quarta-feira, setembro 07, 2011

Para que serve o exame de eletroneuromiografia?

Outro desses nomes estranhos e supergrandes (Quando eu era pequeno, era uma dificuldade falar a palavra otorrinolaringologista. Você já tentou?). Mas os pacientes conhecem este exame como o exame dos choquinhos e das agulhas. Ficou na mesma? Vamos explicar:

Como já falei em vários posts anteriores, o sistema nervoso é formado pelos sistemas central, periférico e autonômico. O periférico são os nervos e os músculos. Não é difícil examinar os nervos sem vê-los de perto ou tocá-los. É simplesmente questão de saber onde cada nervo vai, para qual parte do corpo cada nervo vai e qual músculo cada nervo inerva, e o médico pode ter uma ideia de qual nervo está afetado.

Os nervos se dividem em motores, sensitivos e mistos. Os motores puros são aqueles cuja função é somente a movimentação muscular, e não têm outra função. No corpo, são raros estes nervos, e os mais conhecidos são os nervos cranianos oculomotor, troclear, abducente, acessório e hipoglosso (já falamos dos três primeiros em posts anteriores). Os sensitivos puros são aqueles cuja única função é a sensibilidade da pele e das mucosas (boca, língua, vagina, uretra, etc...). Aqui temos o cutâneo lateral da coxa, os cutâneos do braço e antebraço, e outros nervos. Os mistos são os mais comuns, e carreiam tanto sensibilidade como função motora. Alguns nervos também carregam informações çpara as glândulas do suor (sudoríparas), da salivação, para a motilidade dos órgãos internos e outras funções, ditas autonômicas, pois independem de nossa vontade.

Bem, mas o exame dos nervos e dos músculos é somente o exame clínico, de se pegar, palpar, mover, tocar o paciente e verificar sua força? Não, há um exame que nos permite examinar mais a fundo os nervos e os músculos do corpo, verificando sua estrutura, sua função e suas doenças. Esse exame é a eletroneuromiografia. E esse exame é tão importante que é considerado extensão do exame do consultório.

 A eletroneuromiografia é composta de duas partes: 1. A parte dos choquinhos, ou estudo de condução nervosa, onde o médico através de leves choques dados aos nervos através de eletrodos aplicados á pele consegue dizer como está a condução dos impulsos pelos nervos. 2. A parte das agulhas, é quando o médico insere agulhas nos músculos selecionados para estudo para verificar não somente como estão os músculos, mas também para determinar como está a condução dos nervos motores.

O exame não somente nos diz se há problemas do sistema nervoso periférico, como nos ajuda a determinar qual a origem deste problema. O médico experiente e com tempo adequado consegue dizer se o problema está na medula, nas raízes dos nervos, nos plexos, nos nervos em si ou nos músculos. Diz ainda se são só os nervos motores, só os sensitivos, ou os mistos que estão acometidos. E diz mais. Diz se a lesão está na bainha que reveste o nervo (mielina - lesão desmielinizante) ou no nervo em si (lesão axonal). O exame permite ao médico ainda dizer se há lesão muscular e o tipo de lesão, auxiliando no diagnóstico de doenças do músculo.

Logo, é um exame difícil e por vezes doloroso, mas nos traz informações que somente o exame de consultório muitas vezes não dá.

Abaixo você vê um vídeo em espanhol com legendas em português sobre a eletroneuromiografia (popularmente conhecido como ENMG ou EMG), tirado do youtube (copie e cole no seu browser para assistir - dura somente 4 minutos):


http://www.youtube.com/watch?v=q60Q1xVNMDM&feature=player_detailpage




segunda-feira, setembro 05, 2011

Neuralgia pós-herpética

Falamos do herpes zóster, e agora vamos falar de uma complicação do herpes que é a neuralgia pós-herpética.
O termo neuralgia fala de uma dor de origem neural, ou seja, uma dor que se origina no sistema nervoso. Aqui abro um parêntese para diferenciar dois tipos de dores, a dor nociceptiva e a dor neuropática.

A dor nociceptiva é a dor que ocorre quando sofremos uma lesão. Essa é a dor da lesão por queimadura, por objetos que nos cortam ou perfura nossa pele, por batidas e traumas, por fraturas ou luxações. Para ocorrer essa dor, deve haver lesão de tecidos, de estruturas do corpo, lesões da pele ou órgãos. Essa dor tem um objeto que a causa, uma tesoura, um caco de vidro, um pedaço de madeira, uma lasquinha de madeira, uma mordida de cão, um acidente de carro...

Já a dor neuropática é diferente de tudo isso. A dor dita neuropática ocorre sem lesão alguma, ou a lesão já ocorreu, já sarou, já cicatrizou, e a dor continua. Não há mais lesões, podendo haver cicatrizes. Não há mais inflamação visível na pele ou nos tecidos abaixo da pele. Mas a dor continua lá. Essa dor é ocasionada por mecanismos neurológicos de perpetuação de dor, que envolvem os próprios nervos, a medula e o cérebro. Substância são liberadas que mantém a dor, mesmo sem haver objeto que a cause. A dor aqui tem características próprias. Ela pode ser de leve a intensa, espontânea, piora quando toca-se a área lesada. Aqui há o que chamamos de hiperalgesia, que é o excesso de sensação dolorosa desproporcional ao estímulo, ou seja, toca-se a pele e a dor que se sente é insuportavel. Há também a hiperpatia, que são manifestações autonômicas (sudorese, batedeira no peito, falta de ar) e psíquicas (ansiedade, medo) com a estimulação do local dolorido, frequentemente também desproporcional ao estímulo. A alodinia é a sensação anormal de dor causada por estímulos que normalmente não causam dor. O paciente, por exemplo, com neuralgia pós-herpética pode ter sensibilidade local tão intensa que o simples tocar da roupa no local causa uma dor em fisgadas e queimação intensa e por vezes insuportável.

O nome pós-herpética significa que a dor ocorre após a infecção pelo vírus do herpes, geralmente passados 3 meses da infecção sendo que a dor continua lá, e não há mais lesões locais. Você não mais vê lesões bolhosas nem crostas. Somente cicatrizes, sem porventura houver.

A dor ocorre nos dermátomos afetados pelo herpes. Pode ocorrer depressão e ansiedade com a dor por conta dos sintomas. O tratamento deve consistir de medicações como antidepressivos para a dor e para a ansiedade/depressão, anticonvulsivantes como gabapentina ou carbamazepina, e medicações locais como a pomada de capsaicina, uma pomada de pimenta em variadas proporções (de 0,025% a 8%) com efeitos variados.

Essas medicações todas devem ser prescritas por médico competente nesta doença. Se você sofre de dor neuropática ou neuralgia pós-herpética, diminua seu sofrimento, vá a um neurologista ou neurocirurgião. E nunca se auto-medique.

O que aconteceria se a gente usasse 100% do cérebro?

Notícia adaptada da Superinteressante de agosto de 2011

Esse negócio de que só usamos 10% de nosso cérebro é balela. Na verdade usamos todo o cérebro (100% dele), mas não todo o seu potencial (ah, aí está a questão). Um ato tão simples quanto conversar com o colega ao lado pode ativar todas as áreas do cérebro. Mas só uma parte do potencial de cada uma. Se todas as áreas funcionassem em potência máxima, e ao mesmo tempo, teríamos uma capacidade de digerir informações, sensações e pensamentos muito maior. É como um computador: usando todos os seus recursos, o cérebro teria muito mais capacidade de processamento. Não ganharíamos superpoderes. Mas quebrar códigos, tirar conclusões e analisar situações seriam tarefas muito mais fáceis.

As informações são processadas através dos neurônios com a ajuda imprescindível de suas células de suporte, as células gliais (Leia aqui), e transmitidas de neurônio em neurônio através das sinapses. São o número, a variedade e a capacidade de criar e ativar sinapses, além das variáveis relacionadas às células gliais, que determinam o processamento e a capacidade mental de cada um.

Mas mesmo se todos nós fôssemos gênios, ainda assim, ninguém seria bom em absolutamente tudo. Alguns teriam facilidade para música, outros para física. Há algo, no entanto, que seria comum a todos: nosso cérebro ficaria cansado de tanto trabalho. E, exatamente como um computador, daria pau de vez em quando, nos deixando com uma bela dor de cabeça.

O cérebro é composto de várias áreas que podem ser ativadas por uma única sensação, um único estímulo. Há regiões cerebrais corticais para codificar ocores, sabores, estímulos visuais, estímulos de toque (táteis), estímulos auditivos, etc. Imagine-se cheirando uma flor. Imagine também que quando você tinha 13 anos de idade, e estava encantado pela sua amiguinha de escola, você deu esta flor a ela, mas antes sentiu o odor que saía de suas pétalas (poético). Hoje, anos mais tarde, você se depara com a mesma qualidade de flor, e ao cheirá-la vêm-lhe à memória as mesmas lembranças da garotinha daquela sua escola. Ou um odor traz-lhe à mente, imediatamente, sensações desagradáveis, como sensação de sufocamento ou desespero. Estas interações entre áreas cerebrais, entre regiões diferentes, são comuns e normais em todos nós, mas tornam-se intensas e numerosas em pessoas muito inteligentes, que conseguem fazer associações imediatas entre coisas aparentemente sem nexo, consegue tirar conclusões imediatas a partir de situações que lhe são apresentadas, ou conseguem fazer cálculos por métodos engenhosos.

É como uma pessoa que tem várias conexões sociais e profissionais. Quanto mais conexões pessoais você tiver, mais sucesso você poderá ter em sua vida social e profissional (Fonte: Esquisitologia. A estranha psicologia da vida cotidiana. Richard Wiseman. Ed BestSeller, 2008 - aliás, um ótimo livro).

domingo, setembro 04, 2011

Herpes Zóster

O herpes zóster, também chamado pelos antigos de cobreiro, é uma reativação de uma infecção antiga da varicela (chamada popularmente de catapora), geralmente em pacientes idosos ou com a imunidade abalada (imunodeprimidos).

Um vírus é uma estrutura composta de proteínas e um núcleo que pode conter tanto DNA como RNA (no homem e nos outros animais da natureza, o RNA serve para construir o DNA) (Veja imagem abaixo). Um vírus pode ser contido, mantido sob controle, mas dificilmente consegue-se a eliminação completa de um vírus de nosso corpo. Como os vírus vivem dentro de células, pois necessitam delas para se manter e multiplicar-se, eles acabam ficando contidos e controlados somente. Mas quando algo como queda de imunidade (como em caso de câncer, depressão ou AIDS) ocorre, esta contenção cai, e o vírus pode então voltar à ativa.

Vários tipos de vírus e suas estruturas:



Esta figura veio daqui:http://portaldoprofessor.mec.gov.br/fichaTecnicaAula.html?aula=1525

Por exemplo, o herpes simples, aquela lesão que vem e vai na boca entre a pele e o lábio, nada mais é do que a reativação de um vírus latente no gânglio do nervo trigêmeo. Da mesma maneira o herpes zóster, a reativação do vírus da catapora, latente nos gânglios que se comunicam como sistema nervoso central.

E quais são os sintomas do herpes zóster? O herpes zóster pode afetar qualquer local do corpo, como a região do olho (herpes zoster ophtlamicus), o ouvido e o nervo facial (herpes zster oticus), os membros ou, mais comumente, o tronco. No tronco, o local mais comum, o herpes costuma afetar uma faixa, de um lado ou do outro, e que corresponde a uma raiz nervosa, um nervo que tem ligação com a medula.

Antes de prosseguirmos, uma pequena nota de anatomia. Os nervos sensitivos do corpo comunicam-se com a medula seguindo padrões, chamados de dermátomos. Há vários dermátomos no corpo, e estes correspondem a um nível na medula. Observe abaixo um mapa dos dermátomos do corpo:

Esta figura veio daqui: http://www.psiquiatriageral.com.br/psicossomatica/neuro3.htm



Bem, se o vírus atinge o gânglio onde está o nervo responsável pela raiz de T4 (quarto segmento torácico ou dorsal), o paciente sentirá dores e fisgadas com dormência na região de T4 (que em geral é a região do mamilo). A lesão começa atrás, perto da coluna, e segue para a frente, nunca ultrapassando a linha média, ou seja, não vai para o outro lado, ao menos que os dois lados estejam afetados, o que é raro. Em geral, aparecem lesões vermelhas extremamente dolorosas, com uma base avermelhada, que ao longo dos dias vão secando e criando crostas. Pode sair secreção transparente ou purulenta das lesões. As lesões secam e curam após 14 a 21 dias, mas a dor e a dormência podem persistir por semanas. A dor pode se intensa a ponto do paciente não conseguir colocar as roupas ou se cobrir ou banhar.

As lesões podem acometer os braços ou pernas. Em geral, só um dermátomo é atingido, mas pacientes idosos, imunodeprimidos, com doenças crônicas ou AIDS podem ter mais de um segmento acometido. Nestes pacientes, e mesmo em alguns poucos pacientes saudáveis, as lesões podem ser muito extensas e muito dolorosas.

Não é uma imagem das mais bonitas, mas para aprendizado, aqui vai uma figura de uma lesão herpética:



Esta figura veio daqui: http://www.beltina.org/health-dictionary/herpes-zoster-treatment-symptoms.html

O tratamento varia, dependendo da extensão das lesões e do julgamento do médico que assiste o paciente, desde pomadas e medicamentos tópicos a uso de antivirais pela boca ou mesmo pela veia para casos mais graves, como o herpes que acomete a região ocular e o olho, ou o herpes que acomete o nervo facial. Tão importante quanto o tratamento é saber se há alguma doença por baixo da recidiva do vírus, como diabetes, malignidades ou outra doença que cause diminuição da imunidade. Isso só seu médico pode fazer. O que você tem de saber é, se isso ocorrer com você, não espere, e vá imediatamente a um médico, pois um tratamento mais rápido possível ajuda a diminuir a dor, a curar mais rápido das lesões, e possivelmente a evitar a complicações mais séria desta infecção, a neuralgia pós-herpética, da qual falaremos no próximo tópico (Referência)