domingo, novembro 09, 2014

A neurologia e Aristóteles




http://upload.wikimedia.org/wikipedia/commons/c/c0/Aristoteles.jpg
Leia o post anterior para entender este.

Aristóteles nasceu em 384 a.C.na Grécia, de uma família de médicos. Seu pai havia sido médico do rei da Macedônia, Amyntas II, mas morreu jovem. Aristóteles deve ter recebido educação de colegas médicos de seu pai. Ele estava sendo educado para ser médico, e como todo médico da época, deveria ter uma boa cultura geral, de modo que aos 17 anos, ele foi encaminhado à escola de Platão, a Academia, em Atenas, onde ficou por 20 anos, e no entanto, nunca começou seu treinamento médico.

Em 347 a.C., com a morte de Platão, Aristóteles deixou Atenas e foi para a ilha de Lesbos. O filho de Amyntas II, Felipe II, novo rei da Macedônia, apontou-o como tutor de seu sobrinho, Alexandre, até a idade dos 16 anos, quando este tornou-se regente da Macedônia, passando para a história como Alexandre, o Grande, e devido aos seus conhecidos empreedimentos bélicos e às suas conquistas, passou a ter pouco tempo para atividades acadêmicas. Em 335, Aristóteles acabou por retornar para Atenas, fundou uma nova escola, e um centro de pesquisas, o Liceum, que recebeu ajuda financeira de Alexandre, o Grande, que além disso, à medida que conquistava terras mais distantes, encaminhava a Aristóteles espécimens biológicas diversas. 

Alguns meses após a sua morte, em 322 a.C. (ele morreu nesse ano), Aristóteles teve de sair de Atenas por conta de facções anti-Alexandrinas. De acordo com alguns pensadores da época, Aristóteles era baixo, tinha dificuldade de falar o z e o s corretamente, sarcástico, arrogante, elegante e bem casado.

Muito bem, essa é uma visão história da vida de Aristóteles, o primeiro biólogo. Agora, examinemos suas visões acerca do cérebro, que causaram furor e espanto a vários médicos e historiadores medievais, como o famoso Galeno de Pérgamo. 

Seguindo linha própria, Aristóteles acreditava que o coração, e não o cérebro, era o centro das emoções e dos movimentos. Seus argumentos procediam dessa forma:

O coração sofre com as emoções; todos os animais têm coração ou algo semelhante; o coração é a fonte de sangue, que é necessário para as sensações; o coração é quente, característica de uma vida superior; o coração é conectado com todos os órgãos dos sentidos e músculos via vasos sanguíneos; o coração é essenvial à vida; o coração é fromado primeiro e é o último a parar de funcionar; o coração é sensível; o coração localiza-se centralmente no corpo, apropriado para seu papel central.

Do cérebro, ele falava:

O cérebro não é afetado pelas emoções; nem todos os animais o possuem, mas mesmo estes sentem emoções; o cérebro não tem sangue; o cérebro é frio; o cérebro não se conecta aos órgãos dos sentidos; o cérebro não é essncial à vida; o cérebro é formado depois; o cérebro é insensível, e não se localiza em posição privilegiada.

Sabemos, hoje, que nada disso é verdade, mas era o que se pensava à época, em uma era onde dissecções eram raras e o conhecimento anatômico não era acompanhado do conhecimento de fisiologia, o funcionamento, dos órgãos. 

Aristóteles conhecia os argumentos dos filósofos antes dele, mesmo os de Platão, sobre o cérebro ser o local dos sentidos, emoções e movimentos, e chamava-os de falaciosos. Aristóteles acreditava que o cérebro servia somente para esfriar o sangue, e por isso, a falta de carne ao seu redor (os defensores da visão cerebral afirmavam que a falta de carne devia-se a facilitar a entrada das sensações ao cérebro). Da mesma forma, quando indagado por que os órgãos do sentido, como os ouvidos e os olhos, ficam tão perto do cérebro, Aristóteles afirmava que como o cérebro é fluido e frio, o olho é parecido com o cérebro em matéria, e por isso deveriam ficar próximos um do outro. Já o ouvido ficam dos lados para receber sons de todos os lados do corpo, e há animais que ouvem e sentem cheiro e não possuem seus sentidos na cabeça. 

Essa visão aristotélica foi ridicularizada na Idade Média. No entanto, Aristóteles afirmava que o cérebro só perdia para o coração em importância, e era essencial para o funcionamento correto do coração. O coração, quente, deveria ser contrabalançado pelo cérebro, frio. 

E qual o motivo aristotélico de o cérebro ser frio?

O sangue dentro dele é fino, puro e facilmente esfriável; os vasos dentro e fora do cérebro são muito finos, e permitem a evaporação e o seu esfriamento; e quando o cérebro é aquecido, e a água dentro dele evapora, permanece somente uma matéria dura, indicando que o cérebro é feito de água e terra, amos intrinsecamente frios.

Quando o cérebro esfria o vapor que chega do coração, forma-se o fleugma. Aliás, a glândula pituitária, ou hipófise, deriva seu nome do latim pituita, que quer dizer fleugma. 

De acordo com Aristóteles, o cérebro humano é o maior e mais úmido porque o coração humano é o mais quente e mais rico, e assim, a inteligência superior do homem depende de um cérebro grande para poder esfriar o sangue e o coração suficientemente para uma boa atividade mental. Aristóteles acreditava que o cérebro da mulher é menor que o do homem (foi ele quem disse isso!). Aristóteles não renegava o cérebro a segundo plano, como afirmava Galeno, mas o colocava em uma posição inferior ao coração, mas afirmava que a mente só funcionaria com o bom funcionamento do cérebro.

Apesar de todo o seu conhecimento e suas descobertas para a época, e apesar de vários filósofos antes dele, Aristóteles mantinha uma visão completamente diferente de todos os outros com respeito ao cérebro e suas funções. Aristóteles nunca estudou o homem com doença cerebral, enquanto Hipócrates e Alcmeon eram médicos, e viam o que acontecia quando havia lesão cerebral. Ou seja, estes afirmavam com superioridade clínica, ao passo que Aristóteles, tendo evitado a carreira médica, afirmava com a arrogância (que me perdoem os aristotélicos) de quem afirma sem nunca ter visto. E os acidentes eram as únicas fontes de informação sobre o que o cérebro fazia, em uma época quando os experimentos clínicos não existiam (somente com Galeno de Pérgamo, no século II d.C., que experimentos e dissecções começariam a ser feitos de forma sistemática). Mas Aristóteles chegou a afirmar que a doença mental pode ser derivada de um malfuncionamento da função de esfriamento do cérebro

Aristóteles dissecou 49 espécies animais, mas nunca o fez em um ser humano. Ele dissecou até elefantes, e dissecou vivos tartarugas e camaleões. Estes últimos animais eram frios (répteis, de sangue frio), o que pode tê-lo levado a formular suas teorias. Mas ele também dissecou vertebrados de sangue quente, como os elefantes citados acima, animais de sangue quente.

Aristóteles nunca se interessou por medicina, apesar ou devido ao seu pai. Aristóteles era um biólogo puro, e não utilizou seus conhecimentos na prática. 

E agora, vamos ao último post dessa viagem sobre os fundamentos neurológicos aristotélicos.

As bases filosóficas das visões aristotélicas sobre a neurologia

Este post é uma adaptação do artigo Aristotle on the Brain, de  Charles G. Gross, publicado na The Neuroscientist, 1995.

A biologia foi inventada por Aristóteles, um dos maiores filósofos da Grécia Antiga, contemporâneo e discípulo de Platão, e parte da tríade filosófica clássica (Sócrates - Platão - Aristóteles). Considerado o pai da anatomia comparativa (a comparação de órgãos e sistemas entre espécies, a fim de avaliar a evolução e as funções dos órgãos estudados), além do primeiro embriologista (embriologia é o estudo da formação do embrião de uma dada espécie, como a humana, da fecundação até o desenvolvimento fetal completo, além de suas doenças e malformações), o primeiro taxonomista (a taxonomia preocupa-se com a classificação dos animais, que pode ser em filos, classes, ordens, gêneros e espécies, conforme Carolus Linnaeus [1707 a 1778], o primeiro taxonomista moderno, cuja classificação é usada até hoje), o primeiro evolucionista (sim, Aristóteles já considerava teorias sobre evolução de espécies séculos antes de Charles Darwin), o primeiro biogeógrafo, e o primeiro estudioso sistemático do comportamento animal. Ufa!

Cerca de 25% do que Aristóteles escreveu, ele o fez sobre a biologia e os seus ramos. E assim, ele se tornou distinto de seu mentor, Platão. Fora isso, Aristóteles também escreveu sobre lógica, metafísica, arte, teatro, psicologia, economia, e política. Suas ideias sobre assuntos em física e biologia (incluindo a biologia humana) predominaram na idade média, sendo posteriormente suplantadas por novas ideias e conceitos derivados da experimentação e dos estudos modernos. 

Aristóteles não era perfeito, claro! E um dos seus maiores erros deveu-se justamente às suas ideias no campo da neurociência. Ele negava o controle do cérebro sobre as emoções e os movimentos do corpo, e acreditava que esta função era do coração. 

Mas por que? Bem, tudo começou bem antes de Aristóteles...

A filosofia já se preocupava com o funcionamento do mundo bem antes de Aristóteles. Filósofos pré-Socráticos, como Tales de Mileto e Anaximandro, por exemplo, no século 6 a.C. já imaginavam um universo dominado por leis fundamentais que poderiam ser entendidas pela razão. Um século após, a filosofia muda-se de Mileto na Grécia para três cidades distantes entre si, mas próximas do ponto de vista do pensamento filosófico, Crotona, no sul da Itália, Agrigentum, na Sicília, e Cos, na Turquia. Crotona, o local mais antigo, era local de moradia de um dos seus maiores habitantes, Alcmeon (em Crotona estava situada também a irmandade Pitagoreana, baseada nos ensinamentos de Pitágoras).

Alcmeon foi o primeiro a considerar o cérebro o local de geração das sensações e da cognição. Provavelmente, ele também foi o primeiro a realizar dissecções para responder a questões anatômicas. Alcmeon estudou profundamente a visão (como poderia ser estudada na época). Ele descreveu os nervos da visão, os nervos ópticos, e considerava que a luz adentrava por eles (é, mais ou menos!). Alcmeon estudou os olhos, e abrindo-os, descobriu que dentro deles havia água (na verdade, há um líquido chamado de humor aquoso). Ele ainda disse que dentro dos olhos havia luz (fogo), e que esta luz era necessária para visão (estas ideias, infelizmente equivocadas, embasaram as teorias da visão que persistiram pela Idade Média e pela Renascença). Essas ideias, no entanto, começaram a ser questionadas e posteriormente dadas como infudadas no meio do século 18.

Entre vários outros filósofos pré-Socráticos, que expandiram as ideias de Alcmeon sobre o cérebro, foram Demócrito, Anaxágoras e Diógenes. 

Demócrito ensinava que tudo no Universo era feito de átomos (do grego, a, ausência, e tomos, corte, ou seja, impossível de ser dividido) de tamanhos e formas diferentes. A psique (alma e mente), segundo ele, era feita dos átomos mais leves, mais esféricos e mais rápidos, e apesar de existirem no corpo todo, eram mais comuns no cérebro. Átomos levemente menos sofisticados, de acordo com Demócrito, existiam no coração, tornando-o o centro das emoções. Átomos ainda menos sofisticados existiam no fígado, o que o tornava o centro do apetite e da luxúria (ou seja, o cérebro ainda era visto com um órgão sem muitas qualidades, e boa parte de suas ações era relegada a outros órgãos). Platão, no entanto, utilizou estes ensinamentos de Demócrito para desenvolver a hierarquia das partes da alma, onde para ele não havia dúvidas da supremacia do cérebro sobre os outros órgãos, como ele mesmo disse, "é a parte mais divina de nós, e manda em todo o resto".

Empédocles, filósofo de Agrigentum, ensinava que, diferente de Alcmeon, o sangue era nosso meio de pensamento, e o grau de inteligência dependia da composição do sangue, o seja, o coração era o órgão central do pensamento, e o local das doenças mentais, já que este é o órgão que bombeia o sangue.

Essa ideias de colocar o coração como centro das emoções e do pensamento já vinham da Índia, Egito, Mesopotâmia e Babilônia, bem antes dos gregos. Essa visão ainda era corrente, até o século 20, entre povos americanos do Novo México que afirmavam pensar com o coração (fonte).

Já a ilha de Cos, na Turquia, era a casa de Hipócrates, considerado o pai da medicina. No entanto, pouco sobreviveu de seus escritos da época, perfazendo o Corpus Hippocraticus, que contem mais de 60 tratados, que variam muito em termos de estilo e nível técnico, não tendo sido escritos por um mesmo autor, e nem mesmo na mesma ápoca. Assim, não se sabe exatamente quais textos foram realmente escritos por Hipócrates ou por seus discípulos.  

Os hipocráticos consideravam o corpo humano divino, e assim não lhes era permitido fazer dissecções, sendo seus conhecimentos de anatomia pequenos. Procuravam sempre explicações naturais para os acontecimentos através de observações e estudos de casos (os pacientes que lhes eram solicitados atender). O trabalho hipocrático mais famoso para a neurologia é o "Sobre a Doença Sagrada", a epilepsia. Assim abre o tratado hipocrático:

Eu não creio que a Doença Sagrada
seja mais divina ou sagrada do que qualquer
outra doença, mas do contrário, tem
características específicas e uma causa definida...

É minha opinião que aqueles que primeiro
chamaram a doença de 'sagrada' eram os tipos de
pessoas que  agora chamamos de curandeiros,
médicos espirituais, e charlatães.
Estes são exatamente as pessoas que fingem
ser piedosas e particularmente sábias.
Através da invocação de um elemento divino
elas são capazes de demonstrar sua própria
incapacidade em dar um tratamento adequado e
assim chamaram a esta doença 'sagrada' para acobertar
sua ignorância sobre sua natureza.


O autor não duvidava que o cérebro era o local desta doença.  Com relação às funções do cérebro, a clareza de linguagem era semelhante:

Deve ser geralmente conhecido que a fonte
de nossos prazeres, felicidade, riso, e diversão, 
assim como de nossos ressentimentos, dores,
ansiedade, e lágrimas, não é nenhum outro além do
cérebro. É especialmente o órgão que nos permite pensar,
ver, ouvir, e distinguir o feio do belo, o mau do bom,
o agradável do desagradável... É o cérebro, também, que
é o local da loucura e do delirium, dos medos e fobias que nos
atormentam, frequentemente à noite, mas algumas vezes mesmo
de dia; é lá que fica a causa da insônia e do sonambulismo, dos
pensamentos que não virarão ações, dos trabalhos esquecidos, e das
excentricidades.

Além do mais, o autor afirma que nem o diafragma, nem o coração possuem quaisquer funções mentais, como foi clamado por alguns. Qual então é a causa da epilepsia? O autor continua, afirmando que ela ataca somente as pessoas com excesso de fleugma (um dos humores da teoria de Galeno) e muco, ou seja, as pessoas fleumáticas, indiferentes e apáticas. 

Caso... rotas para a passagem de 
fleugma vindo do cérebro sejam bloqueadas,
esta adentra os vasos sanguíneos... 
o que causa afonia, sensação de sufocamento, 
muita babação da boca, os dentes se trancam, e ocorrem
movimentos convulsivos das mãos; os olhos ficam fixos,
o paciente fica inconsciente e, em alguns casos, defeca.

Agora que você tem uma pequena base filosófica dos tempos pré-Aristotélicos, vamos a Aristóteles no próximo post.

sábado, novembro 08, 2014

TRATADO DE NEUROLOGIA da Academia Brasileira de Neurologia



Perguntas e Respostas
TRATADO DE NEUROLOGIA da Academia Brasileira de Neurologia

Finalista do Prêmio Jabuti 2014, Academia Brasileira de Neurologia lança livro de estudo essencial para prova de título de especialista.
Sessão de autógrafos será dia 11/11, em Curitiba, no
XXVI Congresso Brasileiro de Neurologia

Perguntas e Respostas - Tratado de Neurologia da Academia Brasileira de Neurologia é fundamentado na primeira obra nacional a apresentar todo o conteúdo referente à especialidade, em total consonância com a realidade brasileira: o Tratado de Neurologia da Academia Brasileira de Neurologia (ABN), finalista do Prêmio Jabuti 2014, maior reconhecimento do mercado editorial brasileiro.

Reunindo as principais dúvidas sobre a especialidade para revisão e atualização de conceitos fundamentais, além de ferramenta essencial na preparação para a prova de título de especialista da (ABN), Perguntas e Respostas será lançado no próximo dia 11/11, das 12h30 às 13h30, no estande da ABN, durante o XXVI Congresso Brasileiro de Neurologia, realizado em Curitiba (PR).
A sessão de autógrafos contará com a presença dos autores Dr. Osvaldo M. Takayanagui - professor titular do Departamento de Neurociências e Ciências do Comportamento da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto/USP – e Dr. Joaquim Pereira Brasil Neto, diretor científico da ABN e coordenador da disciplina Neurofisiologia Médica da Universidade de Brasília.

De forma didática e objetiva, o livro traz mais de 340 perguntas seguidas de respostas comentadas e várias ilustrações. O candidato à prova de título de especialista tem a oportunidade de testar seu conhecimento sobre todos os conceitos essenciais e atuais da Neurologia, e obter respostas detalhadas e explicações definitivas.
Perguntas e Respostas conta com a colaboração dos mais renomados médicos, pesquisadores e professores de Neurologia de conceituadas instituições universitárias e de saúde no Brasil. Outro aspecto marcante são as contribuições de neurologistas das diversas regiões do país, o que assegura a adequação do conteúdo às peculiaridades da prática na especialidade.  

O objetivo da Academia Brasileira de Neurologia é estimular neurologistas e neurocientistas a uma constante atualização, sempre com foco nos avanços tecnológicos em genética, imunologia e imagem, que têm proporcionado significativas mudanças na visão diagnóstica, na terapêutica medicamentosa e reabilitadora e, mais recentemente, na prevenção das doenças neurológicas.

Perguntas e Respostas - Tratado de Neurologia da Academia Brasileira de Neurologia está disponível nos formatos impresso e ebook nas lojas virtuais Kobo, Amazon, Google, iba, Cultura, Gato Sabido, Positivo, entre outras.



SERVIÇO
Sessão de autógrafos de lançamento de
Perguntas e Respostas - Tratado de Neurologia da Academia Brasileira de Neurologia
XXVI Congresso Brasileiro de Neurologia
Dia/hora: 11 de novembro de 2014, das 12h30 às 13h30
Local: Estande da ABN na Expo Unimed Curitiba - Rua Prof. Pedro Viriato Parigot de Souza 5300, Campo Comprido – Curitiba (PR)

|Editora Elsevier
| Autores:
Osvaldo M. Takayanagui e Joaquim Pereira Brasil Neto
| Páginas: 208         |Formato: 17x24cm          | Preço: 119,00


Cadastre-se para ler e baixar trechos do livro: 
http://bit.ly/1tP7cQL

Sobre a Elsevier

Líder mundial em publicações de Saúde, Ciência e Tecnologia, a Elsevier responde por 25% de todo o conteúdo científico publicado no mundo e atende a uma comunidade de mais de 30 milhões de cientistas, estudantes e profissionais de informação e saúde. A editora publica ainda mais de 2.000 periódicos e cerca de 20.000 livros e enciclopédias de selos como Mosby, Saunders e Churchill Livingstone.
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sexta-feira, novembro 07, 2014

Correlações entre a anatomia e a história da neurologia 1 - O Polígono de Willis

Lá no seu cérebro, ou melhor, aí, no seu cérebro, embaixo dele, existe um complexo de artérias que mais parece o Rodoanel, chamado de polígono de Willis. Forma-se a partir as conexões entre as duas artérias carótidas internas, divididas em artéria cerebral anterior e artéria cerebral média, e a artéria basilar, que através das artérias cerebrais posteriores conectam-se à parte da frente do cérebro. Lá vai uma figura para você não ficar boiando:

http://www.nlm.nih.gov/medlineplus/ency/images/ency/fullsize/18009.jpg

Muito bem. Mas quem foi Willis??

Thomas Willis nasceu na Inglaterra em 1621, e morreu em 1675. Era médico e descobridor, em uma época nebulosa da história da medicina, onde pouco se sabia e, por isso, pouco se podia fazer pelas doenças. Graduou-se na famosa e antiga Universidade de Oxford. Foi médico da corte de Charles I da Inglaterra, e rivalizava na Europa, tanto na medicina como na política, com outro Thomas,  mas este na Holanda, Thomas Sydenham, que descreveu a coreia de Sydenham da febre reumática. 

Entre os vários livros publicados por Thomas Willis, alguns foram sobre neurologia (pelo menos três lidavam com anatomia do cérebro), de tal modo que Thomas Willis, para alguns, é visto como o fundador da neurologia. Ele tinha um vasto conhecimento anatômico, e utilizava-se dele na sua prática clínica.

Thomas Willis foi um pioneiro na descrição anatômica do sistema nervoso, sendo que sua descoberta mais notável foi o famoso Polígono (ou círculo) de Willis, que pode ser visto na figura acima. Em 1664, ele publicou o livro Cerebri anatome, sobre a anatomia do cérebro e dos nervos. É neste trabalho que ele usa pela primeira vez o nome neurologia (neuros + logos, ou estudo do sistema nervoso). Em 1667, ele publicou o livro Pathologicae cerebri, et nervosi generis specimen, um trabalho em patologia e neurofisiologia (ou o pouco que se sabia à época). Seus trabalhos posteriores também foram pioneiros na proclamação da relação entre mente e cérebro, tendo sido, também, um precursor da psiquiatria. Mas apesar de muito escrever, ele chegou a ter condutas estranhas para o tratamento de alguns pacientes, como bater na cabeça dos pacientes com pedaços de madeira, de modo que o que ele escrevia, ele não colocava em prática. 

Os nervos cranianos foram primeiramente descritos por Willis, na ordem em que conhecemos hoje (do 1º ao 12º, são Olfatório, Óptico, Oculomotor, Troclear, Trigêmeo, Abducente, Facial, Vestibulococlear, Glossofaríngeo, Vago, Acessório e Hipoglosso) (leia mais aqui). 

Ele descreveu o corpo caloso (leia mais aqui) e várias outras estruturas cerebrais, como o fórnix, os corpos mamilares (localizados na base do crânio), o cerebelo, as artérias carótidas e a artéria basilar. 

Fora da neurologia, o diabetes mellitus se chama mellitus por causa de Willis (o diabetes era conhecido, antigamente, como doença de Willis), e foi ele que relacionou a urina de gosto doce ao diabetes (não faça isso em casa, mas diabéticos descompensados podem eliminar quantidades de açúcar na urina, o que a deixa com um gosto adocicado). 

Thomas Willis:

http://media-2.web.britannica.com/eb-media/32/40532-004-7E058048.jpg

Epilepsia mioclônica juvenil

Considerada a epilepsia generalizada mais comum do paciente jovem, a epilepsia mioclônica juvenil (EMJ) teve seu primeiro relato na França, em 1867. No entanto, a melhor descrição, tendo sido feita em 47 casos, foi feita por Janz e Matthes na Alemanha em 1955. Até hoje, a EMJ pode ser chamada de epilepsia de Janz. O nome EMJ foi cunhado em 1984.

A EMJ é uma forma de epilepsia generalizada de forte componente genético, ou seja, há grande tendência a hereditariedade. Tipicamente, a doença se inicia na segunda década de vida (entre os 10 e 20 anos de idade), com crises mioclônicas e crises tônico-clônicas generalizadas e crises de ausência. 

Mas o que são todas estas crises?

Crises mioclônicas são abalos musculares súbitos, como se um choque percorresse o corpo todo, levando a contrações súbitas, repentinas, de todo o corpo, principalmente os braços e ombros. Podem ser únicas ou múltiplas, podendo ocorrer várias em um período curto de tempo. Costumam, na EMJ, ser mais durante a manhã,  e podem fazer com que a criança ou o jovem arremessem, simplesmente, o que houver em suas mãos, como uma xícara de café ou a escova de dente. 

As crises tônico-clônicas generalizadas (CTCG) são as famosas convulsões, onde há abalos de todo o corpo com perda de consciência, sialorreia (a pessoa começa a babar), liberação de urina, podendo haver mordedura de língua durante a crise. Estas CTCG podem vir após um surto de crises mioclônicas, e como estas, ocorrem mais ao despertar, mesmo se for de uma soneca durante o dia. As crises mioclônicas e as CTCG podem ser desencadeadas por acordar muito cedo, dormir pouco, estresse emocional, uso de álcool, uso de drogas ou luzes brilhantes ou piscantes em excesso (luzes estroboscópicas).

Crises de ausência são crises onde há perda súbita, mas rápida, da consciência sem queda (ou seja, o tônus postural fica mantido). Ocorrem em até 30% dos pacientes com EMJ, e podem começar aos 11 anos de idade ou menos. Podem ser tão rápidas, que ninguém, e nem mesmo os pacientes, percebem. 

Diferente das epilepsias mioclônicas progressivas, onde há alteração mental, na EMJ a inteligência é normal durante toda a doença, mas podem haver alterações de cunho psíquico, como imaturidade, instabilidade emocional e dificuldade de ajuste social.

As causas da EMJ relacionam-se à genética, e não há relato de pacientes com EMJ e alterações grosseiras na ressonância ou na tomografia, mas podem haver alterações em exames que determinam a função cerebral. Há relatos de parentes com a mesma doença, ou com doenças parecidas como a epilepsia de ausência da infância, em 50% dos casos de EMJ, e mesmo parentes sem epilepsia de pacientes com EMJ podem ter alterações no eletroencefalograma (EEG).

Gêmeos univitelínicos podem ter a mesma doença, como eu mesmo observei em dois pacientes meus no passado, ambos gêmeos idênticos com EMJ, sendo que um deles, quando criança, havia tido ausências. Mas não se conhece a genética completa da EMJ, mas sabe-se que vários genes podem estar relacionados à doença. 

A doença vem aumentando de frequência, talvez pela melhora no diagnóstico, e hoje possui incidência (número de casos novos em uma população) de 11.9% ou mais. Mas muitos pacientes ainda são não diagnosticados, e portanto mal tratados. 

O diagnóstico baseia-se inicialmente na suspeita da doença (o médico deve saber que ela existe para poder perguntar sobre os sintomas). No entanto, o quadro clínico costuma ser estereotipado, ou seja, os pacientes costumam apresentar os mesmos sintomas, de forma que um neurologista experiente consegue fazer o diagnóstico com pouco esforço. 

O EEG é normal sem as crises e durante o sono, ou seja, um EEG normal não afasta uma epilepsia, mas pode haver padrões entre as crises vistos no EEG em 74% dos pacientes, como descargas breves e as famosas poliespículas-onda (abaixo), assintomáticas.



http://eegatlas-online.com/myapplications/images/eeg0065/eeg0065on.png 

Já o EEG na crise (ictal) possui pontas e ondas, difusas e irregulares. Há meios de se provocar uma crise, e talvez quem esteja lendo este post e já tenha feito um EEG se lembre deles:  a luz que pisca intensamente (luz estroboscópica) e ficar sem dormir durante a noite anterior ao EEG, e ficar sem dormir é um poderoso desencadeante de crises (sim, às vezes temos que estimular o aparecimento de alterações no EEG para podermos fazer o diagnóstico, já que em pessoas sem epilepsia, ficar sem dormir não causa alterações no EEG). 

O exame neurológico na EMJ é normal, e como já falado, tomografia e ressonância do crânio nesta doença serão sempre normais. Seu neurologista pode solicitar estes exames, no entanto, caso esteja querendo provar que é mesmo EMJ (se os exames vierem normais). 

A EMJ é uma doença para a vida, e não cura. Cerca de 90% dos pacientes voltarão a ter crises uma vez que as medicações tenham sido suspensas, de forma que não se aconselha, de forma geral, suspender os remédios nesta doença. Mas a boa notícia é que a EMJ responde bem a doses pequenas de medicações antiepilépticas (DAE). E há a necessidade, também, de modificações no estilo de vida, evitando-se privação de sono, dormindo-se cedo e acordando-se na hora todos os dias, evitando-se álcool e drogas, e evitando-se fadiga. 

Entre as medicações utilizadas nesta doença, e que somente devem ser usadas sob prescrição médica, temos o valproato de sódio, a lamotrigina, o clonazepam, o topiramato, e as modificações no estilo de vida citadas acima.  

Claro que o sucesso no tratamento depende ainda do paciente aceitar a condição, e fazer uso correto das medicações prescritas, obedecendo às modificações de estilo de vida orientadas pelo médico. 

quinta-feira, outubro 23, 2014

Mais sobre autismo

Notícia tirada do site Medical News Today (link) e traduzida livremente para o blog Neuroinformação.

Qual poluído é o ar que respiramos aqui no Brasil? Aqui em São Paulo é bastante. 

Pois um novo estudo fornece mais evidências para a suposta ligação entre exposição a agressores do ambiente (como a poluição) e o risco de desenvolver autismo. 

Pesquisadores viram que crianças com autismo tinham mais chance de terem sido expostas a poluição do ar nos primeiros 2 anos de vida ou durante a gestação do que crianças sem autismo.A pesquisa foi realizada na Universidade de Pittsburgh, EUA. 

O interessante é que a prevalência de autismo e desordens do espectro autista está aumentando. Nos EUA, em 2000, havia 1 criança autista para cada 150 crianças, e hoje, 14 anos após, 1 criança autista para cada 68 crianças (ou 2,2 crianças autistas para cada 150 crianças, um aumento de mais de 100%). No entanto, as causas desse aumento ainda são discutíveis, e vários estudos têm sugerido que a exposição a poluidores ambientes, como pesticidas, pode ser uma causa.

Entre várias substâncias nocivas encontra no ar poluído de grandes cidades ou regiões industriais, temos o estireno (uma substância que, apesar de aparecer em baixas doses na natureza, é utilizada em borracha artificial, isolamentos, fibra de vidro, tubos, componentes para automóveis e embarcações, além de embalagens plásticas de comida, e pode ser formada da queima da gasolina)  e o cromo, elemento químico de número 24, que pode ser encontrado em indústrias de processamento de aço e usinas de produção de energia.

Os pesquisadores fizeram um estudo retrospectivo, ou seja, entrevistaram 217 famílias de crianças com autismo nascidas entre 2005 e 2009, e verificaram se havia ocorrido contato ou exposição a poluição ambiental. Os autores estimaram que cada família esteve exposta a cerca de 30 substâncias que, de acordo com dados da National Air Toxics Agency dos EUA, estão relacionadas a distúrbios de desenvolvimento neurológico e endocrinológico (hormonal). Os autores compararam os dados a famílias de crianças sem autismo das mesmas áreas visitadas, e que nasceram no mesmo período, aumentando, assim, a chance de que seus resultados fossem verdadeiros.

Assim, crianças expostas a estireno e cromo durante a gestação ou até os 2 primeiros anos de vida têm duas vezes mais chance de terem autismo que crianças não expostas.

Outros poluidores, como o cianeto, o cloreto de metila, o metanol e o arsênico, também estão ligados ao autismo.

Que esse estudo sirva de alerta para todas as famílias do Brasil e do mundo, especialmente aquelas que moram em áreas poluídas ou que entram em contato com substâncias nocivas.

Aliás, leia essa matéria da Unimed, e essa aqui, ambas em português.

O que são células-tronco?

A neurologia está cada vez mais expandindo seus horizontes terapêuticos e misturando-se a outras áreas do conhecimento, não somente médicas, mas não médicas, como a robótica, por exemplo.

Nas áreas de reabilitação, retorno de funções perdidas por conta de derrames e traumas, e doenças neurodegenerativas, como a esclerose múltipla, a doença de Parkinson e a doença de Alzheimer, muito ainda há o que se fazer para recuperar os pacientes lesados por estas e mais doenças. 

Em 1961, no Canadá, sugeriram a existência de células-tronco através de estudos de radiação. Em 1978, descobriram-se células-tronco, ou seja, células que podem, sob os estimulantes adequados e em meios adequados, produzir outros tipos de células, na medula óssea, e estas células começaram a ser cultivadas em laboratório a partir de 1981 (o que levou, inclusive, à primeira clonagem de uma ovelha, a Dolly, em 1997). 

Em 2005, cientistas ingleses descobriram células-tronco embrionárias no tecido do cordão umbilical, que supostamente podem se diferenciar (se transformar) em mais células do que as células-tronco da medula óssea. Já em 2007, do líquido amniótico (o líquido que banha o feto durante a gestação), foram descobertas novos tipos de células-tronco. O interessante é saber que há células-tronco em organismos já vivos e adultos, pois o uso de células-tronco de embriões humanos criados somente com o propósito de fornecê-las (células-tronco embrionárias) é eticamente e religiosamente discutível (na minha opinião).

Bem, e o que são realmente células-tronco e qual o seu uso na neurologia?

Células-tronco (CeTr) são uma classe de células não diferenciadas, ou seja, não maduras, que são capazes de se especializar em vários tipos celulares, e que provêm de fontes embrionárias ou de tecidos adultos.  Podem se diferenciar em pele, músculo, tecido cardíaco, e provavelmente tecido neural. Vamos falar somente das CeTr adultas.

As CeTr adultas existem em várias partes do corpo, dentro de vários tipos de tecidos humanos, como o cérebro (há CeTr na porção periventricular, ou seja, ao redor dos ventrículos cerebrais, e em núcleos cerebrais como o estriado), medula óssea, sangue e vasos sanguíneos, músculos esqueléticos, pele e mesmo no fígado. Elas permanecem em estado quiescente (paradas, quietas), até que sejam necessárias para se transformarem em novos tecidos por lesões ou doenças. Estas células podem se dividir indefinidamente, podendo gerar vários tipos de células diferentes a depender da necessidade do órgão (e isso tem a ver com a liberação de substâncias específicas que vão direcionar a formação de uma ou outra célula - é essa mistura de substâncias certas em meios certos que ainda não conhecemos completamente, até porque pode ser que haja mais substâncias liberadas pelo corpo que ainda não temos conhecimento). O fígado pode ser regenerar por conta dessas CeTr. E apesar de uma CeTr do fígado se transformar em células do fígado, por exemplo, ou CeTr da pele se transaformarem em células da pele, há evidências de que CeTr de vários locais podem se transformar em outras células de órgãos distantes.

As CeTr são extraídas e colocadas em um meio de cultura próprio, com todas as substâncias necessárias para sua sobrevivência e diferenciação, produzindo uma linhagem de células que podem ser utilizadas em tratamentos ou estudos.  

Em neurologia, estas CeTr têm sido testadas há muito tempo, desde a década de 80, quando CeTr cerebrais foram descobertas (mais precisamente em 1989). Em posts posteriores, vamos falar mais sobre o uso de CeTr em doenças neurológicas específicas.