domingo, novembro 09, 2014

A neurologia e Aristóteles




http://upload.wikimedia.org/wikipedia/commons/c/c0/Aristoteles.jpg
Leia o post anterior para entender este.

Aristóteles nasceu em 384 a.C.na Grécia, de uma família de médicos. Seu pai havia sido médico do rei da Macedônia, Amyntas II, mas morreu jovem. Aristóteles deve ter recebido educação de colegas médicos de seu pai. Ele estava sendo educado para ser médico, e como todo médico da época, deveria ter uma boa cultura geral, de modo que aos 17 anos, ele foi encaminhado à escola de Platão, a Academia, em Atenas, onde ficou por 20 anos, e no entanto, nunca começou seu treinamento médico.

Em 347 a.C., com a morte de Platão, Aristóteles deixou Atenas e foi para a ilha de Lesbos. O filho de Amyntas II, Felipe II, novo rei da Macedônia, apontou-o como tutor de seu sobrinho, Alexandre, até a idade dos 16 anos, quando este tornou-se regente da Macedônia, passando para a história como Alexandre, o Grande, e devido aos seus conhecidos empreedimentos bélicos e às suas conquistas, passou a ter pouco tempo para atividades acadêmicas. Em 335, Aristóteles acabou por retornar para Atenas, fundou uma nova escola, e um centro de pesquisas, o Liceum, que recebeu ajuda financeira de Alexandre, o Grande, que além disso, à medida que conquistava terras mais distantes, encaminhava a Aristóteles espécimens biológicas diversas. 

Alguns meses após a sua morte, em 322 a.C. (ele morreu nesse ano), Aristóteles teve de sair de Atenas por conta de facções anti-Alexandrinas. De acordo com alguns pensadores da época, Aristóteles era baixo, tinha dificuldade de falar o z e o s corretamente, sarcástico, arrogante, elegante e bem casado.

Muito bem, essa é uma visão história da vida de Aristóteles, o primeiro biólogo. Agora, examinemos suas visões acerca do cérebro, que causaram furor e espanto a vários médicos e historiadores medievais, como o famoso Galeno de Pérgamo. 

Seguindo linha própria, Aristóteles acreditava que o coração, e não o cérebro, era o centro das emoções e dos movimentos. Seus argumentos procediam dessa forma:

O coração sofre com as emoções; todos os animais têm coração ou algo semelhante; o coração é a fonte de sangue, que é necessário para as sensações; o coração é quente, característica de uma vida superior; o coração é conectado com todos os órgãos dos sentidos e músculos via vasos sanguíneos; o coração é essenvial à vida; o coração é fromado primeiro e é o último a parar de funcionar; o coração é sensível; o coração localiza-se centralmente no corpo, apropriado para seu papel central.

Do cérebro, ele falava:

O cérebro não é afetado pelas emoções; nem todos os animais o possuem, mas mesmo estes sentem emoções; o cérebro não tem sangue; o cérebro é frio; o cérebro não se conecta aos órgãos dos sentidos; o cérebro não é essncial à vida; o cérebro é formado depois; o cérebro é insensível, e não se localiza em posição privilegiada.

Sabemos, hoje, que nada disso é verdade, mas era o que se pensava à época, em uma era onde dissecções eram raras e o conhecimento anatômico não era acompanhado do conhecimento de fisiologia, o funcionamento, dos órgãos. 

Aristóteles conhecia os argumentos dos filósofos antes dele, mesmo os de Platão, sobre o cérebro ser o local dos sentidos, emoções e movimentos, e chamava-os de falaciosos. Aristóteles acreditava que o cérebro servia somente para esfriar o sangue, e por isso, a falta de carne ao seu redor (os defensores da visão cerebral afirmavam que a falta de carne devia-se a facilitar a entrada das sensações ao cérebro). Da mesma forma, quando indagado por que os órgãos do sentido, como os ouvidos e os olhos, ficam tão perto do cérebro, Aristóteles afirmava que como o cérebro é fluido e frio, o olho é parecido com o cérebro em matéria, e por isso deveriam ficar próximos um do outro. Já o ouvido ficam dos lados para receber sons de todos os lados do corpo, e há animais que ouvem e sentem cheiro e não possuem seus sentidos na cabeça. 

Essa visão aristotélica foi ridicularizada na Idade Média. No entanto, Aristóteles afirmava que o cérebro só perdia para o coração em importância, e era essencial para o funcionamento correto do coração. O coração, quente, deveria ser contrabalançado pelo cérebro, frio. 

E qual o motivo aristotélico de o cérebro ser frio?

O sangue dentro dele é fino, puro e facilmente esfriável; os vasos dentro e fora do cérebro são muito finos, e permitem a evaporação e o seu esfriamento; e quando o cérebro é aquecido, e a água dentro dele evapora, permanece somente uma matéria dura, indicando que o cérebro é feito de água e terra, amos intrinsecamente frios.

Quando o cérebro esfria o vapor que chega do coração, forma-se o fleugma. Aliás, a glândula pituitária, ou hipófise, deriva seu nome do latim pituita, que quer dizer fleugma. 

De acordo com Aristóteles, o cérebro humano é o maior e mais úmido porque o coração humano é o mais quente e mais rico, e assim, a inteligência superior do homem depende de um cérebro grande para poder esfriar o sangue e o coração suficientemente para uma boa atividade mental. Aristóteles acreditava que o cérebro da mulher é menor que o do homem (foi ele quem disse isso!). Aristóteles não renegava o cérebro a segundo plano, como afirmava Galeno, mas o colocava em uma posição inferior ao coração, mas afirmava que a mente só funcionaria com o bom funcionamento do cérebro.

Apesar de todo o seu conhecimento e suas descobertas para a época, e apesar de vários filósofos antes dele, Aristóteles mantinha uma visão completamente diferente de todos os outros com respeito ao cérebro e suas funções. Aristóteles nunca estudou o homem com doença cerebral, enquanto Hipócrates e Alcmeon eram médicos, e viam o que acontecia quando havia lesão cerebral. Ou seja, estes afirmavam com superioridade clínica, ao passo que Aristóteles, tendo evitado a carreira médica, afirmava com a arrogância (que me perdoem os aristotélicos) de quem afirma sem nunca ter visto. E os acidentes eram as únicas fontes de informação sobre o que o cérebro fazia, em uma época quando os experimentos clínicos não existiam (somente com Galeno de Pérgamo, no século II d.C., que experimentos e dissecções começariam a ser feitos de forma sistemática). Mas Aristóteles chegou a afirmar que a doença mental pode ser derivada de um malfuncionamento da função de esfriamento do cérebro

Aristóteles dissecou 49 espécies animais, mas nunca o fez em um ser humano. Ele dissecou até elefantes, e dissecou vivos tartarugas e camaleões. Estes últimos animais eram frios (répteis, de sangue frio), o que pode tê-lo levado a formular suas teorias. Mas ele também dissecou vertebrados de sangue quente, como os elefantes citados acima, animais de sangue quente.

Aristóteles nunca se interessou por medicina, apesar ou devido ao seu pai. Aristóteles era um biólogo puro, e não utilizou seus conhecimentos na prática. 

E agora, vamos ao último post dessa viagem sobre os fundamentos neurológicos aristotélicos.

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Comente na minha página do Facebook - Dr Flávio Sekeff Sallem,
Médico Neurologista