sexta-feira, julho 01, 2011

Para que serve o eletroencefalograma

Eletroencefalograma... nome estranho que mais parece um insulto. Mas na verdade refere-se aquele exame dos fios que são colocados na superfície da cabeça enquanto você permanece deitado. É um exame muito comum, e bastante solicitado nos consultórios neurológicos. Mas você sabe para quê que ele serve?

Antes de começarmos, vamos falar um pouco sobre eletricidade cerebral. Sim, eletricidade. Suas células nervosas, os neurônios, transmitem e recebem informações umas das outras através de impulsos elétricos. Você sabia disso? Pois é, e esses impulsos são produzidos pela movimentação de átomos de sódio, potássio e cálcio para dentro e para fora da célula. E é essa eletricidade que é captada pelo eletroencefalograma. Nossos neurônios são incríveis.

Eles possuem um núcleo, onde está o centro, o DNA propriamente dito, e extensões chamadas de axônios e dendritos (já discutidos em artigo anterior). Estes prolongamentos são revestidos por uma bainha de mielina e pela membrana plasmática do neurônio. Nestas membranas estão canais, que são passagens que ligam o ambiente fora da célula com o dentro da célula. É por esses canais que pasam os íons (sódio, potássio, cálcio, cloro) que produzem a energia elétrica. Veja uma membrana com canais abaixo (para quem já estudou biologia, é uma boa hora para recordar):

http://www.cwru.edu/groups/ANCL/pages/01/01_08.htm
A membrana está em azul. Os canais em cinza. E os átomos de sódio em vermelho. Clique na imagem para ver os átomos fluindo pelo canal ativo.

Mas esta eletricidade produzida pelos neurônios é muito pequena para ser captada na superfície da cabeça, fora que há vários tecidos em cima do cérebro, como osso, gordura e pele, que servem para diminuir ainda mais a capacidade de captar esta eletricidade superficialmente. Daí a necessidade de um aparelho que, além de captar a eletricidade, amplifique esses sinais para torná-los visíveis e poderem ser lidos. E o eletroencefalograma faz isso também.

Aqui vai uma página de um registro eletroencefalográfico, cheio de traços estranhos e esquisitos, que você fica se perguntando como o médico consegue ler, mas que não é difícil quando você é treinado para isso. um treinamento que dura 1 ano ou mais de estudos em eletroencefalograma. Por isso, você tem que saber que um médico (geralmente neurologistas), para fazer e ler um eletroencefalograma de forma correta, tem de ter estudado pelo menos 1 ano integral em algum serviço especializado em eletroencefalografia.

http://upload.wikimedia.org/wikipedia/commons/5/5f/ElectroEncephalogram.png

Aqui vai uma outra figura de uma montagem de um eletroencefalograma:

http://3.bp.blogspot.com/_a6500SnWswg/Rv_H4ZBUq8I/AAAAAAAAAnc/c26nxh_6dFs/s400/voyag.jpe 
E para que serve o eletroencefalograma (que a partir de agora será chamado de EEG), afinal de contas?

Basicamente, o EEG é usado no diagnósticos de doenças que envolvem a eletricidade cerebral, ou seja, doenças que alteram os impulsos elétricos cerebrais ou o modo como os neurônios transmitem a informação entre eles. E algumas dessas doenças são:

1. Epilepsia e convulsões - São o motivo mais comum do uso do EEG. As convulsões e as crises epilépticas alteram a eletricidade cerebral, por que uma crise epiléptica, como já discutido em artigo anterior neste blog, envolve desequilíbrio elétrico cerebral.

2. Doenças metabólicas - Confusão e alterações cerebrais causadas por doenças do fígado e do rim, como insuficiência do rim e do fígado. O EEG pode auxiliar no diagnóstico destas doenças.

3. Derrames - O EEG não é o exame de escolha no diagnóstico, mas pode mostrar atividade cerebral mais lenta (lentificação dos ritmos de base, o que indica lesão cerebral) no lado ou no local do derrame.

4. Encefalites - Infecções do cérebro, as encefalites podem ter seu diagnóstico facilitado também pelo EEG, que podem inclusive auxiliar no diagnóstico da causa da encefalite (como no caso das encefalites pelo vírus do herpes).

5. Coma - O EEG pode ser útil para diagnosticar o grau de um coma (por várias causas - falaremos mais sobre isso depois), por que comas mais profundos demonstram alterações no EEG diferentes de comas mais superficiais.

6. Controle de sedação - Pacientes com doenças neurológicas severas como crises epilépticas mais duradouras ou que não melhoram mesmo com vários tipos de tratamento (status epilepticus) podem ser sedados com drogas mais fortes (pentobarbital, que é um anestésico), e o diagnóstico da melhora ou não da doença pode ser feito com o EEG.

7. Tumores cerebrais e hematomas cerebrais subdurais (sangramentos cerebrais) podem alterar o EEG. Não servem para o diagnóstico, por que hoje em dia temos a tomografia, e mais recentemente a ressonância magnética (discutiremos sobre ela após) que fazem o diagnóstico.

E dores de cabeça? O EEG serve para essa doença? Não! O EEG pode mostrar alterações insignificantes na enxaqueca, por exemplo, o que pode levar um médico menos experiente a receitar um antiepiléptico sem necessidade. Outras formas de dor de cabeça primária (tensional ou salvas) não produzem alterações no EEG, e este não deve ser solicitado nestas situações. E as dores de cabeça causadas por lesões cerebrais, como tumores, devem ser investigadas com tomografia ou ressonância, e não com EEG, pois este irá mostrar somente alterações inespecíficas (o que nos fará pedir um exame de imagem no final das contas) ou pode nem mostrar nada.

Quem quiser se aprofundar mais na leitura, e souber ler inglês,  vai se interessar pela revisão da Academia Americana de Neurologia sobre o eletroencefalograma no diagnóstico de cefaleia. Além de um parâmetro fisiológico chamado de resposta H ou driving fótico, que não é costumeiramente mensurado em EEG de rotina, e que poderia ajudar no diagnóstico de enxaqueca, apesar de estudos mostrarem que a história clínica é superior a este teste no diagnóstico, não há outros motivos para solicitar EEG em dor de cabeça fora os descritos acima. O link é este.


17 comentários:

  1. Olá, eu tive um aneurisma cerebral que rompeu uns 10 anos atrás, não precisei operar. Vou ter que fazer esse exame eletroencefalograma como exame adimissional para entrar em uma empresa, gostaria de saber se este exame detecta esse aneurisma rompido? Não sei se isso seria um problema.Obrigado desde já.

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  2. super top
    linguagem dinamica e explicativa
    adorei.

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  3. Boa tarde! Gostei muito da linguagem que usou no blog, bem dinâmica e interativa!
    Estou pesquisando sobre o assunto para saber sobre o resultado que tive do exame Eletroencefalografia (Mapeamento da Atividade Elétrica Cerebral) Tenho 24 anos e dores de cabeça fortes, o medico neuro que passei recentemente, só de fazer algumas perguntas e eu explicar ele disse que eu tenho Enxaqueca. O meu diagnostico da Eletroencefalografia quantitativa e o mapeamento da atividade elétrica cerebral evidenciaram: Lenticação difusa, ocasionadas por ondas teta. poderia me explicar melhor sobre este resultado!? Desde ja Obrigada

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    1. Caro(a), boa noite. Lentificação difusa significa que as ondas cerebrais estão mais lentas, ou seja, as ondas normais de 9 a 13 ciclos por segundo, foram substituídas por ondas mais largas, menos frequentes, de menos de 5-7 ciclos por segundo. O significado disso depende de quem é examinado e da suposta doença que a pessoa apresenta. Não é possível, portanto, falar mais nada sem conhecê-lo.

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  4. Excelente matéria, meu pai precisou fazer um eletroencefalograma, pois do dia para a noite começou a falar com a lingua muito presa ( ele tinha um poquinho), o médico disse que nunca viu nada desse tipo antes, e que neste exame deu uma pequena desordem mas que pode ser que ele tenha nascido dessa forma, alguém sabe o que pode ser?

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  5. ola, boa noite, fiz um eletroencefalograma e nele veio a seguinte conclusão: " Exame encefalografico computadorizado anormal inespecifico por apresentar ondas espiculadas de media voltagem esparsas. predominio de frequencia alfa nas regioes posteriores de ambos os hemisferios. o que significa esse laudo?

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    1. Iracema, o laudo do EEG somente pode ser interpretado com os dados clínicos do paciente. Essas ondas espiculadas necessitam ser avaliadas com o traçado. Já o predomínio de ondas alfa nas regiões posteriores é normal.

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  6. Fiz um eletroencefalograma com o seguinte laudo: EEG mostra uma atividade elétrica de baixa voltagem com dessincronização difusa moderada a acentuada e sem evidenciar atividades irritativas/epileptogênicas; estou preocupado e como somente em março consegui um retorno no ambulatório para entregar o exame, solicito informação do significado deste. Obrigado

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    1. Boa noite. O EEG não parece mostrar atividade epiléptica. A baixa voltagem pode ser em decorrência do próprio aparelho. Normalmente, em vigília, o EEG é dessincronizado, mesmo. Mas por quê ele lhe foi solicitado?

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  7. ola boa tarde pessoal do blog realizei um EEG para concurso e deu o seguinte laudo.
    EEG de vigília e sonolência espontânea, ativado por uma prova de hiperventilação, revelou-se anormal, evidenciando:
    1º atividade de base normal
    2º surtos de ondas lentas deltas difusas com acentuação frontal bilateral, durando de 1a 2 segundos com transientes agudizados esboçando descargas do tipo complexo ponta- onda.
    me ajudem pois no edital só fala de EEG dentro da normalidade.

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  8. Olá, estou com um galo na cabeça, devido a uma queda que tomei menor é ela n desceu mais! Será que esse exame pode servir pra me dizer o que é esse galo?

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    1. Boa noite. Provavelmente não ajudará. O correto é procurar um médico para palpar a lesão e verificar o que pode ser isso.

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  9. meu eletroencefalograma digital foi assim:a frequência dominante é alfa,constituida por ondas de 11 a 13 hz,de 20 a 50 uv,em grupos curtos,irradiando-se as regioes centrais.bem modulado em frequência e em amplitude,sincrônico e simétrico,sinusoidal e complexo.reação de atenuação completa bilateralmente.ha ondas de 14 a 25 hz,de 10 a 20 uv,de prenominancia anterior.o paciente passa por períodos de sonolência,caracterizados por atenuação do ritmo alfa,dominante posterior,lentificação difusa,mais ampla sobre a linha mediana.ativação pela hiperpinéia voluntária(3/30/b),o traçado não se desorganiza.

    CONCLUSÃO:EEG DE VIGÍLIA E SONOLÊNCIA-DENTRO DOS LIMITES NORMAIS DE VARIAÇÃO


    ME AJUDA AI GALERA.É PARA CONCURSO,TO COM MEDO DE SER ELIMINADO

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    1. Boa noite. O EEG está normal, segundo o laudo. Leve-o a um neurologista para checar e atestar o laudo normal.

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  10. oi eu fiz um eletroencefalograma porque tive ataque epilético o resultado não constou epilepsia mas fala sobre estado pos critico o que isso significa e grave


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    1. Bom dia. Estado pós-crítico sugere que você teve uma crise logo antes da realização do exame. Leve esse exame ao seu neurologista.

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Coloque suas perguntas aqui. Mas lembre-se, consultas somente no consultório. Perguntas relativas a sugestões de diagnóstico e tratamento não serão respondidas. Espero que entendam. Obrigado.