quinta-feira, agosto 11, 2011

Hérnia de disco

Antes de ler este artigo, acho interessante você dar uma passadinha no artigo sobre medula espinhal (Vá aqui), pois o que iremos falar agora tem tudo a ver com ela.

A coluna vertebral é uma caixa óssea rígida e dura, mas flexível pois os ossos, as vértebras, encaixam-se perfeitamente uns nos outros de cima a baixo através de várias juntas ou articulações. Graça a essa flexibilidade, é possível alcançar os pés estando-se em pé, ou agachar-se, ou mesmo fazer abdominais ou estender o corpo todo para trás. A coluna vertebral começa na base do crânio e vai até as nádegas, terminando em um osso que mais parece um pequeno rabicho, o cóccix (veja abaixo).

http://scienceblogs.com/afarensis/2006/04/27/how_cool_is_that/ 

Os ossos são as estruturas de cor bege. Observe que a coluna faz várias curvas ao longo de seu trajeto, sendo todas normais. Mas quando por doença ou problemas posturais, estas curvas podem ficar mais acentuadas, levando a dor e incapacidade. Um aumento da curvatura anterior da coluna tem o nome de lordose; o aumento da curvatura posterior recebe o nome de cifose; e quando a coluna é muito curvada para um dos lados, recebe o nome de escoliose. Veja abaixo o que digo e compare com a figura acima:

http://t2.gstatic.com/images?q=tbn:ANd9GcR23iQKM--c_iTvVGgRj_BM8AbC7qVWilnUPUXn_-JBtbRN-vqS


Muito bem. Olhe a primeira figura de novo. Entre os ossos há espaços meio azulados, certo? Estes são os discos intervertebrais. Mas para que servem?

Imagine um carro. O amortecedor do carro protege o pneu e o carro dos solavancos do dia a dia, certo? Caso contrário, depois de vários buracos e lombadas, seu carro estaria uma lata-velha, concorda? Pois é, estes discos intervertebrais têm a mesma função de um amortecedor, amortecem o impacto que a coluna inteira sofre quando você anda, corre, pula, sofre um acidente ou se machuca. Eles, por serem elásticos, servem para absorver o impacto.

Assim, quando você corre ou anda, por exemplo, seus discos intervertebrais absorvem o impacto produzido pelo choque do pé, tornolezo, perna e joelho com o chão, diminuindo o ônus que estas articulações e sua perna/pé têm de suportar. Claro que não são somente os discos intervertebrais que servem para isso, mas todos os ligamentos e, principalmente, os músculos lombares e os abdominais servem também para isso. E sabe-se que músculos lombares e abdominais fortes significam mais absorção de impacto, ou seja, menos lesões em certas situações.

Muito bem. E como é um disco intervertebral? Aqui vai um:

http://www.cedars-sinai.edu/Patients/Programs-and-Services/Spine-Center/Anatomy-of-the-Spine/Images/vertebral_body-10860.jpg


Observe ainda outro disco intervertebral:

https://encrypted-tbn1.google.com/images?q=tbn:ANd9GcThXqe4qPFieOhi0pD1tl2b1Mbw5CSnmS-66GfMV49LkCJVxqymbQ
Em geral, estas alterações aparecem de forma insidiosa, lenta, e se manifestam como dor ou desconforto no pescoço (cervical) irradiando para os braços ou costa, ou nas costas (lombar) irradiando-se para as pernas. Podem haver fatores que desencadeiam uma crise aguda, especialmente em alguém que já tem a coluna doente, como por exemplo, um mau jeito ao tentar levantar algo ou empurrar algo, um acidente ou um trauma qualquer, ou muitas vezes não há motivo aparente.

Observe agora uma hérnia de disco

http://cdn.mikereinold.com/wp-content/uploads/blogger/7-1749-799X-3-46-1.jpg
Observe o núcleo pulposo herniando, extravasando, e comprimindo uma raiz à direita.

Observe mais uma figura:

https://encrypted-tbn1.google.com/images?q=tbn:ANd9GcQFpjTf8nWrW7v7lMw2trefVKt8kcmn0DMssekTmvnNDLEvkuCs4g


Qualquer pessoa pode ter uma hérnia de disco, e cada vez mais jovens estão aparecendo nos consultórios com os sintomas. Má postura, falta de condicionamento físico aliado a uma musculatura vertebral fraca e falta de atividade física contribuem para isso. Também, musculação em excesso, exercícios físicos em excesso, excesso de peso sobre a coluna podem causar isso, e obesidade é uma das causas.

Nossa coluna é um conjunto ósseo que necessita ser regular e íntegro para funcionar de forma devida. Com o passar da idade, ou com doenças que atacam a coluna, ocorrem alterações nos ossos que podem deixá-los fracos, instáveis, levando a várias consequências. Muitas vezes nas imagens de tomografia e ressonância, o médico não vê somente a hérnia de disco, que pode ser pequena, chamada de protrusão discal, mas pode ver além da protrusão alterações ósseas e articulares como uncoartrose, que é a artrose (envelhecimento, precoce ou não) das articulações das vértebras, ou espondiloartrose, que o envelhecimento da própria vértebra, que pode ficar achatada, irregular, deslocar-se em relação às outras, criar extensões (verdadeiros dentes) em suas porções anteriores, a que chamamos de "bicos de papagaio".

Portanto, entre as causas encontram-se estresse sobre a coluna, como excesso de peso, má postura, falta de um amortecedor muscular (ou seja, todo o impacto do dia-a-dia concentra-se na coluna), excesso de atividade física, especialmente feita sem as orientações corretas, trauma como quedas, acidentes de carro ou moto, e outras causas, e mesmo sem causa definida. Pode ocorrer de uma pessoa nascer com algum defeito no colágeno (que é uma proteína que possui várias formas e forma a base do nosso tecido conectivo, ou seja, do tecido que serve de sustentação a nossos corpos), e a camada externa do disco intervertebral é feita de colágeno. Defeitos neste colágeno podem predispor a hérnias discais mesmo sem traumas.

E qual o tratamento de uma hérnia de disco? Varia desde repouso relativo, poupando atividades que exijam carregar peso, levantar coisas ou mudar de posição várias vezes, medicações analgésicas, mudanças de postura, melhora da postura, exercícios de fisioterapia e reeducação postural global (o famoso RPG), e mesmo em casos mais sérios, cirurgia da coluna.


Em geral, estas alterações aparecem de forma insidiosa, lenta, e se manifestam como dor ou desconforto no pescoço (cervical) irradiando para os braços ou costa, ou nas costas (lombar) irradiando-se para as pernas. Podem haver fatores que desencadeiam uma crise aguda, especialmente em alguém que já tem a coluna doente, como por exemplo, um mau jeito ao tentar levantar algo ou empurrar algo, um acidente ou um trauma qualquer, ou muitas vezes não há motivo aparente.

Qualquer pessoa pode ter uma hérnia de disco, e cada vez mais jovens estão aparecendo nos consultórios com os sintomas. Má postura, falta de condicionamento físico aliado a uma musculatura vertebral fraca e falta de atividade física contribuem para isso. Também, musculação em excesso, exercícios físicos em excesso, excesso de peso sobre a coluna podem causar isso, e obesidade é uma das causas.

Nossa coluna é um conjunto ósseo que necessita ser regular e íntegro para funcionar de forma devida. Com o passar da idade, ou com doenças que atacam a coluna, ocorrem alterações nos ossos que podem deixá-los fracos, instáveis, levando a várias consequências. Muitas vezes nas imagens de tomografia e ressonância, o médico não vê somente a hérnia de disco, que pode ser pequena, chamada de protrusão discal, mas pode ver além da protrusão alterações ósseas e articulares como uncoartrose, que é a artrose (envelhecimento, precoce ou não) das articulações das vértebras, ou espondiloartrose, que o envelhecimento da própria vértebra, que pode ficar achatada, irregular, deslocar-se em relação às outras, criar extensões (verdadeiros dentes) em suas porções anteriores, a que chamamos de "bicos de papagaio".

Portanto, entre as causas encontram-se estresse sobre a coluna, como excesso de peso, má postura, falta de um amortecedor muscular (ou seja, todo o impacto do dia-a-dia concentra-se na coluna), excesso de atividade física, especialmente feita sem as orientações corretas, trauma como quedas, acidentes de carro ou moto, e outras causas, e mesmo sem causa definida. Pode ocorrer de uma pessoa nascer com algum defeito no colágeno (que é uma proteína que possui várias formas e forma a base do nosso tecido conectivo, ou seja, do tecido que serve de sustentação a nossos corpos), e a camada externa do disco intervertebral é feita de colágeno. Defeitos neste colágeno podem predispor a hérnias discais mesmo sem traumas.

E qual o tratamento de uma hérnia de disco? Varia desde repouso relativo, poupando atividades que exijam carregar peso, levantar coisas ou mudar de posição várias vezes, medicações analgésicas, mudanças de postura, melhora da postura, exercícios de fisioterapia e reeducação postural global (o famoso RPG), e mesmo em casos mais sérios, cirurgia da coluna.



terça-feira, agosto 09, 2011

Pequeno dicionário de termos médicos - Hemiparesia

Hemiparesia é outra daquelas palavrinhas que vêm do grego (esse grego...), que quer dizer fraqueza (paresia) e hemi (metade, meio), e quer dizer fraqueza de metade do corpo. Não, não é a metade de cima ou a de baixo, mas a de um lado ou outro. Assim, falamos de hemiparesia direita ou esquerda. A hemiparesia pode afetar a face, quando então chama-se de hemiparesia completa. Se for do pescoço para baixo, chama-se de hemiparesia incompleta.

A paresia é uma fraqueza que não é total, ou seja, ainda há algum grau de força. À fraqueza total, chama-se de plegia (quando o paciente não consegue mover absolutamente nada daquele membro ou hemicorpo).

Qual a causa mais comum das hemiparesias/hemiplegias? Geralmente são os derrames, ou AVC's. Mas tumores e traumas cranianos ou de parto (quando o bebê sofre durante a saída pelo canal vaginal ou pela incisão da cesareana) pode causar isso também. 

Além da hemiparesia e da hemiplegia, há outros termos interessantes a serem destacados aqui:

1. Monoparesia/monoplegia - É a fraqueza (completa ou não) de um único membro (um braço ou uma perna)
2. Diparesia/diplegia - É a fraqueza dos dois lados do corpo, mas que ocorrem em momentos diferentes, como um derrame que afeta um lado, e logo após vem outro afetando o outro lado.
3. Paraparesia/paraplegia - É a fraqueza ou dos dois braços (mais raro, chamado de paraparesia braquial) ou das duas pernas (paraparesia crural). Este último é geralmente causado por lesões da medula espinhal.
4. Tetraparesia/tetraplegia - É a fraqueza dos quatro membros de uma só vez, como ocorre nas lesões medulares altas, como ao nível do pescoço (cervical)


domingo, agosto 07, 2011

Confusão mental

Confusão mental é um termo bastante vago e genérico. Pode-se dizer que ocasionalmente "brancos", ou seja, esquecimentos rápidos e fugazes, como "Que rua é essa?", ou "Onde eu deixei meu carro?", ou mesmo "O que eu vim fazer aqui, mesmo?" sejam episódios de confusão, mas geralmente são benignos quando isolados, raros e sem consequências sérias, e apesar de merecerem investigação apropriada quando julgado pelo neurologista, geralmente não demonstram anormalidades maiores nos exames de sangue ou na tomografia de crânio. É claro que episódios destes que se repetem, ou de gravidade maior, devem ser investigados de forma bem rigorosa. Já falei de esquecimentos em um post anterior sobre memória. Mas hoje falaremos de algo ainda mais sério, quando há um quadro persistente de confusão mental.

Vou sugerir um quadro que é bastante frequente em pronto-socorros e em consultórios médicos. Imagine que um familiar idoso, tal como sua avó, ou seu avô, ou seu pai, que até ontem estava bem, andava,  comia sozinho, vestia-se só, fazia suas coisas só, de repente de um dia para o outro começa a não falar mais nada de forma correta, troca palavras ou frases, confunde-se em casa mesmo ou acha que não está em sua casa, ou associado à confusão o familiar dorme demais e não acorda nem para almoçar, ou acha que foi sequestrado, não o/a reconhece, ou torna-se agressivo e agitado de repente. Você já se deparou com uma situação dessas? Se já, sabe do que estou falando. É uma situação realmente difícil de lidar, com um familiar que de repente perde sua personalidade, suas características que conhecíamos e amávamos, e agora está outra pessoa.

A este quadro tão dramático dá-se o nome de estado confusional agudo ou delirium (não confundir com delírio, que é o julgamento errado de uma situação por conta de um quadro psiquiátrico ou neurológico, como o paciente esquizofrênico que acredita que as pessoas estão sempre falando mal dele, ou o paciente com doença de Alzheimer que acha que a esposa ou o marido está tendo um caso com alguém).

Estado confusional agudo é uma situação de emergência, geralmente causado por infecções, como pneumonia, infecção urinária ou mesmo uma gripe, ou problemas de eletrólitos, os componentes do sangue, como sódio, potássio ou cálcio, ou problemas de oxigenação do sangue (dificuldades respiratórias ou problemas pulmonares que impedem o oxigênio de chegar nos pulmões), ou problemas cardíacos graves como descompensação de uma insuficiência cardíaca, ou problemas metabólicos, como glicemia muito alta ou muito baixa, ou problemas graves de tireóide. Outras causas como desidratação, bastante comum na verdade, ou desnutrição, alcoolismo, abuso de medicações para várias doenças, problemas renais ou de fígado (hepáticos) graves, traumas cranianos, derrames podem ser encontradas. Internação por uma causa qualquer, mesmo em idosos antes supostamente sãos, e cirurgias podem desencadear um estado confusional agudo.

Qualquer um pode ter isso? Sim, todos estamos sujeitos, mas há fatores de risco. Quais são eles?

1. Idade avançada
2. Doenças graves subjacentes, como problemas graves de coração, rins, fígado, tireóide, problemas cerebrais como derrame prévio, demência (pacientes com doença de Alzheimer ou outras demências podem ter piora aguda de seu quadro demencial, caracterizando um estado confusional agudo)
3. Doenças psiquiátricas
4. Uso de múltiplas medicações para várias doenças diferentes

Demência e estado confusional são a mesma coisa? NÃO! Demência é um problema que se desenvolve ao longo de meses a anos. Estado confusional agudo desenvolve-se ao longo de dias, e pode ocorrer em pacientes demenciados.

O que fazer se meu parente tiver isso?

Leve-o imediatamente ao hospital. Isso é uma emergência médica, e as causas têm de ser descobertas o mais rápido possível e tratadas, pois podem levar a piora de um quadro subjacente, ou mesmo morte do paciente. O paciente deve ser diagnosticado, e exames como glicemia (exame do dedinho), exames de sangue, exame de urina, e mesmo uma tomografia de crânio, além de avaliações como oximetria de pulso devem ser solicitadas.

Portanto, se seu parente tiver isso, corra a um hospital com ele. Você e seu familiar só terão a ganhar com isso.

sábado, agosto 06, 2011

Qual o meu hemisfério dominante?

O hemisfério cerebral dominante é aquele (também) responsável pela linguagem. O cérebro possui dois hemisférios, o direito e o esquerdo. Em 90% das pessoas, o hemisfério esquerdo é o dominante, mesmo em pessoas canhotas ou ambidestras. O hemisfério não dominante responsabiliza-se por emoções, orientação visuo-espacial (saber onde você se encontra no espaço ao seu redor) e outras funções.

Como saber qual o seu hemisfério dominante? Bem, geralmente pessoas destras (que escrevem com a mão direita) têm o hemisfério esquerdo como dominante, por que o lado esquerdo do cérebro controla o lado direito, e vice-versa (falaremos desse assunto intrigante em outro post).

Mas pessoas canhotas ou ambidestras podem ter o hemisfério esquerdo como dominante, também. Então, há algum modo de saber isso?

Provavelmente sim, e é simples. Em uma folha de papel, faça um furo pequeno com um alfinete, e olhe através dele. Se você olhar com o olho direito, sua dominância cerebral provavelmente será o lado esquerdo em cerca de 65% dos casos (Referência), e vice-versa. Há uma clara distinção na literatura especializada entre dominância ocular e dominância manual, com relatos de incrongruências entre elas.

Outra maneira inusitada é saber com qual mão você segura o cabo da vassoura ao varrer a casa. Se você segura o cabo com a mão direita, sua dominância cerebral é esquerda, e vice-versa. Há inclusive uma escala para verificar clinicamente qual a dominância cerebral de uma pessoa (Referência).

Há um método mais agressivo, que é o uso de amital sódico, um anestésico, que é injetado em cada carótida através de angiografia (cateterismo) e anestesia cada hemisfério, um de cada lado. Assim, verifica-se com a anestesia sucessiva de um hemisfério atrás do outro qual leva à perda da linguagem, sendo este o hemisfério dominante.

Dúvidas? Mande-me um e-mail ou comente abaixo.

Pequeno dicionário de termos médicos - Afasia

Afasia é o termo usado pelos neurologistas para definir distúrbios de linguagem, ou seja, problemas na produção, compreensão ou repetição de palavras ou frases.

Diferente da disartria, onde há prejuízo nos órgãos que emitem os sons, aqui o som sai normalmente, mas sai sem sentido, ou a palavra não é compreendida ou o paciente não consegue repetir palavras ou frases.

A afasia ocorre por lesões cerebrais. A disartria pode ocorrer por lesões tanto do cérebro como de várias outras partes do corpo, como já visto no post anterior.

Há vários tipos de afasia, assim como há várias áreas cerebrais responsáveis pela produção/compreensão da linguagem. Não iremos detalhar isso aqui ainda por ser de grande complexidade, mas basta saber que duas áreas cerebrais estão envolvidas, respectivamente, na produção e na compreensão da linguagem: a área de Broca, ou giro frontal inferior, e área de Wernicke, ou giro temporal superior. Aqui vão as duas áreas:


Essa imagem veio daqui: http://www.logopedia-granada.com/images/broca.gif

E quais são as causas de afasia?

1. Derrames (tanto isquêmicos como hemorrágicos) - As causas mais comuns. Afasia ocorre, em cerca de 90% das pessoas, com lesões do hemisfério cerebral esquerdo (considerado o hemisfério dominante, ou seja, o hemisfério da linguagem, mesmo nas pessoas canhotas e ambidestas, ou seja, que escrevem com as duas mãos). Lesões do hemisfério direito produzem, na maciça maioria das vezes, disartria.

2. Traumas cranianos - Ocorre afasia com lesões igualmente do lado esquerdo

3. Placas de esclerose múltipla - Lesões extensas podem, ocasionalmente, levar a afasia

4. Tumores cerebrais - Igualmente, do hemisfério esquerdo em 90% dos indivíduos

quarta-feira, agosto 03, 2011

Pequeno dicionário de termos médicos - Disartria

Disartria é outra daquelas palavrinhas que você já deve ter ouvido falar, mas que não sabe do que se trata. Bem, aqui estou eu para acabar com suas dúvidas.

A fala é um dom que não é único aos humanos, haja vista alguns animais, como papagaios e calopsitas, falarem. Mas deve-se diferenciar a palavra de outra faculdade, desta vez humana por natureza, a linguagem verbal.

A linguagem em si não é dom unicamente humano, pois todos os seres vivos têm algum tipo de linguagem para se comunicarem com os seus de suas espécies, quer seja corporal ou através de sons em várias frequências. Mas o ato de utilizar o aparelho fonatório para emitir sons articulados, que se combinem em palavras e frases, e que possuam significado, é um dom humano, e é uma das coisas que nos diferenciam dos outros animais.

Para falar, o homem se utiliza de dois artifícios. O primeiro é o cognitivo, ou seja, o mental, produzido nas partes mais anteriores do cérebro (o lobo frontal), quando a linguagem é produzida. Aqui, fabrica-se o contexto, o estado cultural em que a linguagem será transmitida. Montam-se a frase e as palavras, entende-se o significado delas, percebe-se seu contexto, elaboram-se meios de torná-la inteligível. Aqui forma-se a semântica, a gramática, a prosódia (a música da fala). Caso não houvesse este aparato complexo, as palavras seriam meras mesclas de sons desconexos. Mas não basta pensar no que dizer, deve-se expressar o que se quer falar, e para isso existe o aparelho fonatório, o sistema de articulação de palavras.

O aparelho fonatório é composto do nariz e dos seios paranasais (cavidades cheias de ar ao redor de seu nariz e acima da boca, que quando cheio de secreção, leva à sinusite), que dão a ressonância e o timbre à voz, a boca, os dentes, a língua, o palato duro e o mole, a garganta, a faringe, a laringe e as cordas vocais, além da traqueia e dos pulmões. Não se fala sem ar nos pulmões, pois a fala é o ato complexo da interação entre o ar e as várias estruturas que vão formar os sons a partir da vibração do ar nestas estruturas.

Mas o que é disartria, afinal de contas?

Disartria é justamente uma alteração do aparelho fonatório, em qualquer uma de suas estruturas, e que leva a alterações na fala. As palavras são colocadas da forma correta, a prosódia é normal, a gramática e a semântica são perfeitas. Mas a fala sai ou enrolada ou como se o paciente estivesse "com uma batata na boca", ou a fala sai arrastada, como gostam alguns, ou os sons ficam anasalados. Ou há problemas sérios na articulação de algumas letras, como as bilabiais (B, P, M) ou as linguais (R, S, N).

Quais são as causas mais comuns de disartria?

1. Problemas de nascimento - lábio leporino (fenda labial), fenda palatina, problemas na formação dos dentes ou da língua
2. Traumas - Traumas à boca, língua, dentes, garganta.
3. Cãncer - Câncer de língua, de boca ou de laringe
4. Traumas cranianos
5. Derrames - São as causas neurológicas mais comuns de disartria pois a lesão cerebral pode afetar a inervação de músculos que controlam a articulação das palavras.
6. Outras doenças, como esclerose múltipla, esclerose lateral amiotrófica, paralisia supranuclear progressiva, etc...

E quando é o cognitivo, o local onde as palavras são produzidas no cérebro, que é afetado, como se chama?

Chama-se afasia, e será discutido posteriormente.

terça-feira, agosto 02, 2011

O eletroencefalograma serve para diagnóstico de dor de cabeça?

Na imensa maioria das vezes, o eletroencefalograma não serve para diagnóstico de cefaleia! E explico o porquê em tópicos:

1. A maior parte das cefaleias em consultório são primárias, ou seja, sem causa definida, e portanto, uma boa história clínica (anamnese) e um exame neurológico, mesmo que resumido, mas bem feito podem dizer a causa ou chegar perto da causa da dor;

2. E mesmo que esta abordagem falhe em dar o diagnóstico, há exames mais específicos para as causas da dor:
a. Se o médico pensar em problemas da coluna cervical (pescoço) como causa da dor, solicita-se uma radiografia do pescoço
b. Se o médico suspeitar de uma inflamação dos vasos da cabeça (arterite temporal, que pod ocorrer mais em idosos e costuma levar a perda visual e dor para mastigar), solicita-se exame de hemograma, VHS e PCR (Proteína C Reativa, marcador inflamatório juntamente com o VHS, que é Velocidade de Hemossedimentação);
c. Se o médico estiver pensando em doenças dentro da cabeça, como tumores ou qualquer outra coisa, ele pedirá uma tomografia ou uma ressonância de crânio, e não um eletroencefalograma;

3. Sinusite raramente dá dor que dure semanas a meses. A dor costuma durar dias, pode haver febre, nariz escorrendo ou entupido, sensação de secreção descendo pela parte de trás da garganta, etc... e nesses casos, uma avaliação otorrinolaringológica, com tomografia de seios da face e nasofibroscopia, podem ajudar. Um eletroencefalograma nunca ajudaria aqui.

E quando o eletroencefalograma pode ajudar? Quando a dor de cabeça é causada por uma crise epiléptica ou convulsão, podendo haver sintomas que se parecem com os sintomas de uma enxaqueca, mas que um neurologista experiente sabe diferenciar bem.

Por exemplo, um paciente pode ter uma crise de uma área do cérebro chamada de lobo occipital (veja abaixo), cujas manifestações iniciais podem ser visões que se parecem com as auras ou alterações visuais que precedem a enxaqueca (como traços brilhantes, figuras geométricas que crescem e diminuem, pontos brilhantes ou escuros), mas há características que as diferenciam, como a duração, as formas que os pacientes vêem nestas crises, a localização das formas no campo de visão, e os efeitos posteriores. Para estes casos, e acredito que somente nestes, o eletroencefalograma pode ser útil.



Figura tirada de http://revistagalileu.globo.com/Revista/Galileu/foto/0,,14511165,00.jpg. Nesta figura, mostra-se o cérebro, estando o lobo occipital, local de recepção das vias cerebrais que "lêem" a visão, em branco.

Quem quiser se aprofundar mais na leitura, e souber ler inglês,  vai se interessar pela revisão da Academia Americana de Neurologia sobre o eletroencefalograma no diagnóstico de cefaleia. Além de um parâmetro fisiológico chamado de resposta H ou driving fótico, que não é costumeiramente mensurado em EEG de rotina, e que poderia ajudar no diagnóstico de enxaqueca, apesar de estudos mostrarem que a história clínica é superior a este teste no diagnóstico, não há outros motivos para solicitar EEG em dor de cabeça fora os descritos acima. O link é este.

quarta-feira, julho 27, 2011

Pequeno dicionário de termos médicos - Hemianopsia (Texto longo - tenha paciência)

Você já ouviu este termo antes? Hemianopsia é uma palavra bastante usada em neurologia, e indica uma alteração da visão. Mas antes de discutirmos isso, vamos rever anatomia e funcionamento (fisiologia) do sistema visual humano.

O olho é uma estrutura complexa, sendo um globo levemente alongado (uma elipse, por assim dizer), formado por duas partes, uma parte anterior (câmara anterior) e uma posterior (câmara posterior). O olho funciona como uma câmera fotográfica, recebendo a luz que vem refletida dos objetos que atravessa os meios transparentes do olho (córnea, cristalino ou lente, humor aquoso, pupila, humor vítreo) e chega à retina (aqui a imagem é representada de cabeça para baixo e bem menor do que realmente é - aqui cabem algumas leis físicas de óptica e lentes que poderão ser discutidas depois). Da retina, partem nervos que adentram o cérebro e vão até a parte mais posterior do mesmo, o córtex occipital ou calcarino, onde esta imagem será analisada e vista como deve ser.

http://www.nlm.nih.gov/medlineplus/ency/imagepages/1094.htm
Muito bem. Observe à esquerda da figura uma estrutura amarelada saindo do olho, onde em inglês se lê optic nerve - este é o nervo óptico, o segundo nervo craniano, mas que na verdade não é nervo, mas uma extensão do próprio cérebro. A retina se desenvolve do cérebro (que, aliás, durante a fase de desenvolvimento do embrião, desenvolve-se juntamente com a pele. Você sabia disso?), e o resto do olho se desenvolve de tecidos ditos mesenquimais, ou seja, tecidos que formam estruturas de suporte no corpo, como ossos, músculos e cartilagens.

Esse "nervo" segue por baixo do cérebro, e lá no meio dele, na frente de uma extensão do cérebro chamada de tronco cerebral, ele entra definitivamente no cérebro, indo para o pólo posterior do cérebro, os lobos occipitais. Observe uma representação disso abaixo:

 http://www.doutorcerebro.com.br/portal/index.php?option=com_content&view=article&id=24:neuriteoptica&catid=25:esclerose-multipla&Itemid=17

Essa figura mostra o nervo óptico na órbita, saindo do olho, e indo para o cérebro. O nervo é esta estrutura amarelada ( os nervos nas figuras são sempre desenhados em amarelo, apesar de que os nervos não são amarelos. É somente uma forma de ajudar a discernir entre o que e o que não é nervo).

Lá vai mais uma figura:

http://www.msstrength.com/wp-content/themes/zen/images/optic_nerve.jpg

Observe que o nervo entra no cérebro lá atrás. Pois é, o nervo vira o que chamamos de trato óptico, estas linhas negras sinuosas no cérebro, indo para o córtex occipital visual, o território em roxo no cérebro acima. O trato óptico não é assim, claro. Isso é só uma representação gráfica para ajudar você a entender o que ocorre aqui.

No córtex occipital, a imagem que foi vista na retina pequena e invertida é dissecada, analisada, e mostrada a você como você a vê. Logo, o que você vê é uma filtragem da imagem que entra no seu olho e que é feita inteiramente no cérebro. Perfeito, não?

Mas o que é hemianopsia???? E onde que tudo isso que eu li entra nessa história? Como disse antes, um pouco de anatomia ajuda você a entender o que ocorre no seu corpo.

Bem, suponhamos que você não entenda patavinas de óptica, mas se entender, estamos em casa. A sua retina pode ser dividida, como um círculo, em quatro partes, mas não iguais, por duas linhas, uma vertical e uma horizontal, passando justamente pelo local onde o nervo óptico se origina (chamado de disco óptico), os quadrantes. Observe abaixo:

http://www.coll.med.br/uploads/images/nervo_optico4.jpg

As duas bolas coloridas lá em cima são a representação gráfica da retina. Cada setor colorido é um quadrante, e eles não são iguais. Temos os setores temporais, os mais laterais, mais próximos da parte de fora do rosto, e os nasais, mais mediais, ou seja, mais próximos do nariz. Cada setor temporal e cada setor nasal é dividido em quadrantes superiores e inferiores. Daí temos, quadrante temporal superior, temporal inferior, nasal superior e nasal inferior de cada lado.

Muito bem, entendido até agora? Vamos adiante, que a caminhada é longa.

O nervo óptico leva as informações de cada quadrante para o cérebro, da seguinte maneira. Os nervos que vêm dos quadrantes temporais levam a informação para o cérebro do mesmo lado (quadrantes temporais direitos levam a informação para o córtex occipital direito, ou sejam, passam direto pelo quiasma óptico, o cruzamento de fibras coloridas que você vê logo acima na figura anterior). Já os nervos que trazem informações dos quadrantes nasais cruzam pelo quiasma para o lado contrário (isso mesmo, informações dos quadrantes nasais de um lado vão para o cérebro do outro lado).

Mais outra coisa, que você pode ver na figura acima. Você observa que a luz que vem de fora entra na retina de dentro? E o contrário, ou seja, a luz que vem de perto do nariz entra na retina de fora, também ocorre? Da mesma forma, a luz que vem de cima entra pela retina de baixo, e a luz que vem de baixo pela retina de cima! Sim, isso mesmo, ou seja, a informação visual que chega ao seu cérebro cruza duas vezes, duas vezes, antes dos olhos, virtualmente, quando ainda são só raios de luz, e dentro do cérebro, na junção entre as fibras, no quiasma óptico!

Certo, entendeu até agora? Se não entendeu, mande um comentário falando o que não entendeu, e eu refaço o texto para você entender.

Certíssimo. Então a hemianopsia não é um distúrbio visual, por que não afeta o olho, mas as vias neurais que saem do olho? É um distúrbio visual, mas considerado central, ou seja, afeta o cérebro e suas vias. Se afetasse o olho, seria chamado de periférico.

E o que é uma hemianopsia? Veja abaixo:

http://en.wikipedia.org/wiki/Homonymous_hemianopsia

Uma pessoa, vendo Paris de cima, se tivesse uma hemianopsia, veria a paisagem assim, como você vê nesta figura aí em cima. Uma parte da imagem é cortada. Neste caso, levando-se em conta que a torre Eiffel está no lado esquerdo da figura, o paciente teria uma hemianopsia homônima direita! Peguei pesado? Vamos explicar. Veja abaixo.

http://www.sistemanervoso.com/neurofisiologia/07_images/07_clip_image002_0000.jpg
Você está vendo um cérebro cortado de frente para trás, e de cima para baixo. Observe as radiações ópticas, estas linhas roxas e amarelas saindo dos olhos, e correndo pelo cérebro até a parte de trás dele, o lobo occipital. Estas radiações, como já comentado, estão dentro da massa cerebral, e não podem ser individualizadas sem técnica apropriada. Quando ocorre lesão cerebral em algum lugar das radiações ópticas, ou mesmo no quiasma óptico, ocorre alteração da transmissão da imagem da retina ao cérebro.

Na figura acima, as linhas horizontais exemplificam locais de lesão. E estas lesões podem ser por derrames, tumores, traumas, acidentes, etc... Os círculos com componentes escuros ao lado demonstram como um paciente com estas lesões veria o ambiente caso estivesse observando um fundo branco. A hemianopsia homônima é a alteração mais baixa, causada por lesões nas radiações ópticas. Observe que uma lesão do córtex occipital direito leva a uma hemianopsia homônima esquerda (o nome homônima é por que temos perda visual de campos complementares, ou seja, o temporal de um lado e o nasal do outro; lesões do quiasma  (que geralmente comprimem o quiasma de dentro para fora, comprimindo a parte de dentro das vias ópticas) levam a perda de campos temporais por lesão das vias nasais, e as hemianopsias aqui produzidas são chamadas de heterônimas).

Mas por que a lesão de um lado leva a perda visual do outro, se as vias temporais vão para o mesmo lado, e as nasais é que cruzam? Por que a luz se cruza antes de chegar ao olho. Isso mesmo! A luz cruza de um lado para outro, e de cima para baixo. Logo, se você perde a retina inferior, você tem perda visual superior daquele lado, e vice-versa. Da mesma forma, se você tem lesão de uma via (no córtex), com perda de via temporal de um lado e nasal do outro, o que ocorre é a perda de campos opostos, justamente por que a luz que vai para a retina temporal vem do campo nasal, e a que vai para a retina nasal vem do campo temporal. Complicado? Não!

Da mesma forma, temos as hemianopsias altitudinais, ou seja, perda de campo superior ou inferior, e as quadrantopsias, quando não é o hemicampo todo que é perdido, mas só a parte de cima ou a de baixo.

Bem, espero ter ajudado os interessados a resolverem esta questão. Qualquer dúvida, mande um e-mail para mim (sekeff@hotmail.com) ou faça seu comentário. Terei prazer em ajudar.