doença já descrita há décadas, e cujo tratamento vem se aprimorando ao longo dos últimos anos. Inicialmente pensava-se ser a EM uma doença somente inflamatória, com destruição da bainha de mielina dos nervos do cérebro e da medula; no entanto, pesquisas mais recentes têm demonstrado ser a EM uma doença também degenerativa, com morte de neurônios. Isso levou a uma onda de pesquisas visando não somente impedir a destruição da bainha de mielina, mas evitar a morte neuronal que ocorre ao longo da doença. 

Um dos meios mais interessantes de alcançar estes objetivos é o diagnóstico e o tratamento precoces. O tratamento específico para a doença, incialmente feito com os interferons beta 1a e 1b (Avonex, Rebif e Betaferon), evoluiu para o uso do acetato de glatirâmer (Copaxone), e mais recentemente, o uso de outros imunomoduladores, como o fingolimod (Gylenia), e outras medicações ainda não disponíveis no Brasil, como a cladribina e o laquinimod. Fora estes tratamentos, o uso de imunossupressores, como a azatioprina e a ciclofosfamida, além da mitoxantrona, e mais recentemente o uso de anticorpos monoclonais, como o natalizumab e o rituximab para formas mais severas vem mudando a cara da história natural e da evolução da doença.

No entanto, muitos pacientes, mesmo com todas estas formas de tratamento, ainda apresentam surtos, e alguns surtos podem deixar sequelas. Como há a destruição de fibras de substância branca no cérebro e na medula espinhal, uma das sequelas é a espasticidade

Espasticidade é o aumento do tônus, ou seja, da resistência muscular ao movimento de um membro, muitas vezes levando o membro a assumir uma postura fixa, mantida, dolorosa e que pode levar a mais problemas, como encurtamento de tendões de músculos e lesões de articulações (as juntas). Observe exemplos de espasticidade abaixo:

http://www.physiofunction.co.uk/Uploads/Image/articles/Spasticityafterstroke.jpg
https://encrypted-tbn1.gstatic.com/images?q=tbn:ANd9GcTf5cGMzkZJ2Wv-1Pw5puax_9u3uOVPnaWKGd1ziucGNUUy2_ksmA
http://farm9.staticflickr.com/8322/7977095006_07296e9c52_z.jpg

Veja que a espasticidade pode afetar qualquer membro, e mesmo vários membros, como no caso de lesões da medula espinhal acima dos braços (acima da quinta vértebra cervical, ou C5).

A espasticidade responde a várias formas de tratamento, mas vai ficando mais problemática à medida que é deixada de lado e não é tratada de forma adequada o mais precocemente possível. Quanto mais cedo o início do tratamento de um quadro espástico, melhor, pois sequelas mais severas como encurtamento de tendões e lesões articulares desenvolvem-se ao longo do tempo, e caso já tenham ocorrido, o tratamento poderá ter que consistir de cirurgia. 

Um dos meios de tratamento da espasticidade consiste no relaxamento muscular, que permite o trabalho fisioterápico e outros meios de reabilitação. Imagine um membro completamente espástico, endurecido, difícil de mover, e um fisioterapeuta tentando mover este membro. Pense numa dificuldade!!!

Pois é! Com o uso da toxina botulínica, pode-se alcançar este relaxamento muscular. A toxina possui como função relaxar os músculos, impedindo a sua contração. O papel dela é justamente enfraquecer os músculos por 3 a 4 meses. Neste período, é possível iniciar um programa de fisioterapia, segui-lo e auxiliar o paciente a tentar readquirir funções com o membro incapacitado. Fora que o uso da toxina diminui as chances de sequelas ortopédicas mais graves, como encurtamento de tendões musculares e lesões articulares.

Interessante, não?

E como é usada a toxina? Há vários posts neste blog sobre a toxina botulínica e seu uso nas várias síndromes de espasticidade e outras doenças neurológicas. Leia sobre isso aquiaqui e aqui.


domingo, dezembro 01, 2013

Mecanismos de ação - Como age a aspirina na prevenção do derrame?

A aspirina, ou ácido acetilsalicílico, é uma medicação usada há mais de 100 anos (descoberta em 1829, quimicamente isolada em 1853 e comercialmente disponível a partir de 1899, alcançando popularidade durante a famosa epidemia de gripe espanhola após a Primeira Guerra Mundial - leia mais aqui). O seu uso na prevenção de derrames se iniciou entre as décadas de 60 e 80 do século passado. 

A aspirina além de um potente anti-inflamatório é, hoje, a droga mais comumente usada na prevenção de AVC's no mundo. Mas como a aspirina age? Antes de conhecermos o mecanismo de ação da aspirina, temos de entender como se forma uma placa de ateroma, que pode acabar produzindo o derrame. 

Abaixo, conheça uma célula de extrema importância e que mora no seu sangue, a plaqueta:

http://wehelpwhathurts.homestead.com/platelets.jpg
As plaquetas são as responsáveis por uma parte da cicatrização de feridas e da coagulação do sangue. Como você vê acima, as plaquetas são células especializadas que aderem, grudam-se, umas às outras formando redes nas regiões lesadas dos vasos sanguíneos, ativando-se e liberando substâncias que ativam mais plaquetas ao redor, chamando-as para fazer a primeira linha de reparação do vaso e hemostasia (hemostasia é a parada de um sangramento).

Fora isso, e com a ajuda de outras substâncias liberadas pelo próprio vaso danificado, há a formação de um coágulo, que é formado por uma proteína chamada fibrina (que é ativada, ou seja, posta para funcionar, através de uma via, da qual poderemos falar depois, a via de coagulação). A fibrina liga-se às plaquetas, reforçando o agregado plaquetário e prendendo este conjunto de plaquetas à parede do vaso, danificada. Com a cicatrização, há a remoção deste agregado de plaquetas e fibrina.

Observe abaixo o que disse em uma figura:

http://cnx.org/content/m44804/latest/Figure_40_02_04ab.jpg
Em (a), o megacariócito é a célula da qual derivam as plaquetas (platelets). Em (b), fibrin clot é o coágulo de fibrina, formando-se na parede do vaso rompida.

Muito bem, adiante.

As plaquetas são, logo, fundamentais para a reconstrução da parede danificada de um vaso, e logo, para evitar sangramentos. Por isso que quem toma aspirina ou outros antiagregantes plaquetários tem tanto sangramento da gengiva quando escova os dentes, ou pequenos sangramentos da pele (as equimoses) quando batem em algo, ou mesmo espontaneamente.

Outro protagonista importante na formação da placa de ateroma, a famosa placa de gordura que se forma na parede dos vasos, é o próprio revestimento dos vasos, o endotélio. Observe abaixo:

http://faculty.stcc.edu/AandP/AP/imagesAP2/bloodvessels/endothelia.jpg
Acima, há o endotélio do vaso, a parte mais interna do vaso e que fica em contato com o sangue. O endotélio é formado por várias células que funcionam como um órgão separado, produzindo várias substâncias, em especial o óxido nítrico, que mantém o diâmetro do vaso e permite a circulação do sangue. Um endotélio saudável significa um vaso saudável.

http://www.chelationhealthproducts.com/images/diagram-endothelium.jpg
À esquerda, vemos um vaso saudável como um endotélio saudável. À direita, um vaso danificado, com uma placa de ateroma, de colesterol, formando-se na superfície interna do vaso e estreitando a luz do vaso, impedindo a passagem de sangue.

http://upload.wikimedia.org/wikipedia/commons/thumb/4/48/Carotid_Plaque.jpg/230px-Carotid_Plaque.jpg
Esta é uma placa de colesterol de verdade retirada de uma carótida que estava entupida. Feia, não?

Pois bem, há outro ator nesta comédia de erros. É o excesso de colesterol, mais especificamente o LDL, a Lipoproteína de Baixa Densidade ou colesterol ruim, que em excesso danifica o endotélio e se acumula na parede do vaso, provocando inflamação. Sim, inflamação. Inflamação esta que evolui ao longo dos anos, e que pode piorar com alguns adjuvantes a mais, como deficiência de vitaminas, cigarro (fumo!), pressão alta e diabetes descontrolado.

E qual é a célula que, atraída por várias substâncias inflamatórias produzidas no endotélio lesado, aumenta a placa e promove mais inflamação? A plaqueta, que vimos acima.

As plaquetas não aparecem no começo da formação da placa, como sugere um artigo publicado na famosa revista Circulation Research de 2002 (link). E mais, elas auxiliam na produção de uma proteína importante, a beta-amilóide 42, envolvida na doença de Alzheimer.

Fora isso, a relação entre as plaquetas e outras células inflamatórias encontradas nas placas de colesterol, como os macrófagos, acabam também por produzir radicais livres, que lesam ainda mais os vasos.

Logo, a plaqueta possui papel importante na manutenção da placa de ateroma e nos eventos isquêmicos (ou seja, nos derrames e nos infartos do coração), de modo que a inibição da agregação das plaquetas através de substância que se liguem a seus receptores diminuiria a frequência de doenças causadas pelas placas de colesterol.

Claro que os antiagregantes plaquetários, como a aspirina, mas também o clopidogrel e o cilostazol, não impedem tudo, pois como vimos, a presença das plaquetas ocorre quando a placa já está formada. Há a necessidade de evitar a formação da placa de colesterol através de hábitos saudáveis de vida, diminuir a inflamação vascular através de exercícios físicos, evitar o colesterol elevado através de dieta saudpavel, ou diminuir os níveis de colesterol, ou através de dieta, ou através do uso de estatinas, medicações utilizadas para este fim e que devem ser prescritas por médicos.

Por fim, não use aspirina ou qualquer antiagregante plaquetário sem orientação médica. Como toda medicação, a aspirina pode levar a sérios efeitos colaterais e mesmo alergias, e somente o médico ciente do seu problema tem a capacidade de julgar a necessidade do uso da medicação.

sábado, novembro 30, 2013

Sorteio do livro Ausência

O sorteio do livro Ausência produziu a seguinte ganhadora:

Professora Cristiane Cassaniga.

Parabéns, Cristiane.

Mande seu endereço para o e-mail sekeff@hotmail.com.

Mandaremos o livro essa semana, e o frete é por nossa conta.

quarta-feira, novembro 13, 2013

Mais sobre a substância cinzenta cerebral

Além do que já foi discutido no post anterior sobre o córtex cerebral, há no cérebro ilhas de neurônios, cuja função é filtrar tudo o que entra de informação no cérebro (odores, gosto, tato, sons, visão) antes de encaminhar as informações ao córtex cerebral para análise mais aprofundada, e refinar os movimentos produzidos no córtex cerebral, de forma que consigamos realizar movimentos grosseiros e finos com total harmonia e delicadeza.

Estas ilhas de neurônios são os núcleos cerebrais e de tronco cerebral.

Há vários destes núcleos, de forma que a substância cinzenta cerebral não está somente cobrindo a substância branca, mas se encontra dentro dela também.

Os principais núcleos são:

Os núcleos da base - Putâmen, caudato, globo pálido, substância negra, núcleo subtalâmico (leia mais sobre eles aqui).

O tálamo (leia mais sobre ele aqui).

O hipotálamo (leia mais sobre ele aqui).

Os núcleos do tronco cerebral - Aqui há vários agrupamentos nucleares de neurônios dentro do tronco cerebral, cujas funções são as mais diversas, dentre movimentação dos olhos, controle da respiração, do ato de engolir, da movimentação da língua e da boca, da sensibilidade espacial (localizar-se no espaço com os olhos fechados), da sensibilidade da face, entre outras funções.

Veja abaixo:

http://bradyonthebrain.files.wordpress.com/2013/10/cranial-nerve-nuclei-in-brainstem-schema-2.jpg
Acima você vê os nervos cranianos motores (em vermelho) e sensitivos (em azul) com seus núcleos (as expansões dos nervos dentro do tronco cerebral).

http://bedahunmuh.files.wordpress.com/2010/05/cranial-nerve-nuclei-in-brainstem-schema-1.jpg
Acima, a mesma figura vista de lado.

Há vários outros núcleos no tronco cerebral, dos quais falaremos após. 

E há os núcleos do cerebelo, claro:

http://kin450-neurophysiology.wikispaces.com/file/view/19.1.jpg/140453055/411x326/19.1.jpg
Acima, uma visão do tronco cerebral e do cerebelo por trás. Os núcleos cerebelares estão à esquerda, em roxo (núcleo fastigial, emboliforme e globoso (juntos foram o núcleo interpósito) e o núcleo denteado).

O córtex cerebral

A porção mais externa do cérebro, e que o envolve como uma malha, chama-se de cóirtex cerebral. A palavra córtex vem do latim cortex, que quer dizer "casca ou carapaça" (leia aqui).

O córtex é também chamado de substância cinzenta, por conta da cor meio marrom-acinzentada que ele apresenta nas preparações cerebrais (veja abaixo).

http://upload.wikimedia.org/wikipedia/commons/0/0c/Human_brain_right_dissected_lateral_view_description.JPG
Observe que a substância branca (a parte interna do cérebro) é toda coberta por uma capa que é facilmente distinguível, a substância cinzenta ou córtex cerebral. Apesar de possuir milímetros de espessura, o córtex cerebral possui 6 camadas entremeadas de neurônios e de fibras (axônios e dendritos), que ora saem destes neurônios para outras áreas do córtex e estruturas mais profundas do cérebro, ora chegam de várias regiões cerebrais a estes neurônios.

Observe as duas figuras abaixo, que mostram o seu córtex cerebral visto ao microscópio. 


http://thebrain.mcgill.ca/flash/d/d_02/d_02_cl/d_02_cl_vis/d_02_cl_vis_3a.jpg
http://chronopause.com/i293.photobucket.com/albums/mm55/mikedarwin1967/Feline-62a.png

Observe a quantidade de células e de fibras que sobem, descem e correm paralelamente à superfície do cérebro. São bilhões de fibras e células neuronais, associadas a células gliais de suporte e manuntenção da eletricidade cerebral, que juntas realizam toda a transmissão cerebral elétrica.

O córtex cerebral é completo, desenvolvido, e permite a integração entre várias regiões cerebrais distintas e a integração entre o próprio córtex e os núcleos de substância cinzenta existentes na profundidade do cérebro, o cerebelo e a medula espinhal.

Sem esta malha altamente intricada de fibras e células, nunca conseguiríamos o avanço científico, tecnológico, de linguagem e social que possuímos hoje.

Estudos demonstram que os animais mais próximos de nós, como macacos e outros animais como cachorros, porcos e gatos, possuem também córtices (esse é o plural de córtex) com 6 camadas, semelhantes ao nosso. 

A diferença é que nosso cérebro é disposto em inúmeras colunas de células ao longo das camadas, em número muito maior que nos outros animais. Ou seja, células que pertencem a camadas diferentes conectam-se entre si verticalmentem, formando colunas que servem para ações específicas dentro de uma região cortical. Há colunas celulares que são ativadas pela visão de linhas e bordas, outras são ativadas pela cor, outras que são ativadas pela visão de movimento, e assim vai, ao longo do córtex cerebral, de tal forma que uma função é trabalhada em partes, ao longo de várias camadas celulares, em várias colunas, tornando a análise e percepção do estímulo mais completos e complexos. 

Observe abaixo:

http://www.fizyka.umk.pl/~duch/ref/00/00-how-brain/column.gif
A figura acima, que demonstra a conexão e a passagem de estímulo entre várias células, demonstra à esquerda três colunas de células corticais. As colunas possuem, cada uma, as 6 camadas corticais, mas separam-se através de minúsculos espaços. As colunas são interconectadas entre si, permitindo a células que respondem a um estímulo conectar-se com células nas proximidades ou à distância que respondem a outros estímulos, de modo a tornar a percepção de estímulos algo bastante completo.

Ou seja, seu cérebro é todo conectado, tanto de cima para baixo e de baixo para cima, como de frente para trás e entre os lados. 

segunda-feira, novembro 04, 2013

Por que ocorrem as crises epilépticas? - Uma visão direcionada ao leigo.

Vamos tenta tornar o complexo simples.

Nosso cérebro, como todo o nosso corpo, funciona através de correntes elétricas minúsculas (cujas voltagens são medidas não em Volts, mas em miliVolts, que são 1 Volt dividido por 1000) produzidas por trocas de íons, átomos eletrificados. Os dois íons (átomos eletricamente carregados) relacionados à produção de energia elétrica na célula são os sódio (Na) e o potássio (K), que são íons positivos (cátions), ou seja, que necessitam de um elétron para alcançar a neutralidade elétrica. Outros dois íons são importantes, o cálcio (Ca) e o cloro (Cl). O cálcio é um íon positivo que necessita de dois elétrons para sua neutralidade, e o cloro é um íon negativo, ou um ânion, que necessita doar um elétron para alcançar a neutralidade elétrica.

Nas células, o potássio existe em maior quantidade do que o sódio, que abunda nos espaços entre as células (extracelulares). Da mesma forma, o cálcio e o cloro são mais importantes fora do que dentro da célula. Nas células, ocorrem alterações de trocas entre o sódio e o potássio que não chegam a produzir uma corrente elétrica (o sódio entra e o potássio sai da célula, mantendo assim o potencial, a diferença de carga entre o dentro e o fora da célula, que é de - 70 mV, ou seja, a célula é negativa em relação ao meio onde ela está). No entanto, quando estas trocas de íons são grandes o suficiente, há a produção de um potencial de ação, que é justamente a maneira como as células em várias regiões do corpo se comunicam e trocam substâncias entre si (leia mais sobre o potencial de ação aqui).

Um neurônio é uma célula ultraespecializada em conduzir estímulos elétricos (potencial de ação) através de suas ramificações (dendritos e axônios - leia mais sobre isso aqui). E há vários tipos de neurônios, que produzem e transmitem várias tipos de substâncias que agem em vários locais diferentes.

Como já falado em post sobre as sinapses neste blog, os neurônios se comunicam através destas pela abertura/fechamento e estimulação de proteínas localizadas nas membranas celulares, os receptores. Vários receptores existem, e cada um deles sofre alteração por contato e ligação com substâncias chamadas de neurotransmissores.

Da mesma forma, há centenas de neurotransmissores diferentes, mas os mais importantes são:

1. Dopamina
2. Acetilcolina
3. Serotonina
4. Noradrenalina
5. Substância P
6. Encefalinas
7. Ácido gama-aminobutírico (GABA)
8. Glutamato
9. Glicina

Há vários outros neurotransmissores. Alguns destes inibem a ação dos neurônios onde agem (neurotransmissores inibitórios, como a glicina e o GABA) e outros estimulam os neurônios (os neurotransmissores excitatórios, sendo o mais comum o glutamato).

Os neurônios GABAérgicos (que contêm GABA) são assim didaticamente chamados de inibitórios, e os que contêm glutamato (glutamatérgicos) de excitatórios.

Muito bem, entendendo até aqui? Vamos continuar.

Como falei antes, os neurônios comunicam-se através de impulsos elétricos, cuja duração, tamanho, sequência de estímulos, e outros fatores, determinam o tipo de informação que está sendo carreada. Os neurônios formam malhas neuronais, agrupamentos de células unidas através de sinpases, e cada neurônio pode fazer centenas a milhares de sinapses com outros neurônios próximos. E cada neurônio comunica-se através de um tipo de neurotransmissor, o que indica que em uma malha, há neurônios inibitórios, excitatórios e neurônios que modulam as descargas de outros neurônios.

Os neurônios não se comunicam de forma aleatória. Na verdade, as malhas neuronais possuem um fim, ou seja, a estimulação, ou inibição, de uma via inicial leva a ativação, ou inibição, de neurônios em várias camadas, cuja função é estimular, ou inibir, uma via neuronal final levando a uma ação que pode ser motora (levar um copo à boca, por exemplo), sensitiva (sentir um odor de uma flor, por exemplo), visual (correlacionar imagens com conhecimentos prévios, como exemplo), comportamental (o ato de dormir, como um bom exemplo), cognitiva (pensar, memorizar, raciocinar, e outros atos cognitivos) e outras ações.

Abaixo, uma malha neuronal ligando várias áreas cerebrais em prol de uma ação específica:

http://www.neuroscience.cam.ac.uk/uploadedFiles/mg03_phpGBaO4B.JPG
Entendendo até agora? Podemos manter o barco navegando? Vamos lá.

Além dos neurônios, outras células podem agir no meio celular eletrificado do cérebro. Estas células são as células gliais, mais especificamente os astrócitos, células que possuem várias funções, como suporte nutricional e de defesa neuronal, controle de entrada de substância no cérebro através da barreira hematoencefálica, controle da carga elétrica neuronal, e outras várias funções essenciais, e sem as quais não haveria funcionamento cerebral adequado.

Os níveis de cálcio, potássio e sódio dentro e fora dos neurônios, e dentro e fora das células gliais, é mantido às custas de mecanismos incrivelmente arranjados de forma a propiciar um equilíbrio elétrico celular e uma homeostase (equilíbrio) perfeita. Estes íons (átomos eletricamente carregados) são trocados de forma a manter a atividade neuronal oscilando (sim, a atividade neuronal não é estática, mesmo no sono, mas oscila entre estados ativado, despolarizado, e inativado, repolarizado a hiperpolarizado; leia sobre o potencial de ação, e você entenderá o que estou falando). A função elétrica das células da glia é manter a funcionalidade dos neurônios, através da modulação de sua excitabilidade (deixar o neurônio mais ou menos excitável).

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Acima, um astrócito ligado a um neurônio.

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Acima, a demonstração da atividade oscilatória cerebral.

Antes, até há alguns anos, pensava-se que as crises epilépticas eram causadas por um aumento das respostas excitatórias neuronais, e uma falta de neurônios inibitórios, uma visão bastante simplista da realidade.

Na realidade, o problema é bem diferente desta visão minimalista.

Pensemos o cérebro como um meio cheio de neurônios eletricamente carregados, trocando sódio, potássio, cálcio e cloro com o meio externo; células gliais, desesperadas tentanto diminuir as concentrações de cálcio e potássio do meio em que ficam os neurônios para evitar instabilidades elétricas; e os próprios íons, cálcio, potássio, sódio e cloro, sendo trocados de forma passiva e ativa.

Alterações nas concentrações de potássio, e possivelmente cálcio, dentro e fora da célula, desencadearia correntes de oscilações (que, em última análise, seriam as próprias crises) que se espalhariam pelo córtex de forma sincrônica, algo bastante comum em crises epilépticas, e este espraiamento ocorreria não através dos próprios neurônios, mas através das células de suporte, as células da glia, que tamponam, ou seja, acumulam em si os excessos de íons (especialmente o potássio) ao redor dos neurônios. Ou seja, a propagação de uma crise em um local (focal) para outro, e logo para todo o cérebro (generalização) não ocorreria, provavelmente, através de sinapses, mas através de junções elétricas entre as células da glia, as chamadas gap junctions, por onde o espraiamento elétrico é mais fácil e rápido.

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Nesta linda figura acima, vê-se dois astróscitos unidos pelas gap junctions, fazendo suporte a duas sinapses entre três neurônios, e mantendo o equilíbrio de potássio (K+) no meio extra celular e dentro dos vasos (blood vessels).

A atividade epiléptica é tóxica para os neurônios, e esta leva à liberação de neurotransmissores excitatórios, principalmente o glutamato, levando a maior concentração de cálcio e mais ativação neuronal, alimentando um círculo vicioso que deverá ser parado, em última análise, pela função das células da glia, que tentarão "limpar o ambiente".

Mas como as células gliais entram neste estado de função alterada, podendo auxiliar no desencadear de crises epilépticas?  A propagação e generalização das crises relacionapse com a desregulação do potássio extraneuronal. Já as crises em si podem ocorrer a partir da abertura da barreira hematoencefálica (a barreira formada pelos astrócitos, e que impediria a entrada de qualquer molécula ou substância no cérebro), o que levaria a uma cascata de eventos começando pela ativação dos astrócitos, alteração dos receptores de potássio nos astrócitos, dificultando as correntes de correção de potássio do meio extracelular, e prejuízo da contenção deste excesso de potássio, levando à formação de oscilações que se propagariam entre os neurônios e astrócitos ao redor, ou seja, a um foco epiléptico, que pode ou não se generalizar.

Este é o conhecimento atual simplificado, retirado do livro Oxford Textbook of Epilepsy and Epileptic Seizures, de Shorvon e colaboradores, publicado pela editora Oxford, em 2013.

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