domingo, maio 31, 2015

Encefalopatia isquêmica crônica

Antes de começarmos a falar sobre esse assunto, temos que definir os termos.

Encefalopatia é qualquer doença do cérebro (do grego, enképhalos + pathos).

Isquêmica refere-se a isquemia, ou seja, diminuição ou perda de sangue em uma determinada área de um órgão. Isquemias podem ocorrer no coração (o infarto do miocárdio é uma forma de isquemia), nos rins, e no cérebro, entre outros órgãos.
 
Já crônica, claro, refere-se a algo que tem duração longa, que começou há muito tempo ou vem se arrastando há meses ou anos, opondo-se a algo agudo (que tem duração curta, ou que começou recentemente) ou subagudo (que refere-se a algo que tem semanas de duração).
 
A isquemia é causada por problemas de fluxo de sangue pelos vasos cerebrais, desde os mais grossos, localizados no pescoço (carótidas e vertebrais) até os mais finos, que se localizam lá dentro do cérebro. Lesões cerebrais causadas por problemas de diminuição de sangue em uma determinada área podem ser únicas (quando só há uma única lesão isquêmica cerebral), ou podem ser múltiplas (quando há várias lesões dispersas pelo tecido cerebral). a lesão isquêmica é também o que chamamos de derrame.
 
Lesões únicas ou múltiplas podem produzir disfunção cerebral, ou seja, problemas com o movimento de membros, fala, linguagem (fala e linguagem são coisas diferentes; fala refere-se a alteração da articulação das palavras, e linguagem refere-se à produção e entendimento das palavras), marcha (o ato de andar), coordenação, e podem produzir alterações cognitivas, como perda de memória, atenção, dificuldade com movimentos finos, dificuldade de realizar atividades motoras aprendidas mesmo com força e coordenação normais (o que chamamos de apraxia), dificuldade com linguagem, abstração (capacidade de resolver problemas de cabeça e tirar conclusões não concretas, como quando pedimos ao paciente que tente abstrair o significado de um ditado), capacidade de planejamento, manter atenção, raciocínio, e outras funções.
 
A encefalopatia isquêmica crônica refere-se justamente a estas incapacidades cognitivas, mentais. Há pacientes com múltiplos derrames cerebrais que andam, mexem-se, têm força, mas têm perda de memória, perdem-se mesmo em casa, têm dificuldade em planejar o próprio dia, têm dificuldade de manter a atenção e de entender linguagem ou falar.

A encefalopatia isquêmica crônica têm relação com demência vascular, a forma mais importante de demência secundária a lesões cerebrais, e que se confunde facilmente com a doença de Alzheimer?

Sim, têm! Múltiplos derrames ou um derrame localizado em local estratégico, como no lobo frontal ou no tálamo, podem produzir demência, com alterações neurológicas como perda de força, sensibilidade, coordenação e linguagem, e problemas cognitivos que acabam caracterizando um quadro demencial.

3 comentários:

  1. Obrigada pela bela explanação ! Tinha grande dúvidas. Meu marido não aceita o diagnóstico.

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  2. Após ter sofrido uma craniotomia fronto-pterional em consequência de me ter sido diagnosticado um astrocitoma, e após 2 AIT diagnosticados e 6/7 cicatrizes, foi-me diagnosticado este problema. Da cirurgia resultaram tensão arterial elevada (habitual no meu caso é 16/9) e fases de quebra da memória, como algum desequilibro motor, sobretudo ao nível dos membros inferiores. Para além de efectuar sopas de letras, soduku e outros jogos similares como terapêutica retardadora de demência, que outras terapêuticos posso usar, para além das farmacológicas (Valproato semisódico 250mg, Telmisartan+Hidroclorotiazida 80mg+25mg, Atorvastatina 40mg, Clopidorgel 75mg)? Que implicações com diagnostico de Nódulo Frio da Tiróide (ablação cirúrgica do lado direito)?

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    1. Sugiro sempre atividades físicas (orientadas pelo cardiologista e técnico esportivo ou profisional de educação física), sono reparador e dieta do Mediterrâneo.

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Comente na minha página do Facebook - Dr Flávio Sekeff Sallem,
Médico Neurologista