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domingo, outubro 14, 2012

Para que serve o exame de fundo de olho?

O neurologista é um médico diferente por que utiliza métodos e instrumentos de outras especialidades em sua  prática. Entre estes intrumentos e técnicas, destaca-se o exame de fundo de olho, ou fundoscopia. E você sabe o que é isso?

O exame de fundo de olho (a partir de agora, referimemo-nos a ele como FO) é uma técnica não invasiva (sem necessidade de agulha ou corte) em que o médico vê a parte do olho intimamente ligada ao cérebro, a retina. 

Observe a retin abaixo:

http://www.portaldaoftalmologia.com.br/site/site2010/images/stories/retina.jpg
A retina fica na parte de trás do olho. Agora, observe o que um médico vê como a retina normal com o exame de FO:

http://www.gta.ufrj.br/grad/10_1/retina/figuras/retina2.jpg
A bola amarela á direita corresponde à saída do nervo óptico. As artérias e veias da retina entram e saem, respectivamente, por essa bola amarela, que é a papila do nervo óptico. A fóvea é a área de melhor visualização, que corresponde à visão central, onde só há cones, e não há bastonetes (leia mais sobre isso aqui).

A retina pode demonstrar alteração em várias situações, a maior parte delas passível de visualização com exame de FO, e portanto, pode-se fazer um diagnóstico, algumas vezes, no consultório, sem necessidade de exames:

1. Neurite óptica - a retina pode estar inchada, com edema ou com sinais de inflamação (leia mais sobre isso aqui);

2. Neuropatias ópticas por diminuição da circulação ao nervo óptico - a neuropatia óptica isquêmica ou NOIA - pode demonstrar os mesmos sinais acima;

3. Pressão alta e diabetes podem levar a alterações precoces da retina, que podem permitir o diagnóstico dessas condições e um melhor tratamento, além de prever complicações com doenças renais (dos rins), do coração ou do cérebro;

4. Pressão alta na cabeça ou hipertensão intracraniana - pode levar a alterações na retina que aparecem como edema de papila, inchaço da papila (leia mais sobre isso aqui e aqui);

5. Trombose venosa cerebral, onde pode haver aumento da pressão dentro da cabeça e edema de papila (leia mais sobre isso aqui);

6. Doenças da retina e do olho, como glaucoma, podem ser vistas também pelo exame de FO.

Ou seja, o exame de FO permite ao médico confirmar alterações oculares e fazer considerações diagnósticas em relação a sintomas relacionados a inflamações do nervo e do cérebro (como a esclerose múltipla, que pode produzir neurite óptica), doenças que aumentem a pressão intracraniana, como tumores cerebrais, e mesmo pressão alta ou diabetes mal controladas.

Observe abaixo um exame de FO demonstrando uma retina inchada:

http://www.djo.harvard.edu/files/2716_325.jpg
Compare esta figura com a figura acima.

E com qual aparelho o neurologista faz o exame de FO? Com o oftalmoscópio. Observe abaixo:

http://www.biomedicasm.com.br/arquivos/oft.jpg
E o exame é feito assim:

http://mmspf.msdonline.com.br/pacientes/manual_merck/secao_20/images/cap225_fig2.jpg

terça-feira, maio 01, 2012

Para que serve a pesquisa de bandas oligoclonais?


Artigo escrito pelo Dr. Diego Zanotti Salarini, médico neurologista do Hospital do Servidor Público do Estado de São Paulo, do Ambulatório de Desordens de Movimento do Hospital das Clínicas da FMUSP, e do Ambulatório de Neurologia da Santa Casa de São Paulo, e cedido gentilmente pelo mesmo. 

Quantas vezes já não vimos um pedido de exame assim: liquor com pesquisa de bandas oligoclonais. Mas afinal de contas para que serve esse exame?

Inicialmente devemos mencionar que é apenas um exame, e não uma certeza absoluta sobre nada. Não adianta realizar o exame sem ter uma suspeita clínica (como qualquer outro exame).

O exame não é feito só no LCR, mas também é coletado sangue do paciente nesse momento. O que se faz é uma simples comparação, claro que com uma tecnologia envolvida, mas não passa de uma comparação, entre a presença dessas bandas no sangue e no líquor.

As proteínas que existem no sangue são muito parecidas com as que existem no líquor, pois este é considerado como uma filtrado do sangue. Logo se compararmos essas proteínas, elas são iguais. Já em algumas doenças, como por exemplo a Esclerose Múltipla, ocorre a produção de proteínas diferentes só no líquor, desta forma a comparação aparecerá diferente (veja a presença de bandas na imagem abaixo):

http://www.ms-gateway.com.pt/html/images/upload/LCR.jpg
As bandas são estas imagens escuras, como códigos de barras, na fila abaixo, onde está escrito LCR à esquerda, e demonstram a presença de proteínas diferentes no líquor em relação ao sangue, ou seja, proteínas produzidas exclusivamente no líquor, e não passado do sangue para ele. 

Isso mostra apenas uma coisa para nós: existe algo errado nas defesas imunológicas que protegem o cérebro de agressões do meio externo a ele. Nesse contexto o significado é de que existem células que podem estar causando a inflamação no cérebro.

Observe abaixo como funciona a inflamação cerebral na esclerose múltipla. 

https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEiEGdCsojw2pCoAaulrmJbxdXPVelniIuql1j69QwIyCt66o4_NaRCpvZAt6q0L0VcWqwq5nqi3ljpHMBo0Ps4f_fox_7Zl2jK9vYArI7Rqm9YmxjmeGzwMn85YrYtsgG2idN7WxGWVPRc/s400/esclerose-multipla-celula-t.jpg

Para dar o diagnóstico de Esclerose Múltipla muito mais coisas são necessárias (avaliações sucessivas do neurologista e exames de imagem), o que será discutido em outro post. 


quinta-feira, janeiro 26, 2012

Para que serve o vídeoeletroencefalograma ou vídeoEEG?

Em primeiro lugar, você tem de saber para que serve um eletroencefalograma (EEG). E para isso, peço que leia antes este tópico deste blog, para saber mais (aqui).

Em certas situações, somente o EEG não ajuda no diagnóstico da causa e do tipo de síndrome epiléptica. Também, certos pacientes apresentam crises que não são epilépticas (convulsões) (leia mais sobre isso aqui). Estes pacientes podem ter crises de desmaios (ou síncopes [leia mais aqui]), que muitas vezes simulam uma crise epiléptica. Outras vezes, alguns pacientes apresentam o que chamamos de pseudocrises (pseûdo, do grego, significa falso, segundo este site), ou seja, crises que parecem mas não são crises epilépticas. Na maior parte das vezes, uma pseudocrise é uma crise de ansiedade, e tem características próprias que podem ser bem discernidas por que conhece (neurologistas experientes).

Então, para poder diagnosticar casos difíceis, quando temos dúvidas se o que estamos diante de é ou não uma crise epiléptica, e para melhor caracterização de crises epilépticas para diagnóstico e tratamento mais diferenciados, recorremos ao vídeoEEG.

O vídeoEEG é um exame mais longo que o EEG, durando de 1 dia até 1 semana, a depender do caso. O paciente geralmente é internado em uma unidade de vídeoEEG, e os eletrodos são colocados em sua cabeça, como no EEG (veja abaixo):

http://people.brandeis.edu/~sekuler/imgs/rwsEEG.jpg
Esta é uma montagem bastante completa de um vídeoEEG. 

Mas ao contrário do EEG, onde somente o técnico vê o  paciente, e talvez o médico se chegar a tempo ou quiser acompanhar o exame, o paciente no vídeoEEG é filmado 24 horas por dia, manhã, tarde e noite. O filme é visto por médicos, e comparado aos traçados do EEG obtidos durante o exame. 

Observe um exemplo de visualização de um vídeoEEG:

http://www.nihonkohden.de/typo3temp/pics/7255951749.jpg
Observe os traçados à esquerda e a paciente sendo filmada à direita.

Com este método, pode-se caracterizar os traçados do EEG, correlacioná-los com os movimentos do paciente, e saber se os movimentos vêm de alterações elétricas cerebrais ou não, e se vêm, de onde vêm. É um exame de muita importância.

Importante também saber que no caso de um exame destes, geralmente as medicações dos pacientes são retiradas ou são diminuídas suas doses, para que se possa, produzindo crise em um ambiente controlado e seguro, saber-se de onde as crises estão vindo. Isto não deve assustar nem o paciente e nem o familiar, e caso o diagnóstico seja dado logo, o paciente poderá receber alta e ter suas medicações de volta sem riscos.

O paciente durante o exame é continuamente monitorado por enfermagem competente e preparada, 24 horas por dia. 

Mais informações você pode encontrar neste link externo.


quarta-feira, novembro 09, 2011

Para que serve a angiografia cerebral?

Este termo também refere-se ao que chamamos de cateterismo cerebral, ou seja, o acesso de uma artéria periférica (do braço ou da perna) para avaliação radiológica de vasos cerebrais (carótidas, vertebrais, e artérias do crânio). O médico, neste exame, insere um catéter bem fino por uma artéria (ou a artéria ilíaca, da coxa, ou a braquial, do braço), que é guiado até a aorta, e de lá para as artérias e veias cerebrais. Assim, injetando-se contraste iodado nos vasos, e tirando chapas de radiografias em vários ângulos e posições, o médico consegue determinar algumas coisas em relação aos vasos da cabeça do paciente.

Este abaixo é um aparelho de angiografia, que nada mais é do que uma máquina de raios X que pode rodar ao redor do paciente, e tirar radiografias de várias posições.

 http://radioactivityci2010.pbworks.com/f/1290007344/angio.jpg
Observe a figura abaixo:

http://www.arthursclipart.org/medical/circulatory/arteries%20of%20the%20body.gif 

Essa figura mostra as artérias principais do corpo, e por ela percebe-se que podemos alcançar as artérias cerebrais através de qualquer artéria periférica pela aorta, a grande artéria que sai do coração e desce até o abdome.

Certo. Você viu como é um aparelho de angiografia, o básico de como é realizado o exame, e como podemos abordar as artérias da cabeça através da perna ou do braço. Mas, como é uma imagem de uma angiografia cerebral?

Como disse antes, a angiografia é uma radiografia de sua cabeça, com os vasos todos cheios de contraste, tirada de vários ângulos diferentes. Assim, podemos ver seus vasos arteriais e venosos (sim, artérias e veias, por que as veias as comunicam com as artérias através através de pequeníssimos vasos chamados de capilares, e podemos ver as veias após o contraste ter saído das artérias e entrado nos capilares).

Observe a figura abaixo:

http://www.meddean.luc.edu/lumen/MedEd/radio/curriculum/Vascular/DSCN0099.JPG 

Observe esta grande artérias. Esta é a imagem de uma angiografia. Esta é a aorta, saindo do seu coração, indo para o tórax e abdome, mas antes dando ramos para os braços (os ramos laterais) e para a cabeça (os ramos que sobem). Os ramos laterais são as artérias subclávias, e os ramos que sobem são as artérias carótidas. As artérias subclávias também dão ramos para a cabeça, as artérias vertebrais. A sombra que você pode ver na parte esquerda da imagem é o coração, já esvaziando o contraste que estava nele.

Observe esta outra figura abaixo:

http://www.lakeshoretech.net/images_videos/angiography_cerebral_integration_4.jpg
Esta é uma angiografia cerebral mostrando a artéria carótida interna dentro do crânio (intracraniana), bifurcando-se em artéria cerebral anterior e média (leia o post sobre artérias da cabeça para saber mais).


Mas para que serve a angiografia cerebral?

A angiografia serve para que os vasos do corpo sejam visualizados de forma natural, in vivo. O médico consegue ver as artérias se enchendo e se esvaziando, e consegue assim dar um diagnóstico mais preciso de lesões arteriais ou venosas cerebrais, A angiografia, por ser um método de contraste invasivo, além de demonstrar o que queremos ver em vários ângulos, permite tirar todas as dúvidas quando pensamos em uma lesão de vasos cerebrais como a causa da doença do paciente.

Mas é um método que deve ser indicado de forma criteriosa somente pelo médico, explicando todos os riscos e benefícios ao paciente e aos seus parentes. Métodos como a angiotomografia (tomografia que consegue ver vasos melhor) e a angioressonância (técnica de ressonância magnética para ver vasos) têm boa sensiblidade, e conseguem ver as lesões mais comuns que podem afetar os pacientes.

Os principais motivos pelos quais o médico pode solicitar este exame são:

1. Obstrução de artéria carótida e das artérias vertebrais - Esta é a causa mais comum de derrame, e o médico deve poder estimar o grau de obstrução de um vaso (estenose) para que possa ditar o melhor tratamento, ou medicações ou cirurgia (endarterectomia, ou seja, a limpeza do vaso a céu aberto, ou colocação de stent no vaso).

http://brainavm.oci.utoronto.ca/images/malformations/carotid_stenosis/carotid_stenosis.jpg 

Nesta figura de cima, temos uma estenose carotídea grave pela angiografia. Sabendo-se do grau de estenose, pode-se propor o tratamento mais correto.

2. Diagnóstico da causa de lesões vasculares - Muitas vezes ocorre uma dor de cabeça súbita ou um derrame em um paciente com ou sem fatores de risco para derrames, como pressão alta ou fumo. O médico deve ir atrás da causa do derrame, para que evite um novo ou complicações mais graves. Em alguns pacientes, a angiografua torna-se importante para que possamos saber a caua exata do problema, e assim tratá-lo. Exemplos são dissecções arteriais, ou seja, quando a parede da artéria é destruída e sangue entra pela parede, produzindo uma segunda luz, podendo causar obstrução arterial e saída de um coágulo para cima, para o cérebro (embolia). Observe abaixo:

http://img.medscape.com/fullsize/migrated/497/907/smj497907.fig1.gif 
Esta figura mostra uma dissecção arterial da carótida, na figura à direita, e a lesão cerebral correspondente, na figura à esquerda, grande por sinal (a área branca e brilhante na imagem é a lesão aguda).


3. Obstrução dos vasos internos da cabeça, como as artérias cerebrais anterior, média e posterior, e a artéria basilar - Quando ocorre um derrame, e o doppler de carótidas não mostra lesão, isso pode ser verdade, apesar de que algumas vezes o doppler pode enganar, e haver sim uma lesão na carótida. Mas nas situações em que não há lesão carotídea, pode haver lesão em vasdos dentro do cérebro, como as artérias cerebrais ou a basilar. A angiografia pode auxiliar nesse diagnóstico, apesar de que técnicas como a angioressonância e a angiotomografia podem ser solicitadas no lugar, por serem menos invasivas e mais seguras.


4. Diagnóstico de aneurismas cerebrais e malformações artério-venosas - Aneurismas são dilatações como sacos das artérias, que possuem parede mais fina, e maior chance de rompimento. Têm como fatores de risco mais comuns o fumo (tabagismo), a hipertensão arterial mal controlada e fatores genéticos. Podem passar despercebidos por toda uma vida, mas podem romper causando dores de cabeça intensas e súbitas, e podem até mesmo levar à morte. Já as malformações artério-venosas (ou MAVs) são lesões cerebrais que se formam durante o desenvolvimento cerebral, formadas por uma artéria grande malformada, vasos malformados e de parede fraca dispersos pela lesão, e uma veia de drenagem. Também podem passar despercebidos, mas podem levar a derrames, crises epilépticas ou romper, levando a sangramento cerebral. Seus diagnósticos podem ser feitos pela angioressonância, pela angiotomografia ou pela angiografia cerebral. Veja abaixo:

http://www.methodsofhealing.com/Healing_Conditions/files/2008/10/Cerebral-Aneurysms.jpg 

Esta figura mostra os tipos de aneurismas cerebrais, e como se parecem.

Abaixo você vê a imagem de um grande aneurisma cerebral por auma angiografia:

http://www.drdavidlanger.com/what_we_treat/cerebrovascular/aneurysms/images/cerebral%20aneurism.JPG.

Uma malformação artério-venosa você vê abaixo, em uma angiografia:

http://www.aneurysm-stroke.com/images/AVM-before.jpg.

Mas veja que técnicas como a angioressonância também vêem malformações e aneurismas muito bem, neste caso abaixo marcado com uma seta vermelha:

http://www.totalfm.com.br/admin/images/3_saude_ciencia_203.jpg.g.jpg

Os aparelhos de programas de angioressonância estão ficando cada vez mais aperfeiçoados e conseguem ver mais coisas do que antes.

5. Diagnóstico de trombose venosa cerebral - Esta é uma causa relativamente rara de derrame. Ocorre quando há obstrução (trombose) das veias da cabeça. Veja abaixo as veias da cabeça:

 http://www.ajnr.org/content/25/5/787/F1.small.gif
Esta é uma imagem de uma angioressonância. Aqui vêem-se as veias cerebrais. Mas veja uma imagem pela angiografia:

http://images.radiopaedia.org/images/12553/9bf8184d23b558893314d160eb6cca.jpg 
Há algumas outras indicações mais raras para a realização de angiografia. Mas o que você deve ter percebido é que este exame é importante, dá várias informações valiosas, mas há exames que dão informações parecidas com menos riscos, como a angiotomografia ou a angioressonância. Mas a angiografia ainda tem o seu papel garantido quando estes exames não conseguem ver o que queremos, e sabemos que há lesão em algum lugar.

Mas a angiografia também serve para o tratamento de algumas lesões vasculares cerebrais. A passagem de um stent (molinha que abre o vaso), a colocação de molas dentro de um aneurisma para fechá-lo, ou o fechamento de uma malformação só podem ser conseguidos pela abordagem dos vasos através da angiografia cerebral. Até o tratamento de alguns tipos de tumores cerebrais podem ser feitos com a angiografia cerebral, como a abordagem de certos tumores cheios de vasos com medicações, por exemplo. Sem a angiografia, portanto, procedimentos salvadores de vida não poderiam ser feitos.

Um stent é o que você vê abaixo:

https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEjJxFmbORpJfgk9kLyeMEghkIKhaUmDIElkZDtd5-SpGQToi-u6ArZcHlsHw8QD5x8xBMY8pSXGaYZbxgBPWbjNgTDhs5vjxRJC46a6GXGxfFjA7Jk6ixpc5CaZ1Cpktb8Xe9tG81EcXFQR/s400/Stent+V1150.jpg
O stent serve para abrir o vaso e rechaçar a placa de colesterol, a placa de ateroma. É uma das modalidades de tratamento vascular para derrames.

Já as molas de auerismas para fechamento dos mesmos são o que você vê abaixo:

http://www.brainaneurysm.com/assets/images/pic-3coils.jpg 
Ou seja, a angiografia cerebral tem vários, mas vários usos. Depende do seu médico a indicação criteriosa do exame, pois pode ser a técnica mais indicada no seu diagnóstico ou tratamento. 








quarta-feira, setembro 07, 2011

Para que serve o exame de eletroneuromiografia?

Outro desses nomes estranhos e supergrandes (Quando eu era pequeno, era uma dificuldade falar a palavra otorrinolaringologista. Você já tentou?). Mas os pacientes conhecem este exame como o exame dos choquinhos e das agulhas. Ficou na mesma? Vamos explicar:

Como já falei em vários posts anteriores, o sistema nervoso é formado pelos sistemas central, periférico e autonômico. O periférico são os nervos e os músculos. Não é difícil examinar os nervos sem vê-los de perto ou tocá-los. É simplesmente questão de saber onde cada nervo vai, para qual parte do corpo cada nervo vai e qual músculo cada nervo inerva, e o médico pode ter uma ideia de qual nervo está afetado.

Os nervos se dividem em motores, sensitivos e mistos. Os motores puros são aqueles cuja função é somente a movimentação muscular, e não têm outra função. No corpo, são raros estes nervos, e os mais conhecidos são os nervos cranianos oculomotor, troclear, abducente, acessório e hipoglosso (já falamos dos três primeiros em posts anteriores). Os sensitivos puros são aqueles cuja única função é a sensibilidade da pele e das mucosas (boca, língua, vagina, uretra, etc...). Aqui temos o cutâneo lateral da coxa, os cutâneos do braço e antebraço, e outros nervos. Os mistos são os mais comuns, e carreiam tanto sensibilidade como função motora. Alguns nervos também carregam informações çpara as glândulas do suor (sudoríparas), da salivação, para a motilidade dos órgãos internos e outras funções, ditas autonômicas, pois independem de nossa vontade.

Bem, mas o exame dos nervos e dos músculos é somente o exame clínico, de se pegar, palpar, mover, tocar o paciente e verificar sua força? Não, há um exame que nos permite examinar mais a fundo os nervos e os músculos do corpo, verificando sua estrutura, sua função e suas doenças. Esse exame é a eletroneuromiografia. E esse exame é tão importante que é considerado extensão do exame do consultório.

 A eletroneuromiografia é composta de duas partes: 1. A parte dos choquinhos, ou estudo de condução nervosa, onde o médico através de leves choques dados aos nervos através de eletrodos aplicados á pele consegue dizer como está a condução dos impulsos pelos nervos. 2. A parte das agulhas, é quando o médico insere agulhas nos músculos selecionados para estudo para verificar não somente como estão os músculos, mas também para determinar como está a condução dos nervos motores.

O exame não somente nos diz se há problemas do sistema nervoso periférico, como nos ajuda a determinar qual a origem deste problema. O médico experiente e com tempo adequado consegue dizer se o problema está na medula, nas raízes dos nervos, nos plexos, nos nervos em si ou nos músculos. Diz ainda se são só os nervos motores, só os sensitivos, ou os mistos que estão acometidos. E diz mais. Diz se a lesão está na bainha que reveste o nervo (mielina - lesão desmielinizante) ou no nervo em si (lesão axonal). O exame permite ao médico ainda dizer se há lesão muscular e o tipo de lesão, auxiliando no diagnóstico de doenças do músculo.

Logo, é um exame difícil e por vezes doloroso, mas nos traz informações que somente o exame de consultório muitas vezes não dá.

Abaixo você vê um vídeo em espanhol com legendas em português sobre a eletroneuromiografia (popularmente conhecido como ENMG ou EMG), tirado do youtube (copie e cole no seu browser para assistir - dura somente 4 minutos):


http://www.youtube.com/watch?v=q60Q1xVNMDM&feature=player_detailpage




sexta-feira, setembro 02, 2011

Para que serve o ultrassom Doppler de carótidas?

Em primeiro lugar, vamos falar o que é um ultrassom. O ouvido humano é capaz de ouvir ruídos entre 20 e 20,000 Hz (Hz significa Hertz, medida usada para denominar ciclos de ondas por segundo, em homenagem ao físico alemão Heinrich Hertz (leia mais sobre isso aqui). Abaixo de 20 Hz, chamamos o som de infrassom, e acima de 20,000 Hz (ou 20 KiloHertz [KHz], chamamos de ultrassom). Alguns animais usam o ultrassom como meio de sobrevivência, como os morcegos e os cães, entre outros. 

O ultrassom pode ser usado em medicina. Sendo uma onda, o som move as moléculas de ar à sua frente, e propaga-se por qualquer meio líquido, sólido ou gasoso. Logo, também choca-se contra obstáculos e rebate de volta. É este fenômeno físico que é usado no ultrassom. Usam-se ondas de ultrassom (daí o nome ultrassonografia) para chocar-se (sem danificar nada, claro) contra os órgãos e outras estruturas, e voltar para o aparelho, dando-nos uma noção do que está acontecendo com o sistema em estudo. Pode-se fazer ultrassonografia do abdome, dos membros, dos testículos, do pescoço, dos vasos, e mesmo da cabeça. 

Já o Doppler é outro fenômeno físico do som, sendo que este nome foi dado em homenagem ao físico Johann Cristian Andreas Doppler (leia mais aqui) que descreveu o fenômeno. 

Fique parado em uma calçada e veja uma ambulância correr pela rua com a sirene ligada. À medida que a ambulância se aproxima de você, o som vai ficando mais alto e mais agudo, alcançando seu máximo no momento em que ela cruza o local onde você está, e logo que ela começa a se afastar, o som começa a ficar mais baixo, menos agudo e distorcido. Esse é o fenômeno Doppler. Observe abaixo:

http://upload.wikimedia.org/wikipedia/commons/9/90/Dopplerfrequenz.gif
Observe que o som fica com a frequência mais alta para quem está na frente do carro, e mais baixa (espaço entre as ondas maior) para quem fica atrás do carro. 

http://upload.wikimedia.org/wikipedia/commons/thumb/f/f7/Doppler_effect_diagrammatic.png/800px-Doppler_effect_diagrammatic.png
E em medicina, para que usamos isso??

Bem, em primeiro lugar, o ultrassom do aparelho é produzido e transmitido através de um transdutor, um aparelhinho que é colocado sobre a área em estudo. 

Observe abaixo:

http://images.quebarato.com.br/T440x/aparelho+usg+ultrassonografia+aloka+ssd+500+micrus+seminovo+salvador+ba+brasil__3F68F7_1.jpg
Aqui você vê um aparelho de ultrassonografia com os vários transdutores do lado direito.

Ele emite as ondas que serão usadas no estudo. Imagine que este aparelhinho sobre a sua artéria carótida é um observador. Quem seria o carro aqui??

Simples, o sangue que corre em suas veias e artérias. Imagine que o sangue está vindo em direção ao transdutor, passa por ele e vai embora. Se o transdutor emite e recebe as ondas de ultrassom, ele vai detectar anormalidades de velocidade e frequência destas ondas, mesmo elas se chocando contra algo em movimento, o sangue. E é isso mesmo que ocorre. 

O aparelho recebe justamente as informações calculadas de velocidade e direção de fluxo do sangue através do efeito Doppler do sangue e das ondas sonoras que saem e voltam ao próprio aparelho.

E quais as funções de um exame desses?

Não somente o exame detecta existência, direção e velocidade de fluxo, neste nosso caso das artérias que vão para o cérebro (carótidas e vertebrais), mas através de estudos anatômicos, o exame pode também detectar se as paredes dos vasos estão normais, se há placas de colesterol, e através da velocidade do sangue, dizer qual o provável tamanho da placa (através de padrões de velocidade, pode-se graduar graus de estenose, ou estreitamento, do vaso em porcentagens de 0 a 15%, 16 a 49%, 50 a 69%, ou acima de 69% de estreitamento, ou estenose, ou mesmo oclusão, ou fechamento total, do vaso).


segunda-feira, julho 25, 2011

O que são "focos de gliose ou microangiopatia"?

Você já leu isso, ou o seu médico viu esse resultado no seu exame de ressonância? Você perguntou o que é isso ao seu médico? Você sabe o que é isso? Se você respondeu não a duas ou mais das perguntas, você está no lugar certo para saber o que é isso!

Primeiro, vamos a um pouco mais de anatomia. O cérebro é formado grosseiramente por duas partes, as substâncias branca e cinzenta. A cinzenta são os neurônios (Veja aqui), e tem realmente um aspecto mais escuro ao exame. Já a substância branca são os prolongamentos dos neurônios, os axônios e os dendritos, mais as células de suporte, as células da glia ou gliais (Veja aqui). Estes prolongamentos são rodeados por uma substância chamada de mielina, produzida pelos oligodendrócitos. Veja o link acima para mais detalhes.

http://familymedicinehelp.com/wp-content/uploads/2010/08/stroke-300x240.jpg













O cérebro é também composto por vasos sanguíneos, e os vasos vão ficando cada vez menores à medida que vão se aprofundando no cérebro. Os superficiais são maiores, e têm o que chamamos de circulação colateral, ou seja, um vaso faz comunicação com outros. Desse modo, a superfície cerebral têm áreas que são supridas por mais de um vaso, e se um vasinho fechar, outros o ajudarão a não deixar aquela região sofrer. Mas na profundidade do cérebro, a circulação colateral acaba, e os vasos vão ficando mais finos e solitários.


http://familymedicinehelp.com/wp-content/uploads/2010/08/stroke-300x240.jpg

Observe que os vasos mais profundos são menores que os mais superficiais, e também menos relacionados uns com os outros. E esses vasos menores irrigam pequenas partes do tecido cerebral profundo. Logo, entupimento destes vasos podem levar a lesões cerebrais localizadas, pequenas, dependendo de quantos destes vasos são ocluídos.

Mas além de artérias, o cérebro também possui veias, e as veias, diferente das artérias que entram no cérebro (levando sangue cheio de oxigênio), saem do cérebro (levando sangue cheio de gás carbônico para os pulmões e lixo dos tecidos para os rins e fígado). As veias também são grossas e grandes na superfície, e vão ficando cada vez menores na profundidade cerebral (as vênulas). Ao redor das vênulas, podem se formar inflamações por vários motivos (a esclerose múltipla, por exemplo, constitue-se de focos inflamatórios ao redor de vênulas, ou seja, perivenulares).

Muito bem, agora que você entendeu um pouco de seu cérebro, vamos falar de você!

O que são "focos de gliose ou microangiopatia"? Bem, o que ocorre é que algumas minúsculas áreas do seu cérebro sofreram algum tipo de lesão por vários motivos (motivos estes que o seu médico deve pesquisar e dizer). Estas áreas podem ser isoladas (ou seja, em uma porção única qualquer do cérebro), múltiplas ou confluentes (quando várias destas lesões se juntam e forma lesões maiores).

Na maior parte das vezes, estas lesões não são de significância, ou seja, não são importantes. Mas na verdade, é seu médico que deve verificar a importância delas. Em outros casos, estas lesões pode sugerir alguma doença mais séria, como um derrame ou esclerose múltipla. Mas não fique preocupado.

Quais são as causas de "focos de gliose ou microangiopatia"?

1. Idade - Ocasionalmente, pessoas acima dos 40 anos de idade, normais, saudáveis, sem doença alguma, podem apresentar estas lesões, geralmente isoladas ou em pouca quantidade, e não querem dizer mais nada além de "seu cérebro está ficando velho"!
2. Tabagismo (Fumo) - Pela possibilidade de lesão vascular em vários locais, como o cérebro, o tabagismo pode levar a lesões deste tipo, e dependendo da extensão e do número de lesões, isso deve ser investigado.
3. Hipertensão arterial (Pressão alta) - É a causa mais frequente destas lesões, e como o tabagismo, sugere lesão de vários vasos no corpo, entre eles os cerebrais. Na presença de pressão alta, estas lesões devem também ser investigadas.
4. Diabetes - Ocorre aqui o mesmo que ocorre com a pressão alta.
5. Enxaqueca - Pacientes sem outras doenças com enxaqueca podem apresentar estas lesões. Enxaqueca é uma doença vascular do cérebro, ou seja, também acomete os vasos cerebrais, e pode levar a lesões vasculares. Os focos de microangiopatia podem significar acometimento de pequenos vasos cerebrais, mas nestes casos são geralmente poucos e pequenos, e sua presença sem outras doenças como diabetes ou pressão alta não é de significância. No entanto, seu médico deve olhar o exame e decidir o melhor caminho a seguir para você!
6. Esclerose múltipla - Aqui as lesões são diferentes, são múltiplas, confluentes, e têm aspecto específico. Seu médico neurologista saberá diferenciar as lesões insignificantes das causadas por esclerose múltipla.

Em conclusão, estas lesões devem ser avaliadas no contexto geral do paciente, ou seja, idade, sexo, fatores de risco vascular e sintomas/sinais ao exame neurológico. Não é possível tirar conclusões sem ver o paciente, e somente o médico que o acompanha pode dizer algo a respeito destas pequenas lesões cerebrais.

Mas fique tranquilo, pois na maior parte não significam muita coisa. Mas se você quer evitar que estas lesões aumentem ou se espalhem, pratique atividade física orientada pelo seu clínico ou cardiologista, pare de fumar, pare de comer besteiras, tenha alimentação saudável, pare de beber álcool em grande quantidade, emagreça e trate sua pressão, se estiver alta, e seu diabetes, caso você tenha diabetes. Também tome suas medicações conforme seu médico lhe orientou! Observe seu colesterol também!

E tenha uma vida saudável.

quinta-feira, julho 07, 2011

O doutor me pediu um exame de líquido da espinha - O que é isso?

Antes de falarmos sobre o exame em si, vamos falar do líquido da espinha, mas propriamente chamado de líquor (aqui será chamado de LCR, para líquido céfalo-raquidiano).

O LCR é uma mistura que banha o cérebro e a medula, correndo entre duas meninges (Vide aqui), a dura máter e a aracnóide. Serve para várias coisas, entre elas para proporcionar uma almofada para o cérebro e a medula para evitar traumas, como meio de manuntenção da temperatura cerebral e medular, para carrear nutrientes para suprir as estruturas banhadas por ele, e outras funções. Mas o mais interessante é que, em algumas doenças cerebrais e medulares, e mesmo de nervos periféricos como a síndrome de Guillain-Barré (Olhe este artigo), o LCR pode se alterar, e isso auxilia no diagnóstico de várias doenças.

O LCR é um líquido transparente, igual a água pura, cristalina, e sem cheiro, formado por várias substâncias, como glicose (açúcar), cloretos, lactato (produto do metabolismo celular), proteínas, ureia, e células (linfócitos, monócitos e neutrófilos, células de defesa do sangue e que habitam o LCR em minúsculas quantidades, em geral de 3 a 5 células por campo microscópico em uma adulto normal). A glicose em geral tem de ser cerca de 2/3 a glicose do sangue (glicemia) e as proteínas não devem ultrapassar a concentração de 40 mg/dl. Não há certas células normalmente no LCR, como eosinófilos (células relacionadas às alergias e às verminoses) e hemácias (células vermelhas do sangue).

A pressão do LCR, que corresponde grosseiramente à pressão dentro da caixa craniana, onde fica o cérebro, é importante também, e é medida em uma unidade chamada de centrímetro de água (ou cmH2O), mas pode ser medida em milímetros de água (mmH2O), simplesmente pela multiplicação do valor em cmH2O por 10, ou em centímetros ou milímetros de mercúrio (cmHg ou mmHg) através de outras manobras matemáticas. Para se medir a pressão, deita-se o paciente para que a pressão embaixo se iguale à de cima (caso contrário, a pressão embaixo vai ser igual à do cérebro mais a carga toda da coluna de LCR em cima do local onde se está colhendo, e ela será maior que o esperado).

O LCR, assim, ao visualizar células que não deveriam estar ali, ou aumento ou diminuição de certos constituintes, pode ajudar a dizer se aquele diagnóstico que seu médico pensou está certo ou não.

O diagnóstico mais importante para se colher um LCR é a meningite bacteriana, que leva a um LCR leitoso, turvo, branco, e cheio de células (neutrófilos) e proteínas, com glicose quase zero. Mas as meningites virais, causadas por vírus, podem levar a LCR de aspecto normal, mas com poucas células, a maior parte delas limfócitos e monócitos, proteína levemente aumentada, e glicose normal.

Outras infecções como tuberculose e toxoplasmose podem levar a alterações. Uma infecção comum em certos grupos, especialmente os imunodeficientes não controlados, como os portadores de AIDS, é a criptococose, infecção por um fungo, o Cryptococcus, e causa LCR bem alterado com pressão bem aumentada.

Outras doenças podem levar a alterações no LCR, como certas inflamações cerebrais e sangramentos cerebrais. Pacientes após uma crise epiléptica podem mostrar LCR com muitas células e proteina aumentada. Sangramentos cerebrais podem levar a alterações no LCR (neste grupo estão as hemorragias causadas por aneurismas, que às vezes não podem ser vistas na tomografia, e acabam por ser flagradas no exame de LCR).

Abscessos cerebrais, infecções presas em cápsulas dentro do cérebro, podem alterar o LCR também. Lesões medulares, como desmielinzações, infecções, certos tipos de tumores, podem levar a alterações também.

Bem, você já deve ter entendido que o exame de LCR pode ser muito importante para seu diagnóstico. E como é feito o exame?

Primeiro, o paciente tem de estar calmo e tranquilo. Pacientes tensos tornam o exame mais difícil, pela tensão da musculatura lombar, e por que nestes casos a pressão dentro do LCR aumenta (ela também depende da pressão dentro da barriga, que estará aumentada quando se está tenso). O paciente pode ficar sentado ou deitado, de lado, em uma posição dita fetal, com a cabeça grudada no peito e os joelhos encostados na barriga. O posicionamento correto do paciente deve ser feito, e muito bem feito, por que sem ele não se colhe o LCR direito. A coluna tem de estar reta, alinhada com a maca (que deve ser rígida), e com os espaços intervertebrais abertos para a entrada da agulha.

Hein? Espaços intervertebrais? Como assim?

Isso mesmo, lembra que em artigo anterior, quando se falou de medula, falou-se de vértebras (Veja aqui)? Pois é, e aqui vai outra figura:


Essa figura veio daqui:  http://www.nytimes.com/imagepages/2007/08/01/health/adam/9242CSFsmear.html

Olha a agulha entrando entre as vértebras. Elas tem de estar bem separadas para a agulha não encontrar osso pela frente, e sim o espaço subaracnóide.

E a posição do paciente? É essa aqui:


Essa figura veion daqui: http://www.stfranciscare.org/saintfrancisdoctors/cancercenter/nci/popUpDefinitions.aspx?id=CDR46303.xml

Mas pode-se colher sentado também, e para medir a pressão basta deitar o paciente de lado, com a cabeça nivelada com a coluna lombar.

E o exame dói? Sim, dói um pouco, mas depende de sua percepção de dor. Colho vários exames destes por mês, e vários pacientes dizem que não sentiramnada, e alguns poucos sentem demais. Portanto, varia de acordo com a tensão ou calma do paciente, com a colaboração do mesmo, com a técnica do médico, com o posicionamento do paciente para coleta, e com a situação do paciente no momento.

Espero que você tenha aprendido o que é, e o porquê da coleta do LCR.

quarta-feira, julho 06, 2011

O que é a ressonância magnética e para que serve em neurologia?

Muito bem, hoje vamos discutir eletromagnetismo! Mas antes, vamos lembrar da tomografia discutida em dois artigos anteriores (leia o artigo de tomografia de crânio antes deste, pode lhe ajudar a compreender melhor as diferenças entre esta e a ressonância).

Quando temos alguma lesão, neste caso na cabeça ou na coluna, fazemos exames para tentar identificar o que causa a lesão. Daí, solicitamos uma técnica que examina o corpo por dentro. A tomografia o faz isso através de radiação, os raios X, os mesmos usados nas radiografias, ms em maior quantidade e intensidade. Mas a tomografia tem limitações, pois somente conseguer ver as estruturas em escalas de cinza (branco, que corresponde a osso, metal ou sangue recente), pasando pelo cinza claro e escuro (o cérebro normal tem densidade cinza na tomografia) até o escuro, da água e do ar (este o mais escuro de todos). Mas a ressonância é diferente. Ela não utiliza radiação, e não vê as coisas em tons de cinza.

Você já ouviu falar que não pode entrar com objetos de metal como aneis ou brincos na ressonância? Ou que se você tiver piercing, objetos metálicos dentro do corpo, como alguns tipos de próteses ou projéteis, ou se você for portador de marcapasso cardíaco, não pode nem passar perto de um aparelho ligado de ressonância? E você sabe por que? Aqui você irá aprender.

O suspense serve para alimentar a curiosidade.

Dentro de seu corpo, há milhares, milhões, bilhões de moléculas de água! Água é formada por dois átomos de hidrogênio (H) e um de oxigênio (O), fazendo a fórmula H2O. Um átomo é uma estrutura minúscula, mas muito, muito, muito pequena, formada por um núcleo e órbitas que posseum cargas negativas (os elétrons). São estes elétrons que correndo em um fio elétrico produzem a eletricidade, e te dão aquele baita choque quando você se descuida com algum aparelho.

Observe um átomo:

 Essa figura veio daqui: http://www.ormusoils.com/whatthenisit.html

A tendência do átomo é ficar eletricamente neutro, já que por convenção os elétrons são negativos e o núcleo (formado por prótons e nêutrons) é positivo. Mas nem sempre é assim, e pode faltar ou sobrar elétron em um átomo, tornando-o um íon. Estes íons (átomos carregados) que são o objeto da ressonância magnética.

Quando seu corpo está dentro do aparelho de ressonância, este solta uma onda de radiofrequência que forma um campo magnético muito, mas muito forte, gerando um imã, levando ao alinhamento e oscilação dos átomos carregados das moléculas de água. Este imã acaba por atrait tudo que for de metal, tudo o que conduzir eletricidade, inclusive os seus objetos metálicos, seu piercing (ai) e pode fazer parar um marcapasso. Por isso, nunca entre ou passe perto de um aparelho de ressonância ligado se você possuir objetos metálicos, marcapasso ou alguém lhe disser para não fazer isso!

São estes átomos de hidrogênio e oxigênio que, depois de ativados pelo campo magnético, ao retornarem ao seu estado de repouso liberam energia que é lida pelo aparelho sob a forma de imagem! Interessante, não?

Aqui vai um aparelho de ressonância. Compare com o tomógrafo em artigo anterior


Essa imagem veio daqui: http://www.magnet.fsu.edu/education/tutorials/magnetacademy/mri/


E quais são as vantagens da ressonância sobre a tomografia? Vamos lá. Inicialmente, vejamos um cérebro em um filme de ressonância:

Inicialmenteveja um conjunto de imagens de ressonância magnética, e compare com a tomografia no post anterior:





Essa imagem veio daqui: http://radlinkmedicare.com/physician_mri.aspx

Observe que a definição da imagem é muitas vezes superior, permitindo uma melhor visualização das estruturas cerebrais. Mas não é só isso.

1. Assim como a tomografia, a ressonância pode ser feita de qualquer lugar do corpo, inclusive coluna e membros.

2. A tomografia não pode ser feita em pacientes gestantes, por riscos para o feto. A ressonância pode ser feita, mas a partir do segundo trimestre de gestacional (não se sabe os efeitos do alto campo magnético sobre o embrião recente).

3. O contraste da ressonância é o gadolíneo, hipoalergênico (não causa alergia em risco considerável), diferente do iodo da tomografia, mas igualmente não pode ser administrado para pacientes com doença renal aguda ou crônica por riscos sérios à saúde do paciente.

4. A imagem ressonância pode ser adquirida em vários planos (horizontal, vertical e lateral) (observe a figura acima, é uma imagem adquirida no plano lateral, chamado de sagital), mas os novos aparelhos de tomografia também conseguem faser isso, mas em uma definição menor de imagem.

5. A ressonância não é uma imagem única, como a tomografia, mas podemos fazer uma sequência enorme de imagens para ver as mais variadas coisas - há sequências para ver a anatomia do cérebro e da medula, sequências para ver se há alguma lesão em algum lugar, sequências para ver sangue, para ver cálcio, para ver vasos (artérias e veias) (a angioressonância - mas a tomografia também possui a sua contrapartida, a angiotomografia, também utilizada para ver vasos). E tudo isso numa mesma máquina, bastanto para isso ter-se um software (um programa de computador) necessário para aquela imagem.

6. A ressonância é um exame demorado - dura de 30 a 60 minutos para realizar um exame completo. Por isso, em um pronto-socorro, quando se quer um diagnóstico neurológico rápido, utiliza-se a tomografia, que hoje em dia, com os aparelhos que temos, dura menos de 3 minutos para aquisição de um conjunto completo de imagens.

7. Algumas coisas que a tomografia não vê, a ressonância vê bem, como sangue em pouca quantidade no cérebro, alguns derrames muito recentes (menos de 12 horas), ou certos tumores que na tomografia parecem da mesma densidade do cérebro. Nestes casos, sob suspeita, solicita-se a ressonância.

8. A ressonância serve para o diagnóstico de:
a. Derrames tanto isquêmicos como hemorrágicos, e suas causas, como mal-formações vasculares, tumores vasculares, ou tromboses venosas e aneurismas cerebrais.
b. Tumores cerebrais - todos os tipos
c. Mal-formações cerebrais
d. Hidrocefalia e suas causas, inclusive as causas de hidrocefalia, que muitas vezes passam despercebidas na tomografia
e. Lesões da mielina (bainha de gordura dos neurônios), tanto no cérebro como na medula
f. Hérnia de disco em todos os níveis da medula
g. Lesões dos nervos (Sim! A ressonância pode ser feita para ver lesões dos nervos que andam pelos braços e pernas)
h. Causas de crises epilépticas e convulsões
i. Hematomas cerebrais (tanto espontâneos ou após traumas)
j. Infecções cerebrais, vendo melhor que a tomografia lesões por toxoplasmose, tuberculose ou fungos
etc...

Muito bem, agora você já sabe um pouquinho sobre a ressonância magnética.

sexta-feira, julho 01, 2011

Para que serve o eletroencefalograma

Eletroencefalograma... nome estranho que mais parece um insulto. Mas na verdade refere-se aquele exame dos fios que são colocados na superfície da cabeça enquanto você permanece deitado. É um exame muito comum, e bastante solicitado nos consultórios neurológicos. Mas você sabe para quê que ele serve?

Antes de começarmos, vamos falar um pouco sobre eletricidade cerebral. Sim, eletricidade. Suas células nervosas, os neurônios, transmitem e recebem informações umas das outras através de impulsos elétricos. Você sabia disso? Pois é, e esses impulsos são produzidos pela movimentação de átomos de sódio, potássio e cálcio para dentro e para fora da célula. E é essa eletricidade que é captada pelo eletroencefalograma. Nossos neurônios são incríveis.

Eles possuem um núcleo, onde está o centro, o DNA propriamente dito, e extensões chamadas de axônios e dendritos (já discutidos em artigo anterior). Estes prolongamentos são revestidos por uma bainha de mielina e pela membrana plasmática do neurônio. Nestas membranas estão canais, que são passagens que ligam o ambiente fora da célula com o dentro da célula. É por esses canais que pasam os íons (sódio, potássio, cálcio, cloro) que produzem a energia elétrica. Veja uma membrana com canais abaixo (para quem já estudou biologia, é uma boa hora para recordar):

http://www.cwru.edu/groups/ANCL/pages/01/01_08.htm
A membrana está em azul. Os canais em cinza. E os átomos de sódio em vermelho. Clique na imagem para ver os átomos fluindo pelo canal ativo.

Mas esta eletricidade produzida pelos neurônios é muito pequena para ser captada na superfície da cabeça, fora que há vários tecidos em cima do cérebro, como osso, gordura e pele, que servem para diminuir ainda mais a capacidade de captar esta eletricidade superficialmente. Daí a necessidade de um aparelho que, além de captar a eletricidade, amplifique esses sinais para torná-los visíveis e poderem ser lidos. E o eletroencefalograma faz isso também.

Aqui vai uma página de um registro eletroencefalográfico, cheio de traços estranhos e esquisitos, que você fica se perguntando como o médico consegue ler, mas que não é difícil quando você é treinado para isso. um treinamento que dura 1 ano ou mais de estudos em eletroencefalograma. Por isso, você tem que saber que um médico (geralmente neurologistas), para fazer e ler um eletroencefalograma de forma correta, tem de ter estudado pelo menos 1 ano integral em algum serviço especializado em eletroencefalografia.

http://upload.wikimedia.org/wikipedia/commons/5/5f/ElectroEncephalogram.png

Aqui vai uma outra figura de uma montagem de um eletroencefalograma:

https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEggfex89DP1MUJ8XQvufPDaeEYhWZZN7GHZc_53vb5Q1eAFkuS1PEomHcQ-arNMYvkHMyDJT-jP36vWoUW8eRHcHAQyvmZIq3j8_uDmIw4FWVIdHOmZ9oEi9HlVCc_BKcOFZcXYyNNYbHk/s400/voyag.jpe 
E para que serve o eletroencefalograma (que a partir de agora será chamado de EEG), afinal de contas?

Basicamente, o EEG é usado no diagnósticos de doenças que envolvem a eletricidade cerebral, ou seja, doenças que alteram os impulsos elétricos cerebrais ou o modo como os neurônios transmitem a informação entre eles. E algumas dessas doenças são:

1. Epilepsia e convulsões - São o motivo mais comum do uso do EEG. As convulsões e as crises epilépticas alteram a eletricidade cerebral, por que uma crise epiléptica, como já discutido em artigo anterior neste blog, envolve desequilíbrio elétrico cerebral.

2. Doenças metabólicas - Confusão e alterações cerebrais causadas por doenças do fígado e do rim, como insuficiência do rim e do fígado. O EEG pode auxiliar no diagnóstico destas doenças.

3. Derrames - O EEG não é o exame de escolha no diagnóstico, mas pode mostrar atividade cerebral mais lenta (lentificação dos ritmos de base, o que indica lesão cerebral) no lado ou no local do derrame.

4. Encefalites - Infecções do cérebro, as encefalites podem ter seu diagnóstico facilitado também pelo EEG, que podem inclusive auxiliar no diagnóstico da causa da encefalite (como no caso das encefalites pelo vírus do herpes).

5. Coma - O EEG pode ser útil para diagnosticar o grau de um coma (por várias causas - falaremos mais sobre isso depois), por que comas mais profundos demonstram alterações no EEG diferentes de comas mais superficiais.

6. Controle de sedação - Pacientes com doenças neurológicas severas como crises epilépticas mais duradouras ou que não melhoram mesmo com vários tipos de tratamento (status epilepticus) podem ser sedados com drogas mais fortes (pentobarbital, que é um anestésico), e o diagnóstico da melhora ou não da doença pode ser feito com o EEG.

7. Tumores cerebrais e hematomas cerebrais subdurais (sangramentos cerebrais) podem alterar o EEG. Não servem para o diagnóstico, por que hoje em dia temos a tomografia, e mais recentemente a ressonância magnética (discutiremos sobre ela após) que fazem o diagnóstico.

E dores de cabeça? O EEG serve para essa doença? Não! O EEG pode mostrar alterações insignificantes na enxaqueca, por exemplo, o que pode levar um médico menos experiente a receitar um antiepiléptico sem necessidade. Outras formas de dor de cabeça primária (tensional ou salvas) não produzem alterações no EEG, e este não deve ser solicitado nestas situações. E as dores de cabeça causadas por lesões cerebrais, como tumores, devem ser investigadas com tomografia ou ressonância, e não com EEG, pois este irá mostrar somente alterações inespecíficas (o que nos fará pedir um exame de imagem no final das contas) ou pode nem mostrar nada.

Quem quiser se aprofundar mais na leitura, e souber ler inglês,  vai se interessar pela revisão da Academia Americana de Neurologia sobre o eletroencefalograma no diagnóstico de cefaleia. Além de um parâmetro fisiológico chamado de resposta H ou driving fótico, que não é costumeiramente mensurado em EEG de rotina, e que poderia ajudar no diagnóstico de enxaqueca, apesar de estudos mostrarem que a história clínica é superior a este teste no diagnóstico, não há outros motivos para solicitar EEG em dor de cabeça fora os descritos acima. O link é este.


sábado, junho 25, 2011

Para que serve a tomografia de crânio

Você já se perguntou o porquê de o médico lhe pedir uma tomografia de crânio (TC)? E o que é uma tomografia? Uma radiografia do crânio não seria suficiente? Todas estas perguntas serão respondidas... agora!

Tomografia vem do grego, Tomos (Corte) e Graphos (Imagem), ou seja, imagem em cortes. Na verdade, a tomografia é uma forma antiga (mais de 50 anos de idade) de se visualizar o que ocorre dentro do corpo através do corte da região examinada em várias camadas. Pode-se fazer tomografia de qualquer parte do corpo, qualquer mesmo. Mas é do crânio que se pede mais tomografias.

O aparelho de tomografia é um trambolho como esse que você vê abaixo:



Essa imagem veio daqui: http://es.centa.cat/upload/apartat/2tac4-2.JPG

Sua cabeça ou a parte que se quer examinar entra no aro, e é vista em vários cortes de imagens. As imagens são radiografias mais estilosas do que uma radiografia convencional, e são mostradas em grades como se sua cabeça (ou qualquer parte do seu corpo) fosse cortado, e uma foto fosse tirada de cada parte. Observe abaixo uma imagem de tomografia:



Essa imagem, que aliás não está normal, por que mostra um tumor cerebral (área esbranquiçada no centro das imagens mais baixas) veio daqui: http://www.zgapa.pl/zgapedia/data_pictures/_uploads_wiki/c/CompT.jpg

 O que ocorre é que vários graus de radiação penetram no corpo e retornam ao aparelho, mandando uma mensagem do que viram, e o aparelho desenha o que vê.

E o que uma tomografia de crânio pode ver? Muito bem, vamos lá:

1. Uma TC pode ver se há sangramentos na sua cabeça, decorrentes de uma ruptura de um aneurisma, de trauma craniano, ou de um derrame por pressão alta;
2. Uma TC pode verificar se há derrame isquêmico, causado pelo entupimento de uma artéria ou veia cerebral;
3. Uma TC pode ver se há alargamento dos espaços de líquido no cérebro - os ventrículos;
4. Uma TC pode verificar se há tumores cerebrais ou lesões que cresçam dentro do cérebro;
5. Uma TC pode ajudar a dizer se aquela dor de cabeça que você sente é algo para se preocupar ou não;
6. Uma TC pode ajudar a dizer se vale a pena colher líquido da espinha por conta de alguma doença cerebral ou não.

Ou seja, a TC serve para várias coisas. E é um exame rápido, que dura 2 a 4 minutos para ser feito, ideal quando se quer pressa e rapidez/urgência, como num pronto-socorro.

E o contraste? Para que serve? Muito bem, o contraste serve para ver melhor coisas que sem o contraste passariam desapercebidos, ou seriam difíceis de ver. Várias doenças sofrem o que chamamos de realce com o contraste, ou seja, ficam mais visíveis. É o caso de alguns tipos de tumores e infecções (abscessos) cerebrais. E o contraste é feito de iodo. Ou seja, quem tem alergia a iodo não pode fazer o contraste. Mas se for necessário, o médico irá prescrever tratamento antilérgico antes do contraste.

Mulheres gestantes podem fazer TC? Somente se o médico que a assiste autorizar, e somente se o benefício ultrapassar o risco para o feto, por que radiação pode levar a problemas fetais.

Quem tem marcapasso pode fazer tomografia de crânio? Diferente da ressonância magnética, da qual falaremos depois, onde há um campo magnético ao redor do paciente, na tomografia não há tal coisa, e não há problemas com marcapassos. Ou seja, sim, quem tem marcapasso pode fazer tomografia!

Agora, quem decide se você tem de fazer ou não uma TC é o médico que lhe assiste. Ele discutirá com você as indicações/contra-indicações, e os porquês de fazer ou não.

E para que serve as radiografias de crânio? Basicamente, hoje em dia, para ver traumas ou anormalidades mais grosseiras, e não deve mais ser solicitada de rotina quando se tem uma tomografia que pode ser usada.