terça-feira, setembro 13, 2011

Por que uma lesão de um lado do cérebro leva a fraqueza do outro lado do corpo?

Esta é uma questão que intriga todos os que não trabalham com neurologia. Quando um paciente vai ao consultório do neurologista com uma tomografia de crânio e uma queixa de perda de força de um lado do corpo, por exemplo o direito, fica sempre intrigado pelo fato de o neurologista culpar uma lesão do lado esquerdo do cérebro pelo problema. Hã? Mas não deveria ser o lado direito do cérebro o culpado? Não! E aqui você vai saber o porquê.

Na medula espinhal, que é a via de conexão do resto do corpo com o cérebro, há vários tratos, ou seja, vias de fibras (os corpos dos neurônios, ou seja, os axônios, que podem ser bem grandes) que sobem e descem. Estas vias se originam de neurônios e, ou sobem para fazer ligação (sinapse) com os neurônios no cérebro, ou descem para fazer sinapses com neurônios na própria medula ou em órgãos internos. Entre estes tratos, há três que podemos considerar os principais (há vários outros, mas vamos usar estes três para exemplificação):

1. Trato corticoespinhal lateral ou trato piramidal - É um feixe de fibras descendentes responsável pela movimentação do corpo. Há um do lado direito, e um do lado esquerdo.
2. Trato espinotalâmico lateral - É um feixe de fibras que sobre a medula (ascendente) e é responsável pela sensibilidade de temperatura, dor, e tato superficial do corpo. Da mesma maneira há dois, um de cada lado.
3. Trato ou fibras da coluna posterior da medula - Conjunto de fibras que sobem pela parte de trás da medula em duas colunas distintas, responsável pela sensibilidade dita profunda, ou seja, vibração e sensibilidade de posição do corpo no espaço. Também há um de cada lado da sua medula.

Cada um desses tratos cruza para o lado oposto. O trato piramidal desce do seu cérebro, vai até o tronco cerebral e lá cruza para o lado oposto (pelo menos a maior parte, 90% dele; os outros 10% descem para ajudar a movimentação do tronco do mesmo lado). O trato espinotalâmico logo ao nascer dos neurônios da medula já cruzam para o outro lado para subir ao cérebro, e o trato posterior vai cruzar lá em cima, no tronco cerebral também. Embaixo, vai um esquema mostrando estas vias de sensibilidade da medula:

https://encrypted-tbn2.gstatic.com/images?q=tbn:ANd9GcS5UvVd374uJY58MV6-eXVC-AGDBlJ5Qg5TvOKKxd4LwjIrfd7N


A via em cor de rosa é o trato espinotalâmico, e a via em verde é o trato posterior. Observe que a via cor de rosa entre na medula e já cruza para o lado oposto. Enquanto isso, a via verde vai cruzar lá em cima, já na parte baixa do cérebro, o tronco cerebral. As fibras que entram pelo lado direito são sentidas pelo hemisfério cerebral esquerdo, e vice-versa. Por isso que um derrame do lado direito dá perda de sensibilidade do lado esquerdo do corpo, e vice-versa.

Olhe esta outra figura abaixo:

http://4.bp.blogspot.com/-s23Cg_TpQPI/TaSJ8u-f3cI/AAAAAAAADfw/R1GtHdDDo3M/s1600/Pyramidal%2Btract.png

Esta figura mostra o trato piramidal. As fibras que se originam do hemisfério cerbral direito descem e cruzam no tronco, lá em baixo no cérebro, e vão para o lado esquerdo, e vice-versa. Mas 10% não cruzam, e ficam do mesmo lado. Por isso que um derrame do lado direito do cérebro dá fraqueza do rosto e do corpo do lado esquerdo, e vice-versa, mas o tronco (tórax e abdome) permanecem fortes do lado fraco, por que as fibras que descem pelo mesmo lado são as que inervam estes músculos.

Agora, por que isso ocorrer? Por que as fibras cerebrais cruzam? Não se sabe! Não se conhece o motivo, como se desenvolveu isso e a partitr de que ponto da evolução do homem isso ocorreu. Sabe-se, somente, que é assim que as coisas funcionam.

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Comente na minha página do Facebook - Dr Flávio Sekeff Sallem,
Médico Neurologista